Como sabemos que o vírus da Covid-19 não foi criado em laboratório? (V.4, N.1, P.1, 2021)

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Como sabemos que o vírus da Covid-19 não foi criado em laboratório? (V.4, N.1, P.1, 2021)

Tempo de leitura: 6 minutos
#acessibilidade Imagem que mostra um mapa-múndi, com círculos de tamanhos variados sobrepostos nos países, representando a quantidade de casos de Covid-19 em uma determinada região.

Texto escrito pelos colaboradores Gabrieli Carvalho Silva, Vinicius Higuchi e Giovanna Kamin de Souza Kobashigawa

No começo do ano de 2020 fomos todos bombardeados com o surgimento de uma nova pandemia, a pandemia do novo coronavírus (ou vírus Sars-cov-2 para os mais íntimos da biologia). Com isto, surgiram boatos que buscamos clarificar sob o prisma científico.

Com acontecimentos a nível mundial, é improvável que não existam pessoas ou entidades tentando espalhar os mais diversos tipos de informações falsas. Uma das notícias falsas que mais se popularizou foi a de que o coronavírus foi criado em laboratório. Notícia esta que foi rapidamente invalidada por diversos cientistas. Mas, como podemos saber de onde saiu essa conclusão? Como os cientistas sabem que o Sars-Cov-2 teve uma origem natural? Para isso precisamos primeiro entender o que é um vírus e como o DNA dos organismos é manipulado pelos cientistas. Conhecendo as técnicas de manipulação genética, podemos também saber quais são os rastros que essas técnicas deixam.

O que um vírus faz no nosso corpo?

Afinal, como os vírus agem no organismo? Para entendermos isso vamos fazer uma analogia com casas: imagine que o corpo humano é uma casa e para essa casa funcionar ela precisa de energia elétrica, precisa ser limpa e ser organizada para que você possa viver bem dentro dela.

Até que um dia, alguém faz uma fiação irregular e começa sugar sua eletricidade, todos os equipamentos começam a parar de funcionar, as coisas começam a estragar, você não consegue fazer suas funções e tem muitos transtornos porque alguém está roubando sua energia. Os vírus funcionam de uma forma parecida, eles têm uma espécie de “espinho” que gruda na célula e faz essa célula trabalhar para ele, a célula deixa de cumprir sua função pois está usando toda sua energia adquirida para fazer o que o vírus manda — que no caso é se replicar até o momento que ela literalmente explode de tanto material genético no seu interior, espalhando vários outros vírus semelhantes no organismo, repetindo esse processos várias vezes até causar a infecção.

celula - Como sabemos que o vírus da Covid-19 não foi criado em laboratório? (V.4, N.1, P.1, 2021)

#acessibilidade Ciclo de reprodução do vírus causador da Herpes. Imagem Adaptada. Imagem que mostra o ciclo do vírus causador da herpes dentro de uma célula. Desde a entrada do material genético do vírus na célula, passando pela entrada do DNA no núcleo da célula; este sendo replicado; e enfim sendo envolto em uma cápsula e rompendo a barreira da célula.

Na casa, no momento em que você perceber que tem alguém roubando sua energia você vai buscar por aquele que está causando transtorno e tentar resolver a situação. No corpo humano o processo é parecido, o sistema imunológico vai atrás do agente que está causando a infecção e tenta combatê-lo, em casos mais graves, quando tudo está muito danificado, pode haver sequelas mesmo que o corpo tenha conseguido enfrentar a contaminação.

Como manipular o DNA?

Há algum tempo que a humanidade sabe manipular o DNA, entretanto, manipular não significa que compreendemos completamente como o DNA funciona, sabemos que ele guarda o código para gerar um ser a partir de proteínas; sabemos também como colocar características desejadas no DNA a partir de um organismo já existente, mas estamos longe de conseguir “programar” um ser vivo.

Criando plantas geneticamente modificadas

As plantas geneticamente modificadas são o tipo de manipulação que mais está presente no cotidiano, essa modificação é feita colocando um pedaço de DNA dentro de uma bactéria do gênero Agrobacterium. Essas bactérias têm a capacidade de integrar o seu próprio DNA no DNA de um fungo ou de uma planta.

Após o gene ter sido colocado na bactéria, a flor da planta é colocada em contato com o micro-organismo modificado e em algum tempo o óvulo da planta é modificado. Quando cultivamos a semente resultante, podemos ver na planta a característica que escolhemos — se colocamos um gene que faz plantas maiores, a planta cultivada a partir desta semente terá um tamanho acima da média. Então, quando analisado o DNA da planta é claro de onde veio a modificação, já que nós retiramos o genoma desejado de uma planta já conhecida e estudada.

inserção genética - Como sabemos que o vírus da Covid-19 não foi criado em laboratório? (V.4, N.1, P.1, 2021)

#acessibilidade Imagem ilustrando o processo de inserção de uma área de um cromossomo em outro. Ao lado esquerdo, sob o título: Antes da inserção, duas barras, uma dourada e outra cinza. Ao lado direito sob o título: Depois da inserção, a barra dourada com um tamanho reduzido, e a barra cinza com uma área dourada inserida no seu meio. Imagem Adaptada.

