Quando a ciência liberta: a pesquisa que separa preconceito de doença (V.2, N.6, P.5, 2019)

Facebook Twitter Instagram YouTube

Quando a ciência liberta: a pesquisa que separa preconceito de doença (V.2, N.6, P.5, 2019)

Tempo de leitura: 3 minutos
#acessibilidade Três imagens da pesquisadora Evelyn Hooker uma ao lado da outra sendo, da esquerda para a direita, fotografia dela jovem, fotografia dela com idade mais avançada e arte com a imagem do seu rosto enfocando os traços mais marcantes de sua face.

A doutora em psicologia Evelyn Hooker começa a desenvolver sua pesquisa após voltar de uma conturbada e breve passagem pelo Instituto de Psicoterapia de Berlim, onde ganhou uma bolsa de estudos. Neste período, a Europa vivia o caos político pré-Segunda Grande Guerra e a ascensão do nazismo, contexto que disparou seu horror à doutrinação em massa e sua sede de batalha contra a injustiça social, além de abreviar sua estadia no velho continente.

Em sua volta à Califórnia, obteve muita dificuldade de recolocação profissional, tanto porque era mulher quanto pelo fato de ter passado este período de fortalecimento do totalitarismo na Europa, que levantava suspeitas quanto a um possível comportamento subversivo.

Neste período, quando tentou uma cadeira no departamento de psicologia na Universidade da Califórnia (UCLA) chegou a ouvir que gostariam de lhe dar um emprego, entretanto já havia três mulheres no departamento e as mesmas eram “cordialmente repugnadas” pelos colegas homens. Assim, Hooker ingressa na posição de pesquisadora associada, mas graças ao seu enorme talento e produção intelectual sua fama dispara rapidamente levando-a a permanecer como pesquisadora e professora da UCLA até sua aposentadoria.

Parte significativa desta história pode ser observada na película Changing Our Minds: The Story of Dr. Evelyn Hooker, que conta também as atrocidades que a população LGBT passava desde pelo menos os anos 30, tais como eletrochoque, lobotomia, injeções de estrogênio/testosterona, histerectomias e castrações. Este filme também é muito interessante pois mostra como ela manteve até depois dos 90 anos a disposição para brigar pelo que ela acreditava que é o certo (e eu também acredito).

Sua pesquisa se iniciou com uma espécie de provocação de um dos seus alunos que acabou se tornando amigo. Ele , que escondia a homossexualidade publicamente, mas a confidenciou este segredo, a questiona em dado momento :

Por que você não estuda pessoas como eu e prova se de verdade existe doença psicológica na natureza homossexual ou não?

Até aqui não esclareci onde exatamente a pesquisa era destruidora, não é mesmo? Era destruidora no mesmo aspecto que a tornou extremamente popular, reconhecida e premiada, e se inicia na publicação do artigo “The adjustment of the male overt homosexual” (ou em tradução livre “O ajuste do homossexual masculino declarado”), no Journal of Projective Techniques, de 1957, (edição XXI, páginas 18 a 31). Ela foi talvez a maior responsável pela destruição desta fonte de preconceito no século XX.

No experimento que deu origem a este artigo, Evelyn realiza diversos testes psicológicos: o TAT, o teste Make-a-Picture-Story (MAPS) e o teste de mancha de tinta Rorschach, que na época era tido como melhor método para identificar a homossexualidade, a grupos de 30 homossexuais masculinos e 30 heterossexuais. Em seguida ela pediu para 3 especialistas (entre eles o próprio criador do método MAPS e um especialista no teste de tinta de Rorschach) analisarem os testes para identificar os homossexuais e avaliar a saúde mental dos mesmos. Já que não havia diferença detectável entre homens homossexuais e heterossexuais quanto a saúde mental, os especialistas não conseguiram distinguir quais eram os héteros e os homos daquele teste, o que levou a constatação que homossexualidade não é doença.

Só para registrar, haviam pesquisas anteriores que alegavam que era doença, entretanto, eram pesquisas viciadas que por analisar apenas homossexuais com transtornos psicológicos levavam à conclusão que homossexualidade é doença desta natureza.

Suas pesquisas foram ganhando notoriedade, sendo convidada a lecionar e a indicar saídas para as situações enfrentadas àquela época. Nem preciso dizer que a primeira saída que ela propunha era justamente o fim da criminalização da homossexualidade. E sim, além de tratarem como doença tratavam como crime também!

A briga até a remoção da homossexualidade do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria e da Organização Mundial de Saúde é gigante e pode ser verificada em nosso texto sobre Stonewall.

E não é que algumas destruições podem ser benéficas? Neste caso a destruição de uma fonte de preconceito tem ajudado a salvar muitas vidas e pode ser comemorada até hoje! Viva à ciência que destrói vícios e informações tendenciosas. Viva a ciência que destrói mitos!

Compartilhe:

Responder

Seu endereço de e-mail não será publicado. Obrigatório *