Alcançamos a igualdade entre homens e mulheres na carreira acadêmica? (V.3, N.5, P.11, 2020)

Tempo estimado de leitura: 14 minuto(s)

Divulgadora da ciência: Gabriela Boechat

 

Você sabia que as mulheres brasileiras obtiveram a permissão para ingressar no ensino superior somente no final do século XIX, em 1879? Historicamente, as mulheres foram impedidas de transitar por vários espaços públicos, sendo um deles, a universidade. Um dos grandes avanços contemporâneos das políticas educacionais e do movimento feminista foi a entrada massiva de mulheres no ensino superior brasileiro. Segundo os dados de 2017 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), as mulheres obtiveram grande avanço e hoje são 56,95% nas matrículas dos cursos de graduação no Brasil[1].

 

Na pós-graduação, segundo o mesmo relatório, as mulheres eram 54,84% no mestrado strictu sensu e 53,54% no doutorado strictu sensu, o que poderia ser considerado o alcance da igualdade de gênero e o fim dos desafios para as mulheres na carreira acadêmica-científica. No entanto, os números escondem questões mais complexas que demonstram a existência de obstáculos a serem superados para se atingir uma comunidade acadêmica mais equitativa. Dois desses desafios, aqui apresentados brevemente, são a segregação vertical e horizontal, que impedem muitas mulheres de ascender na carreira acadêmica-científica.

 

A segregação Vertical

 

O que é a segregação vertical? É a compreensão de que as mulheres se encontram concentradas em posições menores da carreira acadêmica-científica. Pesquisas indicam que esse é um dos desafios para a igualdade de gênero dentro da comunidade científica: há um teto de vidro – ou seja, uma barreira invisível – que dificulta a entrada das mulheres nesses espaços.

 

Analisando alguns cargos de prestígio dentro da carreira acadêmica-científica, é possível notar a desigualdade existente entre os sexos feminino e masculino, que sustentam a hipótese da segregação vertical. Um exemplo são as Bolsas de Produtividade (PQ), oferecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – essas bolsas são oferecidas à pesquisadores que se destaquem em sua área com uma boa produção científica. Ao olhar para a distribuição dessas bolsas em masculino e feminino, nota-se que há uma significativa diferença entre homens e mulheres, revelando que nas bolsas com maior valor de prestígio (na tabela, em ordem decrescente), as mulheres não alcançam os 30%:

 

Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPQ por sexo (2015-2017)

Categoria/ Nível %Feminino %Masculino
2015 2016 2017 2015 2016 2017
SR 24,2 24,6 25,6 75,8 75,3 74,3
1A 24,6 25,0 25,9 75,4 75,0 74,0
1B 31,7 31,5 31,3 68,3 68,4 68,6
1C 36 35,7 35,4 64,0 62,2 64,5
1D 35,8 35,4 35,1 64,2 64,5 64,8
2 37,9 37,4 37,4 62,1 62,5 62,5
Total 35,5 35,3 35,3 64,5 64,6 64,6

Fonte: Encaminhado pelo CNPq via Lei de Acesso à Informação. Elaboração própria.

 

E, ao olhar para esses anos, observa-se que não é uma estrutura que está se alterando! Para além das bolsas de pesquisa, também é observado uma ausência feminina nos altos cargos de três importantes agências de fomento à pesquisa: a CAPES, o CNPq e a FAPESP[2]. Essas agências são responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico no país, ocupando importante posição na comunidade científica. Assim, observando a sequência histórica dos dirigentes da ciência desses locais desde a criação da instituição até o ano de 2017, temos que o CNPq e a FAPESP nunca tiveram uma mulher em sua presidência. Na CAPES, dos 20 ex-dirigentes da instituição, apenas 3 eram mulheres:

 

Porcentagem de presidentes das principais agências de fomento à pesquisa por sexo, FAPESP (1961-2017), CAPES (1952-2017) e CNPq (1961-2017)

FAPESP CAPES CNPq
%Masculino 100 85 100
%Feminino 0 15 0

Fonte: dados coletados das memórias das instituições, encontrados em: <http://www.fapesp.br/5192>, <http://centrodememoria.cnpq.br/Dirigentes.html>, < http://www.capes.gov.br/historia-e-missao>. Acesso em 01 de dezembro de 2018. Elaboração própria.