Apesar desse processo ser feito com plantas, ele traduz bem como modificamos vírus, usando sequências de vírus amplamente conhecidos. Assim, quando analisamos um vírus geneticamente modificado é fácil notar sequências genéticas familiares.

Quais as evidências sobre a origem do Sars-Cov-2?

A origem da Covid-19 é alvo de muitas especulações e ainda são necessários muitos estudos para que se possa definir a fonte do vírus. Atualmente já foram identificados seis tipos de coronavírus humanos que causam infecções respiratórias graves. O Sars-Cov-2 possui características semelhantes com as infecções causadas pelo vírus da SARS, que em meados de 2002 passou de pangolins para morcegos e posteriormente para seres humanos, e com o vírus MERS-CoV, que em 2012 passou de morcegos para camelos e posteriormente para seres humanos.

Os primeiros casos de Covid-19 foram notificados no mercado de Huanan, em Wuhan na China, dessa forma, é possível que uma fonte animal estivesse no local, dada a semelhança entre os vírus anteriormente citados, e que esse animal seja um morcego hospedeiro da doença. Devemos nos atentar ainda à presença de hospedeiros intermediários em outros coronavírus que infectam seres humanos.
Estudos realizados por Zou e colaboradores mostram que o vírus Sars-Cov-2 possui DNA 96% idêntico ao coronavírus de morcego, o vírus BatCov RaTG13. Já outro estudo realizado por Zhang e colaboradores demonstra que o Sars-Cov-2 possui 91% de material genético idêntico ao coronavírus do pangolim, mamíferos encontrados na África e Ásia.

Há ainda estudos que mostram que o vírus da Covid-19 corresponde a uma recombinação entre dois outros coronavírus, um de morcego e outro desconhecido. É importante ressaltarmos a presença de uma proteína denominada Spike, que age na capacidade de ação do vírus sendo muito importante para a infecção em humanos. Nos estudos realizados, foram encontradas maiores similaridades desta proteína em relação ao coronavírus do pangolim quando comparado ao coronavírus do morcego.

A presença de tais estudos nos ajuda a entender porque o coronavírus não pode ter sido criado em laboratório. Quando se cria um vírus em laboratório, é possível encontrar marcas de manipulação em seu DNA, incluindo evidências de elementos genéticos que foram apagados ou adicionados. Essas evidências não foram encontradas no vírus Sars-cov-2.

Este texto foi originalmente publicado em https://vinicius-higuchi.medium.com/como-sabemos-que-o-v%C3%ADrus-da-covid-19-n%C3%A3o-foi-criado-em-laborat%C3%B3rio-63d62cbe6436 sob a mesma licença CC BY-NC-ND. E foi escrito para a matéria Evolução e Diversificação da Vida na Terra — QS, ministrada pelo Professor Dr. Ricardo Jannini Sawaya, na Universidade Federal do ABC.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Photo by Martin Sanchez on Unsplash

Fonte da imagem 1: Este arquivo está licenciado sob a licença Creative Commons Atribuição 2.5 Genérica. Autores: Giovanna De Chiara, Maria Elena Marcocci, Rossella Sgarbanti, Livia Civitelli, Cristian Ripoli, Roberto Piacentini, Enrico Garaci, Claudio Grassi, Anna Teresa Palamara. Retirado de https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs12035-012-8320-7

Fonte da imagem 2: National Human Genome Research Institute http://www.genome.gov/Pages/Hyperion//DIR/VIP/Glossary/Illustration/Pdf/insertion.pdf

HAYES, P. Here’s How Scientists Know Coronavirus Wasn’t Made in a Lab. (2020) Disponível em: https://www.sciencealert.com/here-s-how-we-know-coronavirus-was-not-made-in-the-lab – Acesso em 25-nov-2020.

How to make a transgenic plant, University of North Carolina of Chapel Hill. (2011), Disponível em: https://our.oasis.unc.edu/public_html/hhmi/hhmi-ft_learning_modules/2011/plantmodule/transgenicplants.html – Acesso em 30-nov-2020.

ESPLEY, R. Making a Transgenic Plant. (2011, atualizado em 2018). Disponível em: https://www.sciencelearn.org.nz/image_maps/62-making-a-transgenic-plant – Acesso em 30-nov-2020.

KOROIVA, Ricardo. Por que os cientistas acreditam que o SARS-CoV-2 COVID-19 teve origem nos morcegos e nos pangolins? — Exercício prático. (2020). Disponível em: https://www.environmentalsentinels.net/coronavirus – Acesso em 29-nov-2020.

Nogueira, José Vagner Delmiro. CONHECENDO A ORIGEM DO SARS-COV-2 (COVID-19) (2020). Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/sameamb/article/view/10321 – Acesso em 29-nov-2020.

Khan Academy. Introdução aos vírus. Disponível em: https://pt.khanacademy.org/science/biology/biology-of-viruses/virus-biology/a/intro-to-viruses – Acesso em 6-dez-2020.

Para saber mais:

Temos um Infográfico sobre o assunto! – https://drive.google.com/file/d/1VkFcn9AmKE3Znvb7JdW_LogBRsspX-dw/view?usp=sharing – material de autoria de: Gabrieli Carvalho Silva.

Outros divulgadores:

Youtube Atila Iamarino – https://www.youtube.com/c/AtilaIamarino/

Podcast Xadrez Verbal – https://xadrezverbal.com/

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