|Série Biomas| Tecnologias para a conservação da Mata Atlântica (V.4, N.2, P.10, 2021)

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Esta série sobre Biomas é o resultado dos trabalhos da disciplina Ciência Ambiental, ministrada pelo professor Prof. Dr. Ricardo H. Taniwaki, no âmbito do Programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal do ABC.

Divulgadores da Ciência:

Fernanda Farias e Gustavo Urbani

A

história do Brasil está totalmente vinculada à história da supressão da Mata Atlântica.  Devido aos ciclos econômicos da história do nosso país (o do Pau-Brasil, do ouro, da cana-de-açúcar e posteriormente do ciclo do café) e mais recentemente em função da ocupação demográfica nas áreas urbanas, além da ocupação por pastagens, desmatamentos sistemáticos, lagos de represa hidroelétricas, picadas de linhas de transmissão, entre outros usos, a área da mata nativa foi reduzida a aproximadamente 7% da sua área original. A Mata Atlântica, originalmente, cobria uma região de aproximadamente 1,3 mi km2 e se distribuía ao longo de 17 estados brasileiros que iam desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. É considerada um dos cinco principais hotspots do mundo por apresentar alto índice de biodiversidade, endemismo e elevada taxa de desmatamento, tornando esse bioma ao mesmo tempo um dos mais ricos e ameaçados do planeta.

O uso capitalista desse bioma, pensando-se em produção em larga escala, criam pressões que provocam o desmatamento completo de grandes áreas, e também tendem a impedir o crescimento natural da vegetação secundária, ou chamada de “vegetação jovem”. Isso tem se mostrado evidente com o advento de uma plataforma chamada MapBiomas, em que regiões de Mata Atlântica vem sendo mapeadas desde 1985 até os dias atuais, com o intuito de identificar essas áreas e servir como base para estratégias de conservação e recuperação.

O MapBiomas teve início em 2015, quando um grupo de especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação tomaram a iniciativa de produzir mapas de uso e cobertura do solo para todo o Brasil, de maneira que fosse possível recuperar o histórico das últimas décadas, a fim de identificar os padrões de cobertura do solo do país. Esse projeto, ambicioso desde a sua concepção, já dava indícios da necessidade de elevado poder computacional para processamento dos dados, para que tivesse êxito da maneira que foi concebido. Com isso, os idealizadores do MapBiomas entraram em contato com a Google, que já possuía um serviço ideal que supriria as necessidades tecnológicas do MapBiomas: a plataforma Google Earth Engine, uma ferramenta de processamento geoespacial via nuvem, que possui elevada capacidade de analisar dados ambientais em escala planetária. A empresa norte americana se mostrou interessada no projeto após o contato da equipe brasileira, onde foi estabelecido um termo de cooperação técnica, e assim o MapBiomas foi produzido com base na plataforma Google Earth Engine.

O projeto que atualmente é um sucesso e conta com mais de 13 financiadores, nacionais e internacionais, preza por disponibilizar seus mapas para o público em geral, cada vez mais precisos e ricos em informações e conta com a constante adição de novas tecnologias para captação dos dados base. Além do time fixo de contratados do MapBiomas, há também a atuação de pesquisadores especializados de acordo com o bioma e região analisada. Para o bioma assunto deste artigo, uma das parcerias mais importantes que o projeto possui é a ONG SOS Mata Atlântica, que além de contribuir para uma maior acurácia dos mapas produzidos referentes a este bioma no Brasil, também atua promovendo iniciativas para que a Mata Atlântica seja preservada nos dias atuais e consiga se recuperar da intensa degradação que sofreu no passado.

Uma das novas tecnologias incorporadas pelo MapBiomas com o objetivo de contribuir na restauração da Mata Atlântica, é o mapeamento a laser do bioma com o LiDAR (Light Detection and Ranging), uma tecnologia que mapeia uma região desejada e fornece, em forma de nuvem de pontos 3D, informações que permitem gerar métricas para o monitoramento da restauração florestal. Por exemplo, com os dados provenientes do LiDAR é possível verificar a altura média dos dosséis em uma área de estudo, grandeza essa que está relacionada diretamente com o estoque de biomassa da floresta, que, dado um referencial, pode ser utilizado como indicador se as ações de restauração estão dando certo ou não na área monitorada. Outras informações que podem ser extraídas da nuvem de pontos 3D são tipologias florestais, complexidade estrutural, regeneração natural e diversidade de árvores.

Tão importante quanto a restauração da Mata Atlântica é o combate ao desmatamento da mesma. Para isso, a plataforma conta com o MapBiomas Alerta, um sistema de validação e refinamento de alertas de desmatamento, degradação e regeneração de vegetação nativa com imagens de alta resolução. Essa iniciativa também conta com o apoio da SOS Mata Atlântica. Um dado relevante é que para o ano de 2020, já foi registrado um aumento de 30% nos alertas de desmatamento desde o último período mapeado, atentando para como ainda é atual promover a preservação da Mata Atlântica. Em linhas gerais, o MapBiomas tem mostrado que o desmatamento das florestas mais antigas (que são mais ricas em carbono) tem atingido certa estabilidade, ao contrário das florestas mais jovens (secundárias), que acabam sendo suprimidas e por isso, atualmente, essas poderiam ser um dos focos da conservação.

Além dessa ferramenta valiosa, outras estratégias vem sendo estabelecidas para a recuperação dessas áreas como parcerias eficazes com Secretarias do Meio Ambiente e Ministérios Públicos; maior diálogo com os estados e municípios almejando maior eficiência em processos fiscalizadores; criação de um esforço coletivo que envolva todas as esferas sociais (poder público, bancada ruralista, setor industrial e população), aliando o uso do MapBiomas para fundamentar políticas de desmatamento zero; políticas públicas que evitem a morte das florestas jovens; e leis eficientes que garantam o uso dos serviços ecossistêmicos de maneira sustentável, levando em consideração desenvolvimento socioeconômico e exploração de recursos. 

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