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Os barulhos no céu! (V.3, N.4, P.9, 2020)

Tempo de leitura: 3 minutos
#acessibilidade Pintura de 7 anjos tocando trombetas nas nuvens, as quais formam um vórtex em torno da Terra no canto inferior direito.

Trombetas do apocalipse? Ataque alienígena? Reparos no domo? Muitas pessoas ao redor do mundo têm se assustado com esses estranhos barulhos que aparentam vir do céu, que ora se parecem com o som de trombetas e ora com verdadeiros estrondos de trovões distantes, mesmo com o céu limpo. A quantidade de tais relatos tem aumentado tanto nas últimas semanas que até fez com que a hashtag #barulhonoceu se tornasse uma trend no Twitter. Várias postagens apresentam os áudios dos temidos estrondos sônicos. Há relatos do Brasil, dos Estados Unidos, da Austrália, da Itália, do Japão, das Filipinas etc. E, de tempos em tempos, eles ressurgem: nos anos de 2012 e 2013 houve um boom de relatos e, agora em 2020, eles reapareceram com força. Ontem mesmo, minha filha veio me perguntar: “papai, o que são esses barulhos no céu que todo mundo está falando?”.

Bem, antes de tentar explicar, vamos contar um pouco da história desses estrondos celestes. O primeiro relato de que se tem notícia vem da Austrália, lá no ano de 1824. Nos Estados Unidos os estrondos são conhecidos como os “canhões do Sêneca”, por terem sido ouvidos nas proximidades do Lago Sêneca, no estado de Nova York. O termo popularizou-se depois do escritor James Fenimore Cooper (autor de “O Último dos Moicanos”) escrever, em 1850, o conto “O Canhão do Lago”. Os Iroquois, povos nativos do nordeste americano, diziam ser os estrondos a continuação do trabalho do Grande Espírito em moldar a Terra – talvez os terraplanistas inspiraram-se neles ao dizerem que são reparos no domo (risos). Os relatos continuam, mundo afora, com os “canhões de Barisal”, em Bangladesh, as “bombas”, “trombas”, “rufos” etc., na Itália, os “retumbos”, nas Filipinas e no Irã, as “trombetas de Jerusalém”, em Israel, e por aí vão…

Mas o que são, afinal? O termo correto, em inglês, é “skyquake”, isto é, “aeromoto”, ou seja, um terremoto celeste. Há várias hipóteses para as explicações científicas desses fenômenos. Na verdade, não podemos atribuir somente a uma delas quaisquer deles, pois cada caso deve ser analisado separadamente, de acordo com as suas características, as das regiões onde foram observados e, claro, de acordo com as evidências de cada um. Meteoros entrando na atmosfera da Terra podem causar estrondos sônicos. Erupções vulcânicas, avalanches, terremotos e maremotos também. Gases escapando de cavernas subterrâneas ou biogases das profundezas dos lagos podem gerar fluxos repentinos na atmosfera, numa espécie de flatulência planetária. O som de trovões de tempestades distantes pode encontrar as condições propícias para propagar-se por grandes distâncias na alta atmosfera. Ejeções de massa coronal do Sol produzem os chamados ventos solares, fluxos de partículas carregadas vindas do Sol que penetram na atmosfera terrestre e podem induzir ondas sonoras. E, finalmente, a causa pode ser a atividade humana: aviões supersônicos, canhões (ou outras armas militares), barulhos de indústrias etc.

Ademais, considerando-se que estamos em plena quarentena, nos protegendo de uma pandemia que já foi classificada como tendo proporções apocalípticas, e temos que ficar em casa, virando nossa rotina de pernas para o ar, facilmente ficamos acordados ou acordamos de madrugada, com os ouvidos muito mais sensíveis a sons que normalmente só fazem parte do ruído de fundo. Decerto que não temos todas as explicações para os fenômenos da natureza e há muito ainda que deve ser aprendido, mas como dizia o astrônomo americano Carl Sagan: “Existe uma explicação muito mais simples”. Muito mais simples do que anjos do apocalipse tocando trombone. Desta forma, os skyquakes não são anúncios do fim do mundo: ele não acabou em 2012 e não deve acabar agora. A humanidade já passou por momentos bem piores. Confiem na ciência, permaneçam em segurança – ­e em casa – e procurem explicações racionais para os fenômenos naturais, sem causar alarde, nem espalhando notícias falsas.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Sentinelle 971

Para saber mais:

The World Hum Map and Database

Skyquake – Wikipedia

Outros divulgadores:

Vídeo Barulho no céu do canal Spacetoday no YouTube

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3 comentários em “Os barulhos no céu! (V.3, N.4, P.9, 2020)

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