Covid-19, vacina e ciência: vivendo o presente de olho no futuro (V.3, N.11, P.7, 2020)

Tempo estimado de leitura: 19 minuto(s)

Divulgadores da Ciência:

Denise Villas Bôas Saleh [Lattes]

Evandro Luis Niero [Lattes]

 

A vacina é uma estratégia de prevenção de doenças infecciosas (vírus, bactérias) que levam a melhoria na qualidade de vida e da saúde da população. Vacinação não é apenas uma forma de proteção individual, mas também uma maneira de proteger uma população como um todo. Se não houver uma cobertura vacinal adequada, doenças graves que hoje em dia são consideradas extremamente raras podem reaparecer. Você já parou para pensar que sua decisão individual de não se vacinar ou de não vacinar seus filhos pode causar sofrimento ou até mesmo a morte de algumas pessoas? E não estamos falando apenas daquela pessoa distante, que você mal conhece, mas também de seus vizinhos, seus pais, filhos, avós e amigos próximos. Alguns indivíduos simplesmente não podem ser vacinados devido a condições de saúde que os impedem de receberem as doses necessárias das vacinas.

 

A doença do coronavírus (Covid-19) é uma doença infecciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2 que apresenta um material genético de RNA e um envelope viral. A maioria das pessoas que adoece apresenta sintomas de leves a moderados e se recupera sem tratamento especial, porém até começo de outubro, mais de 145 mil mortes ocorreram no Brasil e cerca de 1.000.000 no mundo.

 

A falha em conter o novo coronavírus provocou essa temerosa pandemia e, por isso, uma corrida para a produção de uma vacina tem mobilizado pesquisadores do mundo inteiro.

 

Para superar qualquer medo, não há aliado melhor que o conhecimento. Então, que tal aprender um pouco sobre a vacina contra o SARS-CoV-2, o vírus da Covid-19?

Começaremos contando um pouco de história sobre a vacinação no Brasil, apresentaremos alguns conceitos de resposta imune, falaremos do Sars-cov2 e dessa corrida para produção de uma vacina que poderá restabelecer certa normalidade nas nossas vidas. Vamos lá?

 

Como nosso corpo se protege contra ataques de vírus e bactérias?

Indivíduos saudáveis protegem-se dos microrganismos patogênicos, conhecidos como antígenos, por muitos mecanismos diferentes. Podemos dividi-los em imunidade inata (ou natural) e imunidade específica (ou adquirida). A imunidade natural é formada por células e substâncias que já estão prontas no nosso corpo, mesmo antes do antígeno estar presente. Por outro lado, a imunidade adquirida é, como o próprio nome diz, adquirida, ou seja, só é ativada após o contato com o antígeno, como por exemplo o SARS-CoV-2.

 

É a imunidade adquirida que deve ser ativada quando tomamos uma vacina. Ela é formada por dois grupos de células principais: os linfócitos B e os linfócitos T. Os linfócitos T são responsáveis pela imunidade celular, isto é, são células que são ativadas ou formadas para destruir o microrganismo. Os linfócitos B são responsáveis pela produção dos anticorpos. Uma vez que os anticorpos não são células, mas biomoléculas também chamadas de imunoglobulinas (Ig), essa resposta é chamada imunidade humoral. Estes anticorpos estão presentes no plasma do sangue, no muco, na saliva etc.

 

Sabe aqueles exames rápidos para detectar se você já foi infectado pelo SARS-CoV-2? Um dos exames, o sorológico, detecta os anticorpos contra o coronavírus. Quando o resultado é reagente para o anticorpo chamado IgG, você já teve a Covid-19. Se o resultado é reagente para o anticorpo IgM, significa que você ainda tem o vírus e pode transmitir, pois o vírus está se replicando e pode estar na sua saliva, no muco presente no seu nariz e outros fluidos corporais.

 

O mais importante de tudo isso é que quando você tem uma doença qualquer que ative a resposta imune específica (as dos linfócitos T e B), seu corpo guarda essa informação na memória imunológica. Veja bem: não se trata do seu cérebro se lembrando dos sintomas ou da febre que você teve. Trata-se do seu corpo formando células de memória que irão agir muito mais rapidamente se você tiver um segundo contato com aquele mesmo microrganismo e você nem vai perceber que foi infectado.

