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Chorar faz bem? (V.4, N.3, P.5, 2021)

Tempo de leitura: 6 minutos
#acessibilidade Imagem com fundo cor de laranja, uma menina no centro com lágrimas escorrendo de seu rosto, cabelos escuros, lisos e longos até o ombro, vestido preto e sapatos pretos. Ao redor dela, seis nuvens escuras.

Se tem uma coisa que não tem faltado desde o ano passado é motivo para choro, não concorda? Pode ser choro de medo, de tristeza, de luto ou choro de alívio e gratidão. E será que chorar faz bem? Você já pensou em como chorar é um comportamento complexo, já que serve para emoções negativas e positivas? Quanto sabemos sobre esse comportamento? Chorar tem alguma função?

A motivação para esse texto começou assim: estava em casa lidando ali com minhas angústias e pensei “preciso marcar com a psicóloga, estou precisando dar uma chorada”. Acho bom chorar, me sinto aliviada depois. E então lembrei que meu marido costuma dizer que não gosta de chorar. E que uma amiga não chorava porque achava que não ia adiantar nada. Poxa, como um comportamento tão comum poderia trazer resultados tão diferentes entre as pessoas? Será que sentir alívio ou não sentir nada após chorar seria algo cultural? Algo que aprendemos? Ou será que chorar serve para algo do ponto de vista físico e psicológico? Alguém já estudou isso? Fui dar uma pesquisada.

Descobri que o senso comum indica que chorar faz bem e que não chorar faz mal à saúde. Mas e a ciência, o que diz? Bom, para começar é preciso definir de que choro estamos falando. Chorar é um comportamento que envolve sons, postura corporal, lágrimas, emoções, contexto social e cultura. Pode ser motivado por condições físicas como dor, fome, frio, ou emocionais, como separação da mãe, medo, alegria ou tristeza. Esse choro motivado por condições físicas é inato, ou seja, nascemos sabendo chorar. É o chamado “choro reflexo”. Basicamente um pedido de socorro. Aciona uma área do cérebro responsável por emoções (o giro cingulado) e que em humanos e também em outros mamíferos desperta cuidado parental. O componente principal desse choro é o som e dá até para reconhecer tipos diferentes com base em sua estrutura (é fome ou é dor?). Mas existe o choro emocional, que é aquele mais silencioso e composto por lágrimas e soluços. Este é considerado exclusivamente humano. Será?

Fisicamente, a maioria das pessoas não sente diferença nenhuma após chorar, às vezes até se sentem pior, com nariz entupido e dor de cabeça, por exemplo. Mas emocionalmente, não há unanimidade. A maioria se sente melhor após chorar, mas uma minoria, não. Sabemos também que sentir-se pior, igual ou melhor pode mudar, com uma tendência a sentimentos mais positivos conforme o tempo passa após o choro. A maioria dessas conclusões vêm de relatos, pois a abordagem experimental é complicada. Pesquisadores induzem o choro emocional com base em filmes tristes, mas a intensidade da resposta emocional pode variar diante de muitos fatores não controlados (memórias, por exemplo) e interferir nas respostas obtidas.

Sabemos que ao longo de nosso crescimento a importância dos componentes do choro se altera. Choramos menos por reflexo e mais por motivos emocionais (menos barulho e mais lágrimas). Em outros animais o choro reflexo também diminui. Mas lágrimas estão ausentes ou são raras em choros que puderam ser associados a contextos emocionais. Duas menções valem nota aqui: cães mantêm o choro (sem lágrimas) frequente mesmo na idade adulta e os elefantes aparecem como os animais mais citados a apresentar choro emocional (com lágrimas). Nos dois casos, são animais bastante sociais e que interagem frequentemente com seres humanos. Ainda assim, choro emocional, silencioso e com lágrimas, na frequência que ocorre em humanos, é algo exclusivamente nosso. Animais sentem emoções, mas expressam-nas de maneira diferente.