 

Ao analisar também os conselhos superiores ou deliberativos, definidos como o colegiado que dá orientações gerais e as decisões maiores de política científica, administrativa e patrimonial, das três instituições, temos que a presença feminina ainda é significativamente pequena:

 

Porcentagem de mulheres e homens presentes nos conselhos superiores das principais agências de fomento à pesquisa FAPESP, CAPES e CNPq em 2017

FAPESP CAPES CNPq
%Masculino 90,90 57,12 84,21
%Feminino 9,09 42,85 15,78

Fonte: dados coletados dos sites das instituições, encontrados em: <http://www.capes.gov.br/conselho-superior>, <http://www.cnpq.br/web/guest/conselho-deliberativo/>, <http://www.fapesp.br/32>. Acesso em 01 de dezembro de 2018. Elaboração própria.

 

Outro cargo de prestígio que as mulheres ainda são minoria são as reitorias das universidades. Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), apenas 29% de mulheres se encontravam na posição de reitora no ano de 2018[3] no universo das instituições federais. Assim, com esses dados, conseguimos enxergar que as mulheres ainda estão distantes dos cargos de tomada de decisão e de maior prestígio da carreira acadêmica.

 

A segregação Horizontal

 

Além da segregação vertical, outro desafio enfrentado pelas mulheres dentro da carreira acadêmica é a questão da segregação horizontal, ou melhor, da territorialidade do conhecimento. Dentro do universo acadêmico, as mulheres estão concentradas em algumas áreas de conhecimento, os chamados guetos femininos. Um dos meios de verificação dessa hipótese, é olhando para os dados da pós-graduação brasileira por área de conhecimento.

 

Porcentagem de alunos na pós-graduação do Brasil por grande área e sexo (2017)

  Mestrado Doutorado
%Feminino %Masculino %Feminino %Masculino
Ciências Humanas e Sociais 57,88 42,11 55,23 44,76
Engenharias, Ciências Exatas e da Terra e Ciências Agrárias 40,32 59,67 41,96 58,03
Ciências Biológicas e da Saúde 69,06 30,93 65,63 34,36

Fonte: Dados disponibilizados via Lei de Acesso à Informação. Elaboração própria.

 

Analisando os cursos de graduação das universidades públicas do Estado de São Paulo[4], foi possível constatar a discrepância entre as áreas que, muitas vezes, se traduz numa diferença entre as próprias instituições, segundo sua vocação de pesquisa e quantidade de cursos que contém em cada área:

 

Porcentagem de alunos matriculados nos cursos de graduação nas Universidades Públicas Paulistas, por grande área e sexo (2016)

UNIFESP UNESP UFSCAR UNICAMP USP UFABC
M F M F M F M F M F M F
Ciências Humanas e Sociais 41,30 58,69 41,42 58,57 37,08 62,91 44,75 55,24 50,73 49,26 59,54 40,45
Engenharias, Ciências Exatas e da Terra e Ciências Agrárias 55,78 44,21 67,27 32,72 65,43 34,56 70,06 29,93 70,90 29,09 70,72 29,27
Ciências Biológicas e da Saúde 32,13 67,86 36,01 63,98 38,25 61,74 62,46 37,53 34,28 65,21

Fonte: dados disponibilizados pelas universidades via Lei de Acesso à Informação. Elaboração própria.

 

De acordo com a tabela, nota-se que em todas as universidades públicas paulistas, os homens são grande maioria nos cursos que se encontram na área de Engenharia, Ciências Exatas e da Terra e Ciências Agrárias, enquanto as mulheres estão presentes com mais intensidade nos cursos de Ciências Humanas e Sociais e nas Ciências Biológicas e da Saúde.

 

Essa concentração em certas áreas também pode ser considerada como segregação pois implica em outros níveis de desigualdade, como por exemplo em número de bolsas concedidas pela CAPES, uma vez que essas bolsas são oferecidas em maior quantidade para os cursos de ciências exatas, área predominantemente masculina. Em 2017, para Ciências Exatas e da Terra e para Engenharias, a CAPES subsidiou R$385 mil reais em bolsas de mestrado e doutorado, enquanto para as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, apenas R$142 mil reais, que corresponde a aproximadamente 36% do mesmo orçamento[5].

 

Como essas desigualdades refletem na Universidade Federal do ABC?