 

As vacinas são usualmente substâncias constituídas por agentes patogênicos (vírus ou bactérias), atenuados ou mortos, ou seus derivados. Elas estimulam seu sistema imunológico a produzir anticorpos e células de memória que atuam contra os agentes patogênicos causadores de infecções.

 

Alguém pode se revoltar por ter que tomar vacina?

A resposta é sim!

 

Vamos voltar ao ano de 1904, quando ocorreu a chamada “Revolta da vacina”, no Rio de Janeiro. Nessa época havia muitos casos de varíola no mundo e grande número de mortes, apesar de já existir a vacina para essa doença fatal. Então, Oswaldo Cruz, um grande médico sanitarista, motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para que a vacinação fosse obrigatória no Brasil. Essa lei vinculava a vacinação à pessoa conseguir contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, etc. Desse modo, a população era, de certa maneira, obrigada a se vacinar.

 

Além disso, uma campanha de saneamento tinha sido implantada no Rio de Janeiro, permitindo a agentes de saúde entrar nas casas das pessoas para eliminar ratos e insetos, provocando a destruição de muitas casas, e até mesmo desalojando parte da população mais pobre. Juntando-se a isso, diversos problemas políticos deixavam a população bastante descontente. Em novembro de 1904, manifestações aconteceram pela cidade do Rio de Janeiro. Esse movimento ficou conhecido como “Revolta da Vacina”. A população tomou as ruas da cidade por 10 dias, o que levou o poder público a realizar uma repressão policial. Dessa revolta resultaram mortes e prisões de manifestantes, e a obrigatoriedade da vacinação não teve continuidade.

 

Felizmente, depois desse evento não ocorreu mais nenhuma manifestação violenta, e nos anos 30, 40, 50 outros movimentos surgiram para vacinar a população contra febre amarela e tuberculose (BCG), principalmente na zona rural. O contato das pessoas de todos os níveis sociais, campanhas esclarecedoras e um aumento no investimento na saúde pública, com presença de agentes de saúde em diversas localidades brasileiras, devem ter sido os fatores que levaram as pessoas a enxergarem a vacinação (imunização) como algo benéfico, protetor e positivo.

 

Chegamos à década de 70, e o Brasil se encontrava em plena ditadura militar. Nessa época, o governo militar reprimia qualquer forma de manifestação em espaços públicos. Por sorte, em relação à saúde pública, a reação do povo foi contrária àquela de 1904, isto é, uma adesão voluntária da maior parte da população foi vista nos postos de vacinação. Aglomerações semelhantes a festas se formaram nesses postos, com 90 % da população sendo vacinada contra a varíola.

 

 Provavelmente nessa época foi consolidada na mente dos brasileiros a importância da imunização.  Esses fatos, junto com uma maior ação do setor público na área de Saúde, levaram à criação do Plano Nacional de Imunização (PNI) em 1973, que hoje é considerado um modelo com uma rede muito bem estruturada e capacitada.  O país obteve excelência em cobertura vacinal, com uma logística impecável e sem falta de suprimentos para vacinação, mesmo em lugares remotos.

 

Como anda a cobertura vacinal no Brasil?

Infelizmente, uma queda nos índices de vacinação se iniciou em 2010 e os números continuam a cair. Nos últimos anos tivemos as piores taxas de vacinação desde 2000. Você não acha que isso é um problema? Em 2018 o Brasil perdeu o Certificado de País Livre de Sarampo dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e está sofrendo com o surto dessa doença em várias partes do país. 

 

Quais são as razões para essa diminuição da cobertura vacinal? Não temos uma resposta exata para essa pergunta, mas provavelmente vários fatores influenciam nessa diminuição como:

  • Circulação crescente de notícias falsas sobre vacinas nas redes sociais. São tantas bobagens não científicas que não temos coragem de reproduzir as mentiras ou inverdades que recebemos via Facebook,Instragram, Whatsapp, e outras redes sociais;
  • Falta de informação sobre imunização dentro do setor privado de Saúde, com uma diminuição da cobertura vacinal na população de maior renda;
  • Práticas antivacina em alguns ramos da medicina alternativa, como homeopatia e antroposofia. Essas práticas iniciaram-se na classe A e se espalharam para outras classes sociais;
  • Falsa sensação de segurança contra doenças que tiveram sua incidência diminuída após décadas de políticas públicas bem-sucedidas. Será que as gerações Z e Millenium conhecem alguém que teve poliomielite, sarampo ou meningite?
  • Falha de comunicação dos órgãos de saúde com a população. Cadê o Zé Gotinha? Precisamos repensar uma forma de melhorar a comunicação com a sociedade?
  • Crise do Sistema Único de Saúde (SUS). Você já ouviu alguém reclamar que foi ao posto de Saúde para vacinar seu filho, mas o posto não tinha a vacina? Eu já.

