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Por que os dentes caem? (V.3, N.11, P.1, 2020)

Tempo de leitura: 8 minutos
#acessibilidade Radiografia da região da boca, porção anterior dos ossos maxilares e mandíbula – face frontal. Nela é possível ver a dentição permanente de um indivíduo adulto.

É um fato! Os nossos dentes caem naturalmente… Trata-se de um fenômeno típico que caracteriza uma das fases de desenvolvimento do nosso corpo. Todas as pessoas por volta dos 6 anos de idade já tiveram aquela sensação, nada agradável, de perceber que um dente está mole e em seguida ele caiu! Ou então, se recorda daquela situação em que o dente está prestes a cair e as pessoas criam estratégias inusitadas para estimular ou induzir a queda. Ninguém esquecerá esta sensação ao longo da vida! Este é o indicativo de que a boca, a cabeça e o crânio estão crescendo e a troca da dentição de leite por permanentes faz parte de um fenômeno natural do desenvolvimento do corpo humano. Neste artigo, vamos abordar um pouco sobre este fenômeno natural que estimula a queda dos dentes.

Os dentes estão localizados na cavidade bucal e se articulam com os ossos maxilares e mandíbula em depressões ósseas denominadas alvéolos dentários. É isso mesmo! Os dentes se articulam com os ossos em que estão inseridos. Trata-se de uma articulação fibrosa, rica em fibras proteicas constituídas por colágeno e que praticamente não permite movimentos, mas proporciona a fixação dos dentes nos alvéolos dentários.

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#acessibilidade Ilustração que mostra as partes de um dente, com marcações numéricas e com letras para cada parte. A letra A mostra a coroa, enquanto a B mostra a raiz. 1- Esmalte, 2- Dentina, 3-Polpa, 4-Gengiva, 5-Cemento, 6-Osso alveolar, 7-vaso sanguíneo, 8-nervo.

Poucos sabem, mas os dentes são formados por um conjunto de eventos celulares e moleculares altamente coordenados a partir do epitélio oral (células ainda primordiais que revestem a futura cavidade bucal), iniciando-se no final da quinta semana de vida intrauterina. Este processo é denominado odontogênese. Não se observa qualquer dente quando o bebê nasce, mas a maioria dos dentes já está presente no interior dos ossos maxilares e mandíbula.

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Os dentes são constituídos estruturalmente por uma coroa e uma ou mais raízes dentro do alvéolo do osso. Apresenta uma porção não calcificada, chamada de polpa, e duas porções calcificadas, denominadas esmalte e dentina.

#acessibilidade Inserção dos dentes no osso maxila. * Alvéolos dentários; ⧫ Osso maxila; ● Osso palatino; X linha mediana; Denominação dos dentes permanentes: 1. incisivo central; 2. incisivo lateral; 3. canino; 4. primeiro pré-molar; 5. segundo pré-molar; 6. primeiro molar; 7. segundo molar; 8. terceiro molar.

Nós temos duas dentições ao longo da vida:

  • A primeira, chamada dentição primária, decídua, temporária, infantil ou de leite, que se inicia com a erupção dos incisivos aos 6 meses de vida e termina aos 3 anos de idade. É composta por 20 dentes, sendo 10 para cada arco (superior e inferior);
  • A segunda, também conhecida como dentição permanente ou secundária, se inicia aos 5 ou 6 anos com a substituição dos incisivos pelos permanentes e se estabelece totalmente por volta de 18 a 20 anos de idade com a erupção do terceiro molar permanente (conhecido popularmente como dente do siso). É composta por 32 dentes, sendo 16 para cada arco (superior e inferior). São denominados a partir da linha mediana de incisivo central, incisivo lateral, canino, primeiro pré-molar, segundo pré-molar, primeiro molar, segundo molar e terceiro molar.

A erupção dentária é um processo fisiológico no qual um dente em formação migra de uma posição intraóssea dentro dos maxilares ou mandíbula (nascimento do dente). O dente se projeta do tecido gengival até atingir a posição final na cavidade bucal e adquirir sua posição funcional para auxiliar a mastigação. O processo de erupção está presente na formação da dentição primária e permanente, apesar deles apresentarem formas de funcionamento diferentes. E neste momento que os dentes de leite caem.

