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Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (V.2, N.8, P.1, 2019)

Tempo de leitura: 7 minutos
#acessibilidade Imagem com o ex-presidente chileno Salvador Allende em preto e branco com uma bandeira do Chile ao fundo à direita e seu nome em letras azuis à esquerda.

Texto escrito em colaboração com Paula Homem de Mello

Chegando ao museu e, ainda do lado de fora, enquanto olhamos aquela robusta construção temos a impressão de chegada a um lugar pouco comum. E – devo dizer – definitivamente a emoção é única, vamos tentar passá-la pelo menos em partes a seguir… A sensação era de “vamos ter que escrever sobre isso um dia” – e cá estamos.

Bachelet - Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (V.2, N.8, P.1, 2019)

Descemos uma longa rampa e logo no hall da entrada, damos de cara com a frase de autoria da ex-presidente Bachelet gravada na parede deixando ainda com mais certeza que este não será ‘apenas mais um museu’. A frase é “No podemos cambiar nuestro pasado; sólo nos queda aprender de lo vivido. Esta es nuestra responsabilidad y nuestro desafío” ou, em tradução livre, “Não podemos mudar nosso passado, só nos resta aprender com o vivido. Esta é nossa responsabilidade e nosso desafio.”

#acessibilidade Foto da ex-presidente chilena Michelle Bachelet em 11 de Janeiro de 2010, durante discurso de inauguração do Museo de la Memoria y los Derechos Humanos.

Entrando mais a fundo no museu a história começa a ser contada em um pequeno espaço dedicado a algumas histórias de vítimas da ditadura através de fragmentos, fotos, lembranças que a elas pertenciam e chegaram ao museu por meio de doações particulares. Mais adiante no museu, uma sessão de nome Ausência e Memória aborda também a questão dos mortos e desaparecidos.

culos - Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (V.2, N.8, P.1, 2019)

Daí pra frente, o Arquivo do Museu da Memória nos joga ao passado chileno, e damos de cara com o antes, o durante e o depois da alta traição do ditador Augusto Pinochet para com o então presidente Salvador Allende (muito lembrado pelos seus marcantes óculos), ocorrido em um muito triste 11 de setembro (existe uma parte digital da exposição).

#acessibilidade Imagem com a metade do óculos com lente quebrada com a frase “La historia es nuestra y la hacen los pueblos” abaixo, seguida da assinatura de Allende, seu nome e os anos de nascimento e morte, 1908 e 1973, respectivamente.

Os momentos anteriores incluem a dificuldade de Allende para cumprir algumas promessas de campanha e os locautes (que é igual a greve, com a diferença que quem organiza são os donos e não os trabalhadores) que tiveram a primeira rodada em 1972, e foram organizados pelo neofascista Vilarín e financiados pela CIA. Estes contaram com ampla participação dos caminhoneiros para gerar desabastecimento, que além de desestabilizarem a economia do Chile, foram usados como ensaio para o golpe de 1973, abordados na sessão Fim do Estado de Direito e depois mais a frente, o sofrimento que ele gera em Repressão e Tortura e A Dor das Crianças. A história também conta que os conservadores só parariam seus ataques ao governo com o fim das ideias de Allende, que para beneficiar a população, acabava dando menos lucro aos empresários. Assim, organizam um segundo grande locaute em 1973 até garantir que o poder voltasse a eles, ou que o golpe fosse finalizado, se fosse preciso, com o assassinato do presidente eleito.

discurso Allende - Museo de la Memoria y los Derechos Humanos (V.2, N.8, P.1, 2019)

Depois de 26 dias neste impasse, e Allende avisado que só sairia vivo renunciando, faz um melancólico último discurso frisando que: “A história é nossa e quem faz é o povo” antes de ser fuzilado no Palácio de la Moneda (último discurso de Allende).

#acessibilidade Desenho de Salvador Allende com a frase “Não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a forca. A história é nossa e a fazem os povos.” compartilhada pela página Brasil de Fato em 26 de Junho, dia do nascimento de Allende.

A ideia colocada nesta frase é muito emblemática para toda a humanidade e já era o centro da discussão sobre a maneira de se pensar e registrar a história, pelo menos desde o final da segunda grande guerra.

Desta forma, os anseios e as necessidades do povo são os personagens que contam a história neste museu. Na sessão Demanda de Verdade e Justiça o acervo aborda a memória de um povo, ou a memória coletiva na tentativa de que esta seja honesta com a realidade. A memória coletiva pode ser mal aprendida ou, como diria Ricoeur, podem existir nas formas de memórias traumáticas (memórias impedidas ou memórias manipuladas, ou ainda, memórias obrigadas), podendo assim ser uma mentira dependendo de como for levada adiante.