 

Você sabia que o Brasil é referência mundial em produção de vacina e que além de distribuir 25 tipos de vacinas gratuitamente na rede pública de saúde, exporta para mais de 70 países, sobretudo aos países africanos?  Pois é, o calendário vacinal do Brasil é um exemplo para outros países, mas, infelizmente, podemos deixar de ocupar esse posto nobre devido à diminuição nas taxas de vacinação.

 

Em que pé está a produção da vacina contra SARS-CoV-2?

A corrida pela vacina contra a Covid-19 envolve, até o momento, 30 projetos já em pesquisa clínica (em humanos) e outros 139 em avaliação pré-clínica (em estudos de laboratório ou com animais), de acordo com a OMS. As composições das vacinas e modo de produção são diferentes. Se as projeções mais otimistas se tornarem realidade, a vacina contra a Covid-19 será desenvolvida no menor período dentre todas as vacinas já criadas. Só para efeito de comparação, a vacina de caxumba, uma das mais rápidas a ser desenvolvida, demorou 4 anos para estar disponível à população. Essa pressa mostra a urgência que essa pandemia pede.

 

Várias tecnologias estão sendo empregadas para geração da sonhada vacina contra o coronavírus, alguns exemplos de tecnologia para produção de vacinas são:

– Vírus inativados: a vacina é produzida com o vírus inteiro, mas ele é morto por processos químicos ou biológicos.

– Vírus vivo atenuado: para a produção dessa vacina o vírus é passado para um sistema de hospedeiro não natural que torna o vírus atenuado, isto é, o vírus é vivo, se replica no nosso corpo e produz anticorpo, mas não provoca a doença. Como exemplo dessas vacinas temos: contra poliomielite, contra rotavírus e febre amarela.

– Proteína recombinante:  a vacina é formada de uma porção proteica do vírus sendo suficiente para gerar uma resposta imunológica.  Um exemplo é a vacina da Hepatite B. Essa vacina consiste de um antígeno presente na superfície do vírus da hepatite B, sendo produzido em células de levedura. O antígeno, depois de produzido, é extraído e purificado.

No caso do coronavírus, as espículas virais são a escolha mais comum.

– Vacina gênica: ou vacinas de DNA não são baseadas no próprio patógeno, como as vacinas atenuadas ou inativadas e sim, na informação genética do mesmo.  Em teoria, as células de defesa traduziriam a informação genética contida nesse ácido nucleico, produzindo anticorpos correspondentes. Infelizmente, a história mostrou que as perspectivas não são boas para o desenvolvimento desse tipo de vacina.

– Vetores virais (replicantes e não replicantes): genes do coronavírus seriam inseridos nas cápsulas de vírus atenuados já conhecidos, como o vírus da gripe ou do sarampo.

 

Nove daqueles 30 projetos estão na última fase de testes em humanos (a chamada fase 3), em que o produto é aplicado em milhares de pessoas. Obviamente, existem protocolos para todas as fases das pesquisas para produção dessas vacinas até que se possa aplicar tais substâncias em seres humanos. Todas as etapas de pesquisas clínicas para produção de drogas devem ser meticulosamente verificadas por órgãos responsáveis nos diferentes países onde essas substâncias serão utilizadas.

 

Dessas vacinas que estão na fase 3, duas contam com acordos para serem produzidas no Brasil por dois Institutos Brasileiros com longa experiência em produção de vacinas. A Fiocruz irá produzir a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em conjunto com a empresa AstraZeneca do Reino Unido. Já o Instituto Butantan será responsável pela produção da vacina Coronavac que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac.

 

E essas tais vacinas são seguras?

