Como chegamos à uma Síntese Estendida da Evolução? (V.3, N.8, P.2, 2020)

Tempo estimado de leitura: 6 minuto(s)

Divulgadora da Ciência:

 

Melissa Gabriely S. Simões ingressou em 2017 no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, tendo atuado em projetos de Iniciação Científica e Iniciação à Docência em sua graduação. Atualmente é discente do Bacharelado e Licenciatura em Ciências Biológicas também pela mesma universidade.
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Aprendemos na escola que os trabalhos de Charles Darwin – e do nem sempre lembrado, Alfred Wallace – em meados do século XIX foram o marco fundamental da teoria evolutiva. Ambos partiam de uma visão dinâmica do mundo biológico, que confronta o criacionismo, para defender a ideia de que a evolução se trata um processo lento e contínuo, baseado especialmente em um aspecto essencial, a Seleção Natural.

 

Esse mecanismo audacioso e original, sempre muito abordado nos livros didáticos, buscou explicar a origem da multiplicidade de espécies descendentes com características distintas. Mostrou que a partir da combinação de um crescimento exponencial da população com uma taxa limitada de recursos, o que se tem de resultado é uma “luta pela sobrevivência”, em que o sucesso está na capacidade de enfrentar os desafios do ambiente. A seleção natural, de fato, foi um grande avanço dentro da teoria evolutiva, mas faltou a Darwin explicar as origens dessas variações hereditárias entre os organismos.

 

Esses conceitos serviram de base para a elaboração da “Síntese Moderna”, que apresentou uma fusão da teoria darwiniana com os conhecimentos em genética mendeliana. Os experimentos de Gregor Mendel, considerado o “pai da genética”, possibilitaram diversos avanços que vieram para “preencher” as lacunas deixadas por Darwin. Sendo assim, a SM, já no século XX, tomou como evidências novas descobertas e métodos experimentais em outras áreas da biologia, como a história natural, a paleontologia e a sistemática. Podemos destacar dois de seus princípios fundamentais:

 

  1. As populações contêm variações genéticas que surgem por mutação (mudanças, bruscas ou não, no material genético, que muitas vezes acontecem por um “erro” e de forma aleatória);
  2. Essa população evolui por mudanças na frequência genética provocadas principalmente pela seleção natural.

 

Da Síntese Moderna em diante, a estrutura da teoria evolutiva foi sendo refinada, incluindo novos conhecimentos vindos de diferentes campos das ciências naturais, mas ainda assim, mesmo após significantes avanços, permaneceu firmemente baseada em um discurso adaptacionista apoiado na seleção natural. No entanto, nas últimas décadas uma série de pesquisadores têm levantado a possibilidade de considerar outros mecanismos para explicar aspectos com os quais o conhecimento tradicional não é capaz de lidar. Podemos pensar então: a teoria contemporânea da evolução não é mais adequada? Existem brechas ou inconsistências? Nós precisamos expandi-la ou estendê-la? Para responder precisamos recapitular:

 

  1. A teoria evolutiva fornece previsões sobre a dinâmica da variação genética nas populações, na gradual variação e na adaptação de características fenotípicas, morfológicas e fisiológicas – se a explicação parasse aqui, nenhuma controvérsia existiria – mas;
  2. Tornou-se habitual na biologia evolutiva usar a genética da população como explicação de todos os fenômenos evolutivos, o que faz com que uma riqueza de mecanismos permaneça excluída.

 

E é neste ponto que surge a Síntese Estendida da Evolução (EES).

 

A EES levanta a ideia de que os organismos não evoluem para caber em ambientes pré-existentes, mas coconstroem e coevoluem com eles, o que coloca o protagonismo no próprio organismo. Sendo assim, a direção da evolução não depende apenas da seleção e não precisa começar necessariamente com a mutação, como se acreditou por muito tempo e podemos encontrar em uma esmagadora maioria dos materiais didáticos. Hoje, a síntese evolutiva é muito mais sofisticada do que a síntese original e abrange uma ampla gama de fenômenos, (Figura 1) destacando-se:

 

  1. Biologia Evolutiva do Desenvolvimento (“evo-devo”): que compara os processos de desenvolvimento de diferentes seres vivos como uma tentativa de determinar a relação ancestral entre organismos e como esses processos evoluíram;
  2. Herança Inclusiva: mecanismos que contribuem para a hereditariedade para além da herança biológica (de pai para filho);
  3. Construção de Nicho: processo pelo qual o metabolismo, atividades e escolhas dos organismos modificam ou estabilizam estados ambientais e;
  4. Plasticidade Fenotípica: que se trata da capacidade dos organismos de alterar a sua fisiologia ou morfologia de acordo com as condições do ambiente

           

Figura 1: Representação – do centro às extremidades – expansão contínua da teoria evolutiva.

 

A EES envolve não apenas novas direções de pesquisa, mas também novas formas de pensar e interpretar problemas novos e familiares na biologia evolutiva. Não se trata de uma “revolução” na teoria da evolução, mas sim, uma progressão contínua e enorme em sua capacidade de explicar o mundo em que vivemos.

 

Referências

 

Laland, K.N., Uller, T. Feldman, M.W., Sterelny, K., Müller, G.B., Moczek, A., Jablonka, E. &Odling-Smee, J. The extended evolutionary synthesis: its structure, assumptions and predictions. Proceedingsofthe Royal Society B: 282, 1-14, 2015

 

Gabriely, Melissa & Santos, C.M.D. Em direção a uma síntese estendida da teoria evolutiva: estado d arte e perspectivas futuras. Revista Brasileira de Iniciação Científica: v.6, n.5, 2019

 

Silva, M.T. & Santos, C.M.D. Uma análise histórica sobre a seleção natural: de Darwin-Wallace à Síntese Estendida da Evolução. Amazônia – Revista de Educação em Ciências e Matemáticas, 11: 46-61, 2015.

 

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