|Série Biomas| O que você precisa saber sobre a caatinga (V.4, N.1, P.5, 2021)

Tempo estimado de leitura: 14 minuto(s)

Esta série sobre Biomas é o resultado dos trabalhos da disciplina Ciência Ambiental, ministrada pelo professor Prof. Dr. Ricardo H. Taniwaki, no âmbito do Programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal do ABC.

Divulgadoras da Ciência:

Amanda Rodrigues de Souza é Bacharel em Física Computacional pela UFF/Volta Redonda e estudante de Mestrado do Curso de Pós Graduação de Ciência e Tecnologia Ambiental da UFABC/Santo André.

Ana Carolina Medeiros de Camargo é Bacharel em Ciências e Tecnologia e estudante de Engenharia Ambiental pela UNIFESP/Santos e estudante de Mestrado do Curso de Pós Graduação de Ciência e Tecnologia Ambiental da UFABC/Santo André.

O Mapa do Brasil setorizado pelos biomas e fotografias de animais e plantas que vivem na Caatinga. Referências das imagens: [23], [17], [24], [22] e [15].

De forma simples, bioma pode ser definido como um espaço geográfico com condições climáticas e vegetação semelhantes e bem definidos. Levando em conta essa definição o Brasil tem seis biomas: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. Porém hoje sabemos que dentro dessas áreas que chamamos de Biomas há diversos biomas distintos dentro deles, com suas características próprias e suas belezas. Muitos acreditam que a Caatinga é uma terra arrasada, com chão rachado, cactos, calangos e seca. Mas aqui vamos falar um pouquinho mais sobre esse bioma, suas riquezas e problemas.

Caatinga significa “Mata Branca”. Os índios os chamavam assim porque no período de seca as árvores perdem as folhas e seus troncos ficam, em sua maioria, esbranquiçados. Mas no período chuvoso, os tons da Caatinga mudam com a rebrota da vegetação.

Caatinga, também chamada de “Mata Branca”. [4]

A Caatinga abrange parte dos estados de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e a parte nordeste de Minas Gerais. Correspondendo a 70% da Região Nordeste e 10% do território Nacional.

Na porção semiárida da Caatinga, no período de seca, a temperatura do solo pode chegar a 60°C, o que acelera a evaporação das águas dos rios e lagos. Por isso, a maioria dos rios são os chamados intermitentes (que secam no período do ano que não há chuva). Porém há na Caatinga um rio bem conhecido que não é intermitente, o Rio São Francisco.

Mesmo com 41% da Caatinga nunca ter sido investigada e 80% da sua área total tenha sido subamostrada, já foram registradas:

  • 932 espécies de plantas vasculares;
  • 187 de abelhas;
  • 241 de peixes;
  • 177 de répteis;
  • 79 de anfíbios;
  • 74 famílias e 591 espécies de aves;
  • 178 espécies de mamíferos.

Dentre eles está a ararinha azul, um animal bem conhecido pela cultura popular brasileira.

Uma característica interessante da Caatinga é a falta de espécies de plantas perenes (espécies que duram vários anos) e a presença de muitas espécies efêmeras (plantas com ciclos de vida curtos, ou seja, as que completam o seu ciclo nos primeiros 45 dias após o início das chuvas).

Mas a Caatinga não é homogênea, há diferentes tipos de vegetações dentro delas, com aspectos visuais diferentes que estão adaptadas aos diferentes de climas, relevos e solos. Ou seja, outros biomas dentro do Bioma Caatinga.

Imagens retiradas das referências [14] e [16].

A caatinga é considerada o bioma com menor extensão protegido e um dos mais degradados do Brasil, ameaçado devido às alterações provocadas pelas atividades humanas e pela falta de infraestrutura básica, tornando-a extremamente vulnerável.

Desde o período de colonização, foi observada a destruição das florestas mais robustas para a construção de casas, cercas e fazendas. Já em 1993, o IBGE calculou que 27,5% da vegetação nativa da caatinga já havia se perdido.

Atualmente, a caatinga está fragmentada. Existem apenas 47 unidades de preservação, sendo que dos 13 principais tipos de vegetação, 4 não estão representados em nenhuma unidade de conservação.

Unidades de Conservação na caatinga.[5]

Essa descaracterização da fisionomia da caatinga pode alterar drasticamente o equilíbrio do ecossistema, provocando a perda de diversas espécies animais e vegetais, além de comprometer o já limitado fluxo hídrico da região, dificultando a vida de aproximadamente 15% da população que a habita.

A atividade praticada no local não é sustentável, como a agricultura de corte e queima, a caça de animais e a contínua remoção de vegetação para a criação de caprinos e bovinos. Nos últimos anos tem-se observado uma perda de vegetação nativa na região, além de um aumento de pastagens para gado.