A principal dúvida relacionada ao choro emocional é entender se ele é uma consequência física indicativa de aumento progressivo de tensão e estresse ou se o choro é uma resposta de recuperação e retorno de equilíbrio diante de níveis altos de estresse. Talvez as duas coisas ocorram em fases diferentes. O choro inicial seria um aviso de aumento de tensão e o choro final, de recuperação. Existem de fato indícios de ativação diferenciada de atividade simpática durante o choro e parassimpática após o choro. Chorar faz aumentar a profundidade da respiração e parece diminuir os níveis de cortisol no sangue (hormônio indicativo de estresse). Alguns estudos indicam menor intensidade em inflamações e reações alérgicas após o choro. O que se sabe é que a privação de sono, alguns remédios e o álcool podem alterar o padrão de choro de uma pessoa, indicando algum mecanismo fisiológico envolvido no ato de chorar. Mas o entendimento desses mecanismos ainda é bastante precário.

A frequência, a motivação, a intensidade e a interpretação do choro emocional também podem variar entre homens e mulheres, entre crianças, adultos e idosos e entre pessoas de diferentes culturas. Mulheres costumam chorar mais que homens (testosterona, hormônio masculino, tem efeito inibitório ao choro), e quando choram costumam despertar empatia em homens e mulheres. Já homens que choram costumam ser interpretados com sentimentos negativos por outros homens. Idosos costumam chorar mais por motivos positivos, que indiquem algum senso de realização. Em algumas culturas, chorar escandalosamente em funerais é esperado e em outras, chorar tem conotação negativa e é evitado desde a infância. O choro emocional mais unânime entre os sexos e as idades é aquele motivado por perdas e por sentir-nos impotentes (Ah, sim, explica bem meu aumento de choro recente).

Ainda que a função física em relação ao aumento dos níveis de estresse não esteja clara, a importância do choro emocional para estreitamento de laços sociais é consenso. Lágrimas silenciosas, por serem pouco conspícuas, evitariam chamar atenção do grupo social. Somente seriam percebidas por indivíduos próximos e atentos ao nosso comportamento. Chorar é mais fácil na presença de pessoas com as quais temos intimidade. Que saudade de um abraço.

Ou seja, ainda não temos resposta definitiva para a pergunta do título. Quem diria que um ato tão humano, que nasce e morre conosco seria tão difícil de entender? Atualmente o choro emocional é assunto da psicologia, psiquiatria, biologia evolutiva, neurobiologia, neurociência, antropologia e etologia! Do ponto de vista evolutivo, o que a gente sabe é que um comportamento inato e tão frequente, deve ter (ou ter tido, pelo menos) uma função importante para nossa adaptação e sobrevivência. Assim, eu diria que se você quiser chorar, chore! Melhor ainda, se puder compartilhar esse choro com uma pessoa querida e receber de volta uma das mensagens mais importantes para uma espécie tão social como a nossa: Você não está sozinho (a)!

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Rafaela Verdade Minharro (9 anos, filha da autora)

Bylsma, L.M.; Gračanin, A.; Vingerhoets, A. 2019. The neurobiology of human crying. Clinical Autonomic Research 29:63–73. https://doi.org/10.1007/s10286-018-0526-y

Gracanin, A.; Vingerhoets, A.; Kardum, I.; Zupcic, M.; Santek, M.; Simic, M. 2015. Why crying does and sometimes does not seem to alleviate mood: a quasi-experimental study. Motivation and Emotion 39: 953–960. https://doi.org/10.1007/s11031-015-9507-9

Murray, A.D. 1979. Infant Crying as an elicitor of parental behavior: an examination of two models. Psychological bulletin 86 (1): 191-215

Vingerhoets, A.; Bylsma, L.M. 2007. Crying and Health: Popular and Scientific Conceptions. Psychological Topics 16 (2): 275-296.

Vingerhoets A.; Bylsma, L.M. 2016. The Riddle of Human Emotional Crying: A Challenge for Emotion Researchers. Emotion Review 8(3): 207–217. https://doi.org/10.1177/1754073915586226

Outros divulgadores:

Silvia H. Cardoso, Renato M.E. Sabbatini. 2002. The animal that weeps. Cerebrum dana foundation

Drauzio Varella. 2017 (revisado 2020). Artigo. A lágrima, Uol.

Marcelo Pena. 2019. Lágrima (V.2, N.3, P.1, 2019), Guia dos Entusiastas da ciência.

Vídeo da série Ciência explica. 2019. Por que saem lágrimas dos nossos olhos?, Canal ClickCiência UFSCar

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1 comentário em “Chorar faz bem? (V.4, N.3, P.5, 2021)

  1