Viés de gênero na data science: como isso pode acontecer? (V.3, N.12, P.1, 2020)

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Viés de gênero na data science: como isso pode acontecer? (V.3, N.12, P.1, 2020)

Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade Foto de uma mulher escrevendo em um quadro em frente a dezesseis jovens sentados a uma mesa, em sua maioria mulheres.

Texto escrito pelo colaborador Renato R. Kinouchi

Recentemente a comunidade científica internacional foi surpreendida por um artigo polêmico publicado na revista Nature Communications. Os autores – três cientistas de dados da Universidade de Abu Dhabi – cruzaram os dados de programas de tutoria científica de diversas universidades com o número de publicações com autoria de jovens pesquisadores(as), a fim de descobrir o quanto tais programas seriam capazes de fortalecer as trajetórias de cientistas em início de carreira. Na discussão dos resultados, os autores alegam haver encontrado a seguinte correlação: quando se leva em consideração a variável ‘sexo’ dos(as) professores(as) e dos(as) estudantes, o pior desempenho em publicações ocorre quando alunas são tutoradas por professoras. Ademais, na conclusão do artigo, os autores recomendam que se evite tutoria científica entre mulheres, porque isso renderia um desempenho abaixo da média tanto para as alunas quanto para as professoras. O artigo desencadeou uma enxurrada de críticas no que diz respeito à metodologia empregada e às recomendações manifestamente misóginas feitas pelos autores. A seguir, faço uma breve análise desse artigo controverso, recorrendo, para tanto, a alguns conceitos da filosofia da ciência contemporânea.

Não é muito difícil encontrar correlações estatísticas em grandes agregados de dados. Convém perguntar, entretanto, se elas não são decorrentes de vieses na interpretação desses dados. No caso da variável ‘sexo’ analisada no estudo, há quatro subconjuntos de duplas no espaço amostral, a saber: professor-aluno, professor-aluna, professora-aluno e professora-aluna. O que se observou é que o desempenho é mais baixo somente quando duas mulheres formam dupla, o que é o mesmo que dizer que o desempenho é mais alto quando há pelo menos um homem na dupla. Ora, se o sexo dos pesquisadores fosse algo constitutivo para a produtividade em pesquisa, então o desempenho também deveria ser mais baixo para duplas professora-aluno, o que não foi observado. Assim sendo, o mais provável é que haja um viés nos dados sobre as alunas, decorrente da desigualdade de oportunidades e do machismo estrutural. Pois, caso houvesse igualdade de oportunidades, era de se esperar que o sexo dos participantes nas duplas fosse indiferente para a produtividade.

Vieses de gênero na pesquisa científica são muito mais comuns do que se imagina. Podemos mencionar aqui alguns exemplos. Um caso bem conhecido diz respeito às pesquisas biomédicas. Nos laboratórios de pesquisa as cobaias experimentais são na sua grande maioria machos, pois as fêmeas são prioritariamente utilizadas como matrizes dos biotérios. Além disso, considera-se como um importante controle experimental o fato de as cobaias machos não possuírem ciclos hormonais que possam interagir com os medicamentos testados. Mas ocorre que pode haver tais interações fisiológicas em mulheres, e o risco dessas interações é simplesmente negligenciado por causa das conveniências de se usar cobaias machos. Já no campo da arqueologia, durante muito tempo foram encontrados indícios de que mulheres participavam da caça de animais de grande porte – pois foram encontrados sepultamentos de mulheres com artefatos de caça – mas esses achados acabaram sendo desprezados. Entretanto, um artigo de revisão recente mostra que, na América pré-histórica, entre 30% a 50% dos sepultamentos onde foram depositados artefatos de caça eram de mulheres. Ou seja, o papel de gênero modernamente atribuído a mulheres – relacionados somente ao preparo dos alimentos, cuidados maternais e, quando muito, alguma atividade agrícola ou de pesca – enviesaram as análises durante décadas.

Antigamente havia pensadores que defendiam a noção de que “a ciência é livre de valores”. Com essa afirmação eles pretendiam defender que a ciência lida exclusivamente com fatos, não devendo ser influenciada por fatores sociais ou culturais. Essa noção não se sustenta, porque ela própria é a afirmação de um valor, a saber, o valor da objetividade da ciência. Ou seja, o mais racional não é negar o papel dos valores na pesquisa, mas sim escolher aqueles valores que fazem a ciência florescer. O valor da objetividade certamente é um desses valores que deve ser cultivado pela comunidade científica. Mas quando é que a objetividade da ciência fica prejudicada? Ora, quando fatores subjetivos passam a influenciar o processo de pesquisa: se a comunidade for composta majoritariamente por pessoas com alguma característica subjetiva em comum, isso pode não propiciar a objetividade desejada. Pois bem, não é segredo nenhum que muitas áreas da pesquisa científica são dominadas numérica e simbolicamente por homens, e que as relações interpessoais nesses ambientes podem conter dose apreciável de machismo e misoginia. Na realidade, se desejamos cultivar o valor da objetividade na ciência, precisamos contrabalancear as prováveis distorções oriundas da subjetividade masculina, garantindo, no mínimo, igualdade de oportunidades para os(as) participantes da comunidade científica que porventura não herdaram um cromossomo sexual Y de seus respectivos pais biológicos.

O artigo problemático que motivou esta nossa reflexão encontra-se atualmente sob escrutínio do corpo editorial e provavelmente terá sua publicação retirada em razão de suas falhas metodológicas. Ademais, a revista em questão deveria reformular seu processo de revisão por pares, a fim de não mais deixar passar artigos com evidente viés de gênero. Se você se interessa pelo assunto de visões feministas sobre a pesquisa científica, vale muito a pena consultar o volume especial sobre o feminismo da revista de filosofia Scientiae Studia onde diversas filósofas discutem questões relacionadas ao feminismo na ciência.

Fontes:

Fonte da imagem destacada:

https://www.nature.com/articles/s41467-020-19723-8

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3008499/

https://advances.sciencemag.org/content/6/45/eabd0310

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