Para entender melhor, vamos pensar no Brasil, por exemplo, lá quando ao final da ditadura (Presidente Figueiredo) acontece a “construção consensual da história” e como consequência a Lei da Anistia (que apagou os crimes entre agentes políticos e militares de 1961 a 1979). Dois pontos bem importantes precisam ser relacionados a elas, sendo o primeiro que, se o assunto ditadura não for pensado e escrito por toda a população com igualdade de força, não é consenso (afinal é difícil o consenso positivo para todos os lados quando um entra com a cabeça e o outro a arma). E o segundo, que se esta história não for passada adiante naturalmente na forma de cultura, não será uma memória saudável, é também uma memória traumática e pode não ser significativa para o aprendizado coletivo, podendo ser reescrita ou alterada por forças políticas adversas. Como complementa Duby: “Além disso, quando o fato é importante, fala-se dele, e o que a seu respeito se diz vai sendo aos poucos transformado, no complexo jogo da memória e do esquecimento. Tais modificações ainda são reveladoras, para nós, dessas forças obscuras que atuam sobre a memória ao longo das gerações.

Enfim, em respeito a isso, o Chile passou por três grandes levantamentos da história de sua ditadura, abordados em Memórias e Comissões da verdade (Comisión Nacional de Verdad y Reconciliación (CNVR) de 1991, Corporación Nacional de Reparación y Reconciliación (CNRR) de 1996 e Comisión Nacional sobre Prisión Política y Tortura (CNPPT) de 2004), e criou o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos para que o direito coletivo sobre a elaboração e manutenção da história, preservando ao máximo a verdade histórica bem elaborada e livre de interesses obscuros. Um exemplo deste respeito a história é que hoje em dia no Chile se debate um projeto de lei que quer sentenciar a até três anos de prisão quem negar ou menosprezar os crimes cometidos pela ditadura Pinochet (diferente de outros países).

Enquanto isso aqui no Brasil tivemos uma tímida Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 e de forma no mínimo estranha teve 19 dos seus 24 membros trocados em uma só canetada em meados de 2016, logo no início da era Temer, a tempo de qualquer alteração no relatório final terminado em 2017. Elisabeth Kübler-Ross propôs o processo de luto em dois livros (um na ótica de quem descobre uma doença terminal e um na ótica do parente que perde) e que passam por etapas como a negação, raiva, barganha, depressão e aceitação; e em muitos casos, como este, podemos ver como neste nosso luto da ditadura ainda podemos estar na fase de negação, ou seria na raiva?

O museu ainda conta com uma parte destinada a como a comunidade internacional se portou diante disto chamado Condenação Internacional, que conta como em 1977 a ONU trata a questão.

Parte da história de diversos países que passaram por ditaduras, como o nosso, e como lidaram com a memória de suas ditaduras também está no acervo do museu em Direitos Humanos, uma Luta Universal. Há também Luta pela Liberdade, que é abordada pensando nas pessoas que lutaram pela resistência.

Já os últimos momentos desta ditadura e como os chilenos trabalharam com sua própria história, lembrando, registrando e aprendendo com ela para evitar ao máximo sua repetição são incorporadas nas sessões Nunca Mais, Justiça e Retorno da Esperança.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Internet.

Fonte da imagem 1: Internet.

Fonte da imagem 2: Internet.

Fonte da imagem 4: Página Brasil de Fato no FaceBook.

Sites do governo Chileno:

http://www.archivomuseodelamemoria.cl/

http://www.cedocmuseodelamemoria.cl/

https://ww3.museodelamemoria.cl/sobre-el-museo/

https://www.eldesconcierto.cl/2017/09/11/la-historia-es-nuestra-y-la-hacen-los-pueblos-el-ultimo-discurso-de-salvador-allende/

Políticas do silêncio: a memória no Brasil pós-ditadura, de autoria de Edson Teles (Universidade Bandeirante de São Paulo)

Relatório da Comissão da Verdade

Paul Ricoeur e o lugar da memória na historiografia contemporânea, de autoria de Maria Renata da Cruz Duran (Universidade Estadual de Londrina) e Julio Bentivoglio (Universidade Federal do Espírito Santo)

Trauma, luto e pós-ditadura na narrativa de Hoje, resumo de autoria de Letícia da Silva Fernandes e sua orientadora Teresa Neves (Universidade Federal de Juiz de Fora) publicado no XXII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste de organização da Intercom –Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

As fases do luto de acordo com Elisabeth Kübler-Ross, de autoria de José Valdecí Grigoleto Netto e publicado nos Anais Eletrônico do IX EPCC –Encontro Internacional de Produção Científica UniCesumar

Santos, Cecília MacDowell; Teles, Édson; Teles, Janaína de Almeida (orgs.), Desarquivando a ditadura: memória e justiça no Brasil

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