 

A Universidade Federal do ABC (UFABC) é uma universidade recente, localizada no Estado de São Paulo, construída em 2011. No entanto, mesmo sendo uma universidade com uma proposta inovadora e que ainda está construindo a sua história, há uma grande discrepância entre a participação feminina e masculina na Universidade.

 

Dentre todas as Universidades Públicas Paulistas, na questão discente, a UFABC pode ser considerada a mais masculina de todas – com uma proporção de 1 mulher para cada 2,28 homens. Isso porque a grande parte de seus cursos são do campo das engenharias, ciências exatas e ciências sociais aplicadas. No quadro anterior, verificou-se que nas duas grandes áreas de conhecimento da UFABC, que compreendem os dois cursos de ingresso, Bacharelado em Ciências e Humanidades (BCH) e o Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT), há uma maioria masculina.

 

Quanto à docência, as mulheres também são minoria na universidade e se encontram em maior quantidade na área das ciências humanas, o que demonstra que além da segregação vertical, também há uma segregação horizontal dentro da universidade. Olhando para os três grandes centros[6] de ensino, pesquisa e extensão, nota-se que as mulheres estão em uma proporção de 1 docente feminina para cada 1,98 docente masculino. 

 

Porcentagem de docentes do sexo feminino e masculino da Universidade Federal do ABC por centro de ensino (2017)*

%Feminino %Masculino
CCNH 37,18% 62,81%
CMCC 29,28% 70,71%
CECS 32,73% 67,26%

Fonte: dados fornecidos pela SUGEPE via LAI. Elaboração própria.

 

Porcentagem de docentes do sexo feminino e masculino da Universidade Federal do ABC por curso de ingresso (2017)*

%Feminino %Masculino
BCH 41,71 58,92
BCT 31,74 68,25

Fonte: dados fornecidos pela SUGEPE via LAI. Elaboração própria.

*Exclui-se os professores visitantes e contabiliza-se apenas os docentes efetivos.

 

E para além da docência, há também uma discrepância entre os cargos administrativos[7] ocupados por mulheres na universidade. Em 2017, 70% dos cargos eram ocupados por homens[8]. Assim, ainda que a UFABC seja considerada uma Universidade do século XXI, precisa esforçar-se para incluir as mulheres no universo acadêmico.

 

Assim, vemos que, embora as mulheres alcançaram o número de homens numericamente no ensino superior, ainda há um longo caminho a ser enfrentado em relação às desigualdades internas da carreira acadêmica.

 

Na UFABC, existem algumas ações para fomentar a discussão: Mulheres na Ciência – Carreiras e Desafios, Menina Ciência e Mulheres na Computação UFABC. Além dessas ações, a temática está frequentemente sendo discutida em mesas organizadas na Semana da Mulher.

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[1] Dados encontrados no relatório de Sinopses Estatísticas da Educação Superior – Graduação, em sua tabela 1.3, em que discrimina as matrículas totais em cursos de graduação, abrangendo os cursos presenciais e a distância, separados por sexo, organização acadêmica e grau acadêmico (sendo bacharelado, licenciatura, tecnólogo e não aplicável), segundo a Unidade da Federação e a Categoria Administrativa das IES (instituição pública ou privada) no ano de 2017.

[2] Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

[3] Dados disponibilizados em <http://www.andifes.org.br> na aba Universidades. Acesso em 26 de fevereiro de 2019.

[4] Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do ABC (UFABC).

[5] Dados fornecidos pela CAPES via Lei de Acesso à Informação.

[6] Diretoria do Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH), Diretoria do Centro de Matemática, Computação e Cognição (CMCC), Diretoria do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas (CECS).

[7] Cargos administrativos: Reitoria, Vice-Reitoria, Chefe de Gabinete, Pró-Reitoria de Graduação, Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pró-Reitoria de Pesquisa, Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, Pró-Reitoria de Administração, Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento Institucional, Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas, Diretoria do Centro de Ciências Naturais e Humanas, Diretoria do Centro de Matemática, Computação e Cognição, Diretoria do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas, Relações Internacionais, Secretaria-Geral, Assessoria de Comunicação e Imprensa, Bibliotecas, Superintendência de Gestão de Pessoas, Núcleo de Tecnologia da Informação e Prefeitura Universitária.

[8] Dados fornecidos pela Universidade Federal do ABC, via Lei de Acesso à Informação.

 

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