Roupas cibernéticas: da ficção científica à realidade (V.2, N.5, P.1, 2019)

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Mario Alexandre Gazziro é escritor amador de ficção científica, doutor em física (USP), mestre em computação (UFSCar) e artista eletrônico, atualmente docente de engenharia na UFABC.

O céu sobre o porto tinha a cor de televisão sintonizada num canal fora do ar” – Com essa frase William Gibson inaugurou seu livro que consolidou o caminho para a cultura cyberpunk no inicio dos anos 80, no romance Neuromancer. O assunto já era recorrente em seus contos anteriores ao livro, onde, inclusive, ele já havia criado algumas das personagens principais da obra, como a ciborgue miliciana Molly Millions.Gibson não criou apenas ficção científica distópica ao enunciar um futuro da humanidade baseado em alta tecnologia e baixa qualidade de vida. Ele elaborou um prelúdio do avanço de nossa civilização que vêm se tornando cada vez mais profético com o passar dos anos.

Durante os mais de 35 anos que se passaram desde a origem de seus textos iniciais, concentrados em três livros conhecidos como a “trilogia do sprawl 1”, nossa sociedade se moldou muito mais de acordo com essa ficção distópica do que com as demais obras de ficção.

Trilogia do sprawl: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive – Foto: Editora Aleph

Não nos tornamos uma sociedade ditatorial e controladora de pensamentos, como imaginado na obra de Orwell, no livro 1984 2, embora o Grande Irmão (Big Brother), figura central do livro, tenha se tornado um entretenimento de massa em nossa cultura televisiva e o desejo por reescrever a história de acordo com a conveniência dos governantes do presente seja recorrente em nossa realidade atual.

Representação do Big Brother no comercial da Apple em 1984 – Foto: Computer History Museum

Não exploramos as estrelas (nem mesmo o sistema solar), como previsto por Arthur Clark na série “2001: Uma Odisséia no Espaço”, escrita na década de 60 – numa época em que se acreditava que a exponencial da exploração espacial seria mantida até o final do milênio – e no entanto, muitos na verdade regrediram a ponto de sequer acreditarem na curvatura óbvia da Terra.

Nave da extinta cia aérea PanAn, na estação espacial do filme 2001 – Foto: MGM/Stanley Kubrick

Não somos servidos por robôs escravos, como conjecturou Isaac Asimov em toda sua obra literária, nem nunca necessitamos por em prática as 3 leis da robótica3 – estabelecidas por ele na coletânea “Eu Robô” – para evitar que um universo de robôs sencientes se tornassem uma ameaça à humanidade.  Somos, no entanto, ameaçados por robôs invisíveis que manipulam a opinião pública ao se confundirem com massas de humanos no cyberspaco4, sendo infinitesimalmente menos inteligentes do que seres humanos e desprovidos de corpos físicos – mas provando a máxima de que a união faz a força, mesmo sendo uma união (repetição) de ideias apenas – e mesmo limitados no processo cognitivo, esses robôs, ou simplesmente bots, arrebanham seus mestres humanos de uma forma que mesmo as 3 leis não podem protegê-los.

Capa da primeira edição do livro “Eu, Robô” com as 3 leis – Arte: Ed Cartier/Gnome Press

Infelizmente, o futuro tecnológico que a humanidade resolveu seguir na verdade vêm trilhando os caminhos obscuros antevistos por Gibson: temos redes de fibra óptica instaladas até mesmo em choupanas com fossas no lugar de esgoto; comunicação celular para cada habitante do planeta que tangencia o limite superior da linha da miséria5; concentração de renda ultra desigual; advento das interfaces cerebrais para controle de próteses e órteses robóticas; chips biocompatíveis intracorticais.

No futuro estabelecido nas obras de Gibson, as pessoas pobres (que são a grande parte da população) dormem em caixões emparedados em instituições denominadas hotéis, mas  melhor descritas como cemitérios verticais para vivos. Porém, o acesso ao cyberspaço pode ser feito de qualquer lugar e por todos. Apenas detêm a renda circulante os acionistas-herdeiros das grandes corporações comerciais, que atuam no estilo de máfias tecnológicas (zaibatsus), visto que os governos desempoderados há muito já faliram e perderam completamente seu poder regulador.

 

Universo distópico de Gibson: alta tecnologia e baixa qualidade de vida – Arte: Josan Gonzales

Essas zaibatsus atuam extorquindo novas tecnologias e softwares de cientistas em corporações concorrentes – ao invés do nicho tradicional de tráfico de drogas, contrabando e prostituição das máfias atuais – usando, quase sempre, força paramilitar mercenária composta de pessoas com modificações cibernéticas que as transformam em supersoldados, além dos chamados cowboys de console, termo usado na época do livro para descrever o que hoje conhecemos como hackers.

 

Cowboy de console (atual hacker) das obras de Gibson – Arte: Josan Gonzales/Editora Aleph Brasil

A fim de celebrar esse universo distóptico, o qual parece ser o verdadeiro caminho da humanidade – caso ações corretivas sociais não sejam imediatamente iniciadas – realizamos na UFABC um desfile de roupas cibernéticas desenvolvidas por professores e alunos (da UFABC e da USP)  ilustrando as diversas castas do universo de Gibson, apresentadas nos croquis abaixo: aristocracia das grandes corporações, cowboys de console, negociantes de software ilegal e milícia ciborgue paramilitar.

Para serem consagradas como cibernéticas, as roupas não bastam ter apenas um design considerado futurista. Devem necessariamente interagir com o corpo e o ambiente a volta de quem as usa, fornecendo um feedback (resposta) táctil, sensorial ou neural. Em nosso caso, esse feedback foi visual, o qual contou com mais de 600 luzes independentes controladas digitalmente.

Para interação com o corpo, foram utilizados sensores cardíacos, e, para interação com o ambiente, uma rede dedicada de internet (zigbee) fornecia a informação da proximidade entre as roupas durante o desfile. Com isso, as nuances de cores e efeitos visuais nas roupas com base nesses feedbacks sensoriais foram devidamente programadas pelos alunos da disciplina de Sistemas Microprocessados do curso de Engenharia, Instrumentação e Robótica da UFABC, com destaque para o programador embarcado Gustavo de Paula. Os efeitos podem ser vistos nas fotos a seguir, assim como a descrição das roupas e nomes das modelos participantes do projeto.

 

 

Castas do universo de Gibson representadas em um desfile de roupas tecnológicas na UFABC, da esquerda para a direita: milícia ciborgue paramilitar, aristocracia das grandes corporações, cowboys de console e negociantes de software ilegal – Foto: Talissa Fávero/ICMC–USP

 

Imagem destacada: Croquis desenvolvidos para o projeto Desfile Cibernético – Artes: Alice Gazziro/Gaby Sá

 

1 sprawl: termo em inglês para expansão urbana massiva, no caso, entre Boston e Atlanta.

 

2 Escrito em meados de 1948, como um trocadilho palíndromo do ano em questão: 48 para 84.

 

3 As 3 leis da robótica proposta por Asimov são: 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

 

4 cyberspaco: termo cunhado por William Gibson em suas obras cyberpunks, para definir uma zona virtual de interação tecnológica, hoje melhor representada como a Internet que conhecemos.

 

5 US$ 5,5 por dia estabelecido pela ONU para o Brasil.

 

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