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Como matar um vírus? (V.3, N.4, P.10, 2020)

Tempo de leitura: 5 minutos
#acessibilidade Quadrinho que mostra uma pessoa (feita como boneco palito) vestido com um jaleco em cima de uma cadeira apontando uma arma de fogo para uma placa de Petri em cima de uma mesa. No canto da mesa há ainda um microscópio.

É provável que diante da pandemia de COVID-19 você já tenha feito a seguinte pergunta: como podemos matar um vírus? As respostas a essa pergunta são várias. A primeira e mais óbvia delas seria matar o hospedeiro. O vírus é considerado um parasita que depende da estrutura e energia de outros organismos para sobreviver. Assim, um vírus não sobrevive por muito tempo fora das células do hospedeiro, mas claramente essa não é uma opção válida, pois o objetivo é que o indivíduo contaminado sobreviva e com o mínimo de sequelas possíveis.

Também sabemos que diversos agentes químicos podem ser utilizados para matar o vírus, como a água e sabão e álcool 70% que podem ser utilizados sobre a pele. Outros produtos de limpeza como água sanitária (alvejante) e desinfetante servem para tratar superfícies de materiais, roupas e diversos utensílios, mas nunca devem ser ingeridos por pessoas. E quando o organismo já foi infectado pelo vírus? O que fazer?

De maneira análoga, vários compostos químicos apresentam propriedades que são capazes de matar diversas classes de vírus, incluindo o novo coronavírus, mas é imprescindível garantir que eles mantenham o hospedeiro vivo e saudável. E é neste ponto que a tarefa se complica, pois além de garantir que o composto atinja especificamente o vírus, é preciso garantir que os efeitos colaterais indesejáveis, sejam mínimos ou inexistentes.

Para que um composto químico chegue até as farmácias na forma de um medicamento seguro, muitos passos precisam ser cumpridos. Inicialmente, logo após a sua síntese em laboratório, é comprovada sua pureza e várias propriedades físico químicas são avaliadas. Depois disso, iniciam os ensaios biológicos, que são separados em testes in vitro e in vivo. Os primeiros, são realizados em culturas de células, e avaliam a toxicidade, por exemplo, e a eficácia frente a vários parâmetros. Já os testes in vivo envolvem animais, geralmente ratos, mas podem ser aplicados em animais maiores, conforme for se mostrando eficiente. Só depois de ser aprovado em todas essas etapas é que pode ser administrado em humanos em fase de teste e em número controlado de indivíduos. Todas essas etapas podem levar anos, há compostos promissores que estão em testes há décadas e ainda não chegaram às farmácias porque não se pode prometer uma cura com um tratamento comprometedor.

Assim, diante da atual urgência, uma forma de pular algumas dessas etapas é testar contra o novo coronavírus fármacos já aprovados para outras doenças. Como é o exemplo da cloroquina (CQ) e da hidroxicloroquina (HCQ) que são utilizadas no tratamento da malária, lúpus e artrite. Dessa forma, alguns testes in vitro suportam a eficácia da CQ e HCQ em tratamentos contra a COVID-19. No entanto, até a data de finalização deste texto (12 de abril de 2020) os testes clínicos (envolvendo humanos) são fracos em quantidade de estudos, na metodologia empregada e em evidências da eficácia. Até mesmo o mais promissor desses ensaios apresenta falhas metodológicas ao não selecionar aleatoriamente a quem o tratamento se destina, tornando o tratamento questionável, além de omitir algumas mortes. Não é possível afirmar se a melhora observada em alguns casos pode ser atribuída exclusivamente ao tratamento. Em adição, alguns pacientes tiveram o quadro clínico agravado durante o tratamento e alguns problemas cardíacos também foram observados. Além disso, os efeitos adversos ao uso de CQ e HCQ podem incluir alergia, náusea e dor de cabeça, hipoglicemia, disfunções neurológicas e, em alguns casos, arritmia cardíaca, que pode ser agravada com o uso de azitromicina. Entre outros efeitos, perda de visão e morte também já foram relatadas.

Cabe destacar ainda que mesmo diante da eficácia comprovada contra a malária, a CQ e HCQ não são mais utilizadas como tratamento convencional devido aos efeitos colaterais. Além dos riscos associados à administração de ambas as substâncias, não há uma comprovação clínica para tratamento de viroses. Alguns testes em laboratório contra os vírus HIV, influenza, chikungunya e ebola foram realizados e não comprovaram a eficácia como antiviral para CQ e HCQ. Outro agravante é a alta dosagem requerida no tratamento contra casos graves da COVID-19 (superior àquelas administradas contra malária, lúpus e artrite). A alta dosagem é tóxica e pode levar a problemas cardíacos e morte.

Diante de tantas incertezas, França e Suécia já suspenderam o uso da CQ e HCQ para tratamento contra o novo coronavírus e outros países estão reavaliando o seu uso. Todos estamos ansiosos pela cura, mas nada justifica tomarmos medidas irresponsáveis e prematuras que coloquem a população em situações que comprovadamente podem agravar a doença e piorar a crise que estamos enfrentando. Algumas outras medidas convencionais têm demonstrado bons resultados em estágios iniciais da doença e são administrados com segurança. É preciso ter cautela, para não se apaixonar por uma cura milagrosa que não existe e ainda promove outros riscos.

Contra a paixão cega só há um remédio: a informação! É por isso que as pesquisas não podem parar. Somente com novos ensaios clínicos, sistematicamente conduzidos e a busca por outros fármacos poderemos encontrar um tratamento eficaz e seguro contra esse vírus. Para isso, os investimentos em educação, pesquisa e saúde não podem parar, nunca. Como vimos, matar um vírus é simples, mas matar um vírus mantendo o paciente vivo é extremamente complicado. A descoberta de novos fármacos pode levar anos e por isso devemos estar nos preparando sempre, como para um campeonato. Atletas de alto desempenho não se preparam para uma competição nas vésperas do campeonato. Eles se preparam diariamente para eventos que muitas vezes ainda não foram programados. Assim deve ser com a ciência, pois além de combater a essa epidemia e as adversidades de hoje nunca sabemos qual será o próximo desafio que a humanidade enfrentará. É preciso estar atento e forte!

estudo in vitro - Como matar um vírus? (V.3, N.4, P.10, 2020)

#acessibilidade Quadrinho que mostra uma pessoa (feita como boneco palito) vestido com um jaleco em cima de uma cadeira apontando uma arma de fogo para uma placa de Petri em cima de uma mesa. No canto da mesa há ainda um microscópio. Acima há escrito “Estudos in vitro confirmam morte do vírus”.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: adaptado de xkcd (CC-BY-NC)

Fonte da imagem 1: adaptado de xkcd (CC-BY-NC)

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/questao-de-fato/2020/04/09/elo-mundo-cresce-percepcao-dos-riscos-do-uso-da-hcq-contra-coronavirus

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/2020/04/10/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-hidroxicloroquina

https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-usa-cdcguidance/cdc-removes-unusual-guidance-to-doctors-about-drug-favored-by-trump-idUSKBN21P39R

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.02.20047050v1.full.pdf+html

https://www.newsweek.com/swedish-hospitals-chloroquine-covid-19-side-effects-1496368

https://www.cmaj.ca/content/cmaj/early/2020/04/08/cmaj.200528.full.pdf

https://www.saocarlosagora.com.br/coronavirus/cloroquina-e-hidroxicloroquina-trazem-riscos-graves-pesquisador-do/124522/

https://veja.abril.com.br/saude/a-cloroquina-cura-o-coronavirus-veja-esclarece-essa-e-outras-duvidas/

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2020/04/11/interna_ciencia_saude,843747/medico-apresenta-novo-estudo-sobre-eficacia-da-cloroquina-e-causa-pole.shtml

Para saber mais: 

http://lajclinsci.com/vD?tD=3&rG=5&tpA=ver

https://www1.folha.uol.com.br/amp/colunas/monicabergamo/2020/04/taxa-de-mortes-com-cloroquina-equivale-a-de-quem-nao-usa-diz-estudo-preliminar-da-fiocruz.shtml

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bloomberg/2020/04/02/coronavirus-hidroxicloroquina-nao-mostra-eficacia-em-hospital-frances.htm

https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/04/09/unicamp-divulga-nota-sobre-uso-de-cloroquina-e-hidroxicloroquina

https://forbetterscience.com/2020/03/26/chloroquine-genius-didier-raoult-to-save-the-world-from-covid-19/

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/coronavirus/a-visao-de-um-cientista-em-meio-a-pandemia-como-fazer-as-perguntas-certas/

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