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Saúde única, uso do solo e pandemia. Que combinação é essa? (V.3, N.11, P.3, 2020)

Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade A imagem mostra uma fazenda de criação intensiva de porcos em que os animais estão aglomerados em baias de metal nas duas laterais, cada baia com cerca de oito animais e um caminho central adaptado à coleta de dejetos.

Você leu o título e achou que enlouqueci? Que misturei plano de saúde e agricultura com a pandemia, porque, afinal de contas, é só do que se fala hoje em dia? Pode até parecer, mas ainda não! Saúde única não tem nada a ver com plano de saúde. É um termo que mostra uma visão integrada entre a saúde humana, saúde animal e saúde ambiental. Uso do solo também não é exatamente agricultura, mas é a maneira como transformamos uma área de ambiente natural para nosso uso. E como essas duas coisas estão interligadas?

Estudos na área da saúde única (One Health, em inglês), têm demonstrado que quanto mais preservados mantivermos os ambientes naturais e quanto mais adequada for a saúde dos animais que criamos, menos problemas de saúde pública teremos. Embora o consumo de animais silvestres seja considerado comumente a fonte de epidemias, não é o que indicam estudos sobre o tema (Borges & Carneiro, 2020). Está cada vez mais clara a relação entre o uso e ocupação do solo e o aumento na incidência de pandemias no mundo. No cenário em que as chances de novas pandemias aumentam muito, temos florestas substituídas por pecuária intensiva.

Florestas são ambientes muito ricos em espécies vegetais e animais e também em seres microscópicos. Ao se destruir a floresta, diminuímos a população de hospedeiros (organismos infectados por parasitas). Vírus que se encontravam dentro de seus ciclos naturais no interior da floresta, diante da perda de hospedeiros e da proximidade com humanos ou animais de criação, podem infectá-los ocasionalmente (chamamos isso de salto). Algumas dessas infecções podem se estabelecer e a doença passa a ser transmitida entre os animais e destes para humanos. Soa familiar? Desde a década de 90, oito vírus emergiram por salto e causaram problemas de saúde pública: a gripe aviária, a gripe suína, a SARS, a MERS, a febre hemorrágica do Ebola, a febre da Zika, a febre Chikungunya e agora a Covid-19.

É muito salto em pouco tempo. A população mundial aumentou muito. Viajamos muito mais a grandes distâncias. O volume da criação de animais aumentou muito também. Estamos destruindo florestas tropicais, alterando ciclos climáticos e gerando perda de diversidade com velocidades inéditas. Tais alterações não só geram pressões favoráveis a saltos entre espécies, como também podem aumentar áreas de ocorrência de doenças: vide a expansão da febre amarela no Brasil após o desastre de Mariana.

Como no dito popular: semeando vento, colhemos tempestades. Vejam o desastre social e econômico decorrente da pandemia gerada pela Covid-19. Alta taxa de dispersão e letalidade baixa. E se estivéssemos lidando com uma doença com alta taxa de dispersão e letalidade alta? A febre hemorrágica do Ebola tem gerado surtos esporádicos na região do Congo e mata 50% dos infectados. O Nipah, um vírus que surgiu em meio a criação de porcos na região da Índia matou 70% dos infectados humanos, mas foi contido antes de se espalhar. Estima-se que existam trilhões de espécies de vírus. Conhecemos 7 mil, algumas centenas nos afetam (Salles, 2020).

No Brasil, sabemos que existem pelo menos mais 27 vírus transmitidos por mosquitos na Amazônia que podem infectar humanos. Temos o Mayaro e o Oropouche que têm potencial para causar epidemias, o primeiro concentrado na Amazônia, mas com casos registrados em São Paulo e Rio de Janeiro e o segundo, que pode ser transmitido pelo mosquito da dengue nos grandes centros urbanos (Salles, 2020). Além disso, temos arenavírus nas florestas, que são considerados vírus altamente letais. Esses vírus ocorrem no Brasil e nossos pesquisadores não podem estudá-los, pois não temos no país laboratórios de biossegurança do nível exigido!

Que cenário. Deveríamos aprender com a experiência. É senso comum. Gato escaldado tem medo de água fria. Macaco velho não pula em galho seco. Prevenir é melhor que remediar. Não existe desculpa para continuarmos insistindo no erro. A preservação ambiental é um escudo que mantém a humanidade mais saudável. Precisamos de planos de gestão empresariais e governamentais que considerem o meio ambiente e a ciência uma prioridade. Precisamos diminuir o consumo de carne e privilegiar empresas que promovam ações de bem-estar animal. Minha saúde depende da sua. Por um futuro sem máscaras, vamos?

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Unknown author, Public domain, via Wikimedia Commons

Bioemfoco. 2018. One Health: você conhece o conceito de saúde única?

Borges, C & Carneiro , G.P. 2020. Morcegos, humanos e pandemias: perspectivas de longa duração para o entendimento das relações entre sociedades e ambientes. Tessituras, Revista de Antropologia e Arqueologia 8:130-156

João Moreira Salles. 2020. O elefante negro. Que doenças a floresta esconde? Revista Piauí Edição 169.

Outros divulgadores:

Conselho Federal de Medicina Veterinária

Dialogo do uso do solo Atalanta

Notícias R7. 2020. Dinamarca vai matar 17 milhões de visons com mutação de coronavírus

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