A erupção dentária permanente, inicia-se logo após a completa formação da coroa e/ou o início da formação da raiz por um longo processo de mineralização desde o primeiro ano de vida. A cronologia e a sequência de erupção dos dentes permanentes refletem o equilíbrio fisiológico de todo o organismo. Há relatos de possíveis variações nestes processos que podem ocorrer em função de fatores gerais, como raça, etnia, sexo, fatores hormonais, padrão familiar, estado nutricional, prematuridade, doenças de origem sistêmica ou infecciosa, síndromes genéticas e problemas endócrinos, ou fatores quanto a estrutura ou condições locais, como ausência de espaço no arco, traumas, presença de dentes supranumerários (extras), dentes duplos e cistos. Há uma velocidade natural para completar o processo de erupção e atrasos prolongados pode ocasionar a anquilose dentária, uma condição em que o dente de leite se funde diretamente ao osso e impede a erupção de um dente da dentição permanente. São nestes casos que se escuta os relatos de crianças que necessitaram de procedimentos cirúrgicos para a extração do dente de leite.

A falta de atenção com a saúde bucal pode proporcionar a queda precoce dos dentes permanentes, causando deficiências funcionais e sociais que impactam negativamente a qualidade de vida das pessoas em função do comprometimento da mastigação e das limitações da interação social. Mais de 3,5 bilhões de pessoas no mundo foram afetadas por doenças bucais e a cárie dentária em dentes permanentes é um dos distúrbios mais frequentes, segundo o Global Burden of Disease Study 2017 da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o programa nacional de pesquisa sobre saúde bucal realizado periodicamente pelo Ministério da Saúde, tem apontado expressiva redução da cárie dentária na maioria das faixas etárias. Entretanto, a prevalência de perda dentária entre os idosos manteve-se estável de acordo com os últimos inquéritos nacionais, quando cerca de metade da população com idade entre 65 e 74 anos sofreu edentulismo, termo técnico utilizado para a expressar a perda parcial ou total dos dentes.

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNA) feita pelo IBGE em 2013 a pedido do Ministério da Saúde, apontou que 41,5% da população acima de 60 anos já perderam todos os dentes. Ainda neste estudo, verificou-se que 33% da população de indivíduos com 18 anos ou mais utilizam algum tipo de prótese dentária. O estabelecimento das políticas públicas quanto à saúde bucal dos brasileiros tem sido observado nos últimos anos, como é o caso do Programa Brasil Sorridente, uma série de medidas que visam a garantir ações de promoção, prevenção e recuperação da saúde bucal dos brasileiros, fundamental para a saúde geral e qualidade de vida da população. Porém, os benefícios destas medidas ainda não foram observados entre os mais velhos, que não tiveram acesso a serviços odontológicos na infância e na juventude, o que certamente justifica o alto número de pessoas com próteses dentárias totais, a famosa dentadura. Estas próteses são consideradas uma forma de tratamento rápido, de baixo custo, esteticamente aceitável e de significativa importância na reabilitação oral. Porém, a confecção correta, acompanhamento periódico por profissionais especializados e bons procedimentos de higienização são fundamentais para não comprometer a saúde da mucosa bucal.

A cariologia é uma subárea de conhecimento da odontologia que estuda a cárie dentária. Universalmente, é definida como uma doença multifatorial, infecciosa, transmissível e dieta dependente, que produz a desmineralização das estruturas dentárias. Porém, para muitos pesquisadores não deve ser considerada uma doença infecciosa e transmissível. Pode ser simplesmente definida como uma lesão do esmalte dentário provocada pelo desequilíbrio de elementos fisiológicos, pertencentes à biodiversidade do ser humano e especificamente da cavidade bucal. A suscetibilidade do indivíduo como um todo e a do próprio dente, o controle da presença de microrganismos e metabolismo bacteriano na cavidade bucal, a ingestão sistemática de alimentos cariogênios e o tempo de acúmulo da placa bacteriana dentária são fatores etiológicos que merecem atenção para controlar o surgimento da cárie.