Alguns destes impactos já são sentidos no ambiente. Segundo o INPE, em outubro de 2017 houve um incêndio de grandes proporções na caatinga, em que as queimadas consumiram mais de mil hectares do bioma, ocasionadas por práticas agrícolas.

Imagens retiradas das Referências [1], [8], [18] e [9] respectivamente

Para se proteger um ecossistema, a primeira coisa que precisamos fazer é conhecê-lo. Ninguém cuida do que não conhece, não é mesmo?

Por isso é importante fazer pesquisa e catalogar as espécies (seja de planta ou de animais), assim saberemos como aquele ambiente é. Se as espécies são ditas endêmicas (característica daquela região) ou se ela também pertence a outros biomas, se há espécies ameaçadas de extinção e espécies exóticas (que não são nativas daquele local).

Hoje em dia pouco se conhece sobre a Caatinga e isso se reflete na sua proteção. Apenas 8.4% se seu território é protegido em unidades de conservação. A maior parte são para uso sustentável e ainda há uma pequena parcela sobre a proteção das comunidades indígenas (0.24% da área total do bioma).

Em 2010, o Ministério de Meio Ambiente promoveu o encontro de mais de 150 decisores do setor público e privado para selecionar as áreas de ações mais importantes para a conservação da Caatinga. O resultado foi a identificação de 57 áreas prioritárias para investigação científica, 25 áreas prioritárias para a investigação e o esboço de um grande corredor de biodiversidade ao longo do rio são Francisco.

Um dos fatores que prejudica a preservação do Bioma Caatinga é a falta de prioridade dos governos locais. É de se imaginar o porquê disso, essa região é populosa, tem a menor expectativa de vida, menor renda per capita e o maior analfabetismo do país. Porém o que poucos enxergam é o potencial que o bioma tem para ajudar a economia.

Podemos citar o Parque Nacional da Serra das Capivaras que faz um trabalho bem interessante promovendo na área de preservação o ecoturismo, movimentando a economia local e gerando emprego no Piauí, além de dar oportunidade aos turistas de ver de perto as belezas deste bioma, fazendo um papel muito útil de educação ambiental.

Outro modo de se proteger esse frágil bioma, é o uso de tecnologias sustentáveis. Com isso a população pode viver em harmonia com o bioma, sobrevivendo às variações de clima e assim minimizando os impactos ambientais causados pela atividade humana. Entre elas podemos citar:

  • Cisternas: Estrutura para coletar e armazenar água da chuva. A cisterna fica semi enterrada no chão e fechada, garantindo água o ano todo e sem precisar de grandes obras de abastecimento;
  • Meliponicultura: Criação de abelhas nativas que não possuem ferrão (como Abelha Jandaíra). Tal atividade se enquadra nas práticas agrícolas economicamente viáveis, ecologicamente sustentáveis e socialmente justas, gerando renda, além de ajudar a plantar árvores (devido a polinização);
  • Queimada Controlada: Caso não haja outra alternativa ao uso da queimada, existe uma técnica apropriada para sua execução. Como fazer a queimada de madrugada, estudar a umidade e direção dos ventos para que o fogo não perca o controle e realizar um aceiro (uma faixa de terra onde não há vegetação, construída para impedir a passagem do fogo).

Com a utilização de práticas sustentáveis, conscientização da sociedade e ação por parte dos órgãos competentes, poderemos proteger um de nossos maiores patrimônios naturais.

Imagens retiradas das referências [25], [11] e [3] respectivamente.

Referências:

  1. AGÊNCIA BRASÍLIA. Aceiros negros previnem queimadas na Estação Ecológica Águas Emendadas. 2017. Flickr. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/agenciabrasilia/35346634530/. Acesso em: 8 out. 2020.
  2. ARAÚJO FILHO, J. A., CARVALHO, F. C. “Desenvolvimento Sustentado da Caatinga”, Circular Técnica – EMBRAPA, v. 13, p. 19, 1997. .
  3. ARAÚJO, R. Serra do Pico – Parque Nacional do Catimbau. 2011. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Serra_do_Pico_(Parque_Nacional_do_Catimbau).jpg. Acesso em: 6 out. 2020.
  4. CAATINGA bioma brasileiro. 2017. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:CAATINGA_bioma_brasileiro.jpg. Acesso em: 8 out. 2020.
  5. BILAR, A. B. C., DE MENDONÇA PIMENTEL, R. M. “Community participation in the management and protection actions of plant biodiversity in protected areas”, Desenvolvimento e Meio Ambiente, v. 53, p. 151–166, 2020. DOI: 10.5380/dma.v53i0.67119. .
  6. DE OLIVEIRA, A. P. C., BERNARD, E. “The financial needs vs. the realities of in situ conservation: an analysis of federal funding for protected areas in Brazil’s Caatinga”, Biotropica, v. 49, n. 5, p. 745–752, 1 set. 2017. DOI: 10.1111/btp.12456. .
  7. FONSECA, C. R., ANTONGIOVANNI, M., MATSUMOTO, M., et al. “Oportunidades de conservação na Caatinga”, Ciência e Cultura, v. 70, n. 4, p. 44–51, out. 2018. DOI: 10.21800/2317-66602018000400013.
  8. Cisterna de placas em Paratinga. 2016. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cisterna_de_placas_em_Paratinga.jpg. Acesso em: 8 out. 2020.
  9. FRTZ, M. Meliponicultura. 8 out. 2009. Flickr. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/kali_lin/3812876635/. Acesso em: 8 out. 2020.
  10. HAUFF, S. N. Representatividade do Sistema Nacional de Unidades de Conservação na Caatinga. Programa Das Nações Unidas Para O Desenvolvimento. Brasília, Ministério do Meio Ambiente. , 2010
  11. Parque Nacional da Chapada Diamantina – Bahia. 2015. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Morrão_-_Parque_Nacional_da_Chapada_Diamantina_-_Bahia_02.jpg. Acesso em: 6 out. 2020.
  12. Imagem – Nordeste Brasil Sertão Caatinga. 2015. Pixbay. Disponível em: https://pixabay.com/pt/illustrations/nordeste-brasil-sertão-caatinga-1049943/. Acesso em: 7 out. 2020.
  13. LEAL, I. R., DA SILVA, J. M., TABARELLI, M., et al. “Mudando o curso da conservação da biodiversidade na Caatinga do Nordeste do Brasil”, Megadiversidade, v. 1, n. 1, p. 8, 2005. .
  14. MARQUES, T. Queimadas já consumiram mais de mil hectares de Caatinga em Guanambi e Palmas de Monte Alto só esse mês. 24 out. 2017. Agência Sertão. Disponível em: https://agenciasertao.com/2017/10/24/queimadas-ja-consumiram-mais-de-mil-hectares-de-caatinga-em-guanambi-e-palmas-de-monte-alto-so-esse-mes/. Acesso em: 8 out. 2020.
  15. OLIVEIRA, E. Ararinha-azul ganha novo plano de conservação que prevê soltura na natureza até 2021. 2019. Portal de Notícias G1. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/08/04/ararinha-azul-ganha-novo-plano-de-conservacao-que-preve-soltura-na-natureza-ate-2021.ghtml. Acesso em: 8 out. 2020.
  16. PATRULHA AMBIENTAL ITINERANTE. Desmatamento da Caatinga. 2017. Patrulha Ambiental Itinerante. Disponível em: https://patrulhaambientalitinerante.blogspot.com/2017/12/desmatamento-da-caatinga.html. Acesso em: 8 out. 2020.
  17. Mandacaru (Cereus jamacaru). 2017. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mandacaru_(Cereus_jamacaru)_01.jpg. Acesso em: 6 out. 2020.
  18. SENA, L. M. M. de. Conheça e Conserve a Caatinga – Educação Ambiental – Vol. 4. Fortaleza, [s.n.], 2012a.
  19. SENA, L. M. M. de. Conheça e Conserve a Caatinga – O Bioma Caatinga. Vol. 2. Fortaleza, [s.n.], 2011a.
  20. SENA, L. M. M. de. Conheça e Conserve a Caatinga – O Bioma Caatinga – Vol. 1. Fortaleza, [s.n.], 2011b. v. 1. Disponível em:
  21. SENA, L. M. M. de. Conheça e Conserve a Caatinga – Tecnologias Sustentáveis – Vol.3. Fortaleza, [s.n.], 2012b
  22. SILVA, T. Imagens Juazeiro. 2008. Agência Embrapa de Informação Tecnológica. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/bioma_caatinga/arvore/CONT000g79856tg02wx5ok0wtedt3bn2rn65.html. Acesso em: 6 out. 2020.
  23. SOURCE, H. Biomas do Brasil. 2016. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Biomas_do_Brasil.svg. Acesso em: 6 out. 2020.
  24. Cebus libidinosus Serra da Capivara. 2008. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cebus_libidinosus_Serra_da_Capivara.jpg#/media/Ficheiro:Cebus_libidinosus_Serra_da_Capivara.jpg. Acesso em: 6 out. 2020.
  25. WARCHAVCHIK, A. Pedra Furada – Serra da Capivara. 2013. Ficheiro Wikipédia. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedra_Furada_-_Serra_da_Capivara_I.jpg. Acesso em: 6 out. 2020.

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