Claro que são! Ou serão, quando estiverem prontas. Lembre-se de que o desenvolvimento de vacinas ou qualquer droga lançada no mercado pela indústria farmacêutica deve seguir rigorosos critérios de pesquisa científica avaliados por agências reguladoras de cada país onde esses produtos serão distribuídos. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) é a agência que faz esse papel de analisar todos os dados de pesquisa científica e metodologia empregada no desenvolvimento de vacinas. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possui essa função.

 

Os principais países que brigam pela primazia na formulação da primeira vacina contra o coronavírus são Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e China. Infelizmente, nessa corrida contra o tempo, interesses políticos e econômicos podem, em alguns casos, atrapalhar o rigor científico a que são submetidos os institutos de pesquisa e as universidades que buscam um método de prevenção à Covid-19.

 

Pense da seguinte maneira: em um período de eleições, a descoberta de uma vacina eficaz contra uma doença que assola o mundo inteiro pode fazer com que um candidato a presidente se reeleja. Por isso, esse candidato à reeleição pode tentar de qualquer jeito pressionar indústrias farmacêuticas, universidades e agências reguladoras para que uma vacina seja produzida, mesmo que para isso algumas etapas do desenvolvimento tivessem que ser “puladas”. Qual é o perigo disso? Bem, já dissemos que o rigor científico serve não apenas para gerar uma droga eficaz contra uma doença, mas também para garantir que essa droga seja segura o suficiente para que uma população não sofra com efeitos adversos que podem ser piores que a própria doença.

 

As fases dos testes clínicos garantem a eficácia e a biossegurança de uma droga. Isso também serve para as vacinas. Talvez você tenha lido algo sobre a suspensão temporária dos testes com a candidata a vacina de Oxford devido a um efeito colateral em um dos voluntários que tomou essa vacina. Pois bem, isso mostra a preocupação dos cientistas em evitar que uma droga prejudicial ao organismo seja lançada no mercado. E isso não acontece apenas porque os cientistas são os mocinhos que querem o bem estar de todo o mundo, mas também porque uma empresa pode perder uma enorme quantia devido a processos judiciais, ou ainda ter sua imagem profundamente prejudicada podendo até mesmo falir.

 

Algumas das instituições com candidatas a vacinas estão sendo acompanhadas de perto devido a suspeitas de que alguns protocolos foram afrouxados para que dados concretos fossem conseguidos mais rapidamente. Novamente, lembramos a importância estratégica que seria, para qualquer país, conseguir a primazia no desenvolvimento da vacina contra o coronavírus. Esse tipo de conduta estimula a descrença da população na Ciência séria. Esse tipo de conduta se espalha de maneira assustadora nos dias de hoje por meio das redes sociais. Esse tipo de conduta gera mentiras que chegam aos computadores, tablets e telefones celulares das pessoas. Esse tipo de conduta faz com que as pessoas tenham medo de se vacinarem. Esse tipo de conduta gera retrocesso.

 

Então, caro leitor, para a pergunta “essas vacinas serão seguras?”, nós afirmamos: 

Sim, essas vacinas serão seguras, e se depender da Ciência, todas as vacinas permanecerão sendo seguras.

 

Fontes:

ADAL, S. R.; MANZIONE, C. R. Vacinas contra o Papilomavirus humano. Rev. Bras. Colo-proctol., Rio de Janeiro, v. 26, n. 3, p. 337-340, 2006.

AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS. A Revolta da Vacina. 25/04/2005. Disponível: https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina-2. Acesso em: 03/10/2020.

ANDRADE, R. O. Ciência sob pressão: Interferência política na aprovação de vacina pode minar confiança pública na imunização, alertam pesquisadores. Pesquisa FAPESP. Edição 296, p19 :21, out. 2020 Disponível em://revistapesquisa.fapesp.br/ciencia-sob-pressao/. Acessoem 07/10/2020

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Blog da Saúde. Brasil é referência mundial em produção de vacinas. (22/09/17). Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/index.php/52930-brasil-e-referencia-mundial-em-producao-de-vacinas, acesso em:03/10/2020.

LIMA, E. J. F.; ALMEIDA, A. M.; KFOURI, R. A. Vacinas para COVID-19: perspectivas e desafios. Residência Pediátrica. v. 10, n.2-04, p:1-3; 2020. 

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