Para a placa bacteriana exercer seu potencial cariogênico observa-se o aumento expressivo do metabolismo microbiano de carboidratos fermentáveis na superfície dentária, que pode resultar na desmineralização irreversível do esmalte, progredir para a cavitação e a até comprometer a função e a necessidade de exodontia – extração do dente. Por isso, o entendimento dos fatores etiológicos envolvidos no processo da cárie associado ao controle mecânico periódico da placa bacteriana, podem ser estratégias preventivas efetivas para o surgimento ou tratamento da cárie dentária.

Em síntese, vai uma recomendação a todos… Escovação regular dos dentes, utilização frequente do fio ou fita dental, troca das escovas de dente ao menos a cada 3 meses, atenção aos alimentos que podem causar cáries, atenção a ferimentos, manchas e lesões na boca e visitas regulares ao profissional de Odontologia são procedimentos básicos para a manutenção da saúde bucal. A atenção aos cuidados com a saúde bucal não deve ser motivada apenas por uma questão estética ou só na prevenção de cáries, mas como uma forma para a melhoria ou a manutenção da qualidade de vida ao longo do ciclo vital de uma pessoa. E claro, de também ser sinônimo de prevenção a doenças cardiovasculares, diabetes, câncer de boca, osteoporose, entre outras.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Photo by Umanoide on Unsplash

Fonte da imagem 1: Sam Fentress, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Fonte da imagem 2: Dr. A. Micheau

Assed S, Queiroz AM de. Erupção dental. In: Odontopediatria: bases científicas para a prática clínica. São Paulo: Artes Médicas; 2005.

Borges, CM et al. A falta de dentição funcional está associada ao comprometimento das funções bucais entre adultos brasileiros. Ciência & Saúde Coletiva, 24(1):253-259, 2019; https://doi.org/10.1590/1413-81232018241.30432016

Brasil Ministério da Saúde (MS). Projeto SB Brasil 2010: Pesquisa Nacional de Saúde Bucal. Resultados Principais. Brasilia: MS. Available online: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pesquisa_nacional_saude_bucal.pdf (accessed on 10 January 2020).

Global Burden of Disease Study 2017 (GBD 2017) Data Resources – http://ghdx.healthdata.org/gbd-2017 (Acesso em 28/10/2020)

José Eduardo de Oliveira Lima. Cárie dentária: um novo conceito. Rev. Dent. Press Ortodon. Ortop. Facial vol.12 no.6 Nov./Dec. 2007. https://doi.org/10.1590/S1415-54192007000600012

Mafra, R.P et al. Desenvolvimento dental: aspectos morfogenéticos e relações com as anomalias dentárias do desenvolvimento. Rev. Bras. Odontol. vol.69 no.2 Rio de Janeiro Jul./Dez. 2012.

Paula e Silva, F W. et al. Erupção dental: sintomatologia e tratamento. Pediatria (São Paulo) 2008;30(4):243-248

Vettore MV et al. Individual- and City-Level Socioeconomic Factors and Tooth Loss among Elderly People: A Cross-Level Multilevel Analysis. Int. J. Environ. Res. Public Health 2020, 17(7), 2345; https://doi.org/10.3390/ijerph17072345

Para saber mais:

A saúde bucal no Sistema Único de Saúde [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_bucal_sistema_unico_saude.pdf (Acesso em 27/10/2020)

Levantamento epidemiológico articulado à Coordenação-Geral de Saúde bucal da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (CGSB/Saps) – https://aps.saude.gov.br/ape/brasilsorridente/sbbrasil2020 (Acesso em 28/10/2020)

Pesquisa nacional de saúde: 2013 : acesso e utilização dos serviços de saúde, acidentes e violências : Brasil, grandes regiões e unidades da federação / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento. – Rio de Janeiro : IBGE, 2015. 100 p. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94074.pdf (Acesso em 28/10/2020)

SAÚDE BUCAL. Brasília – DF 2008 Caderno de Atenção Básica, nº 17 do Ministério da Saúde. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_bucal.pd (Acesso em 27/10/2020)

Outros divulgadores:

https://www.colgate.com.br/oral-health/basics/threats-to-dental-health/what-is-dental-ankylosis

https://www.colgate.com.br/oral-health/life-stages/childrens-oral-care

https://www.colgate.com.br/oral-health/basics/mouth-and-teeth-anatomy/how-many-teeth-do-we-have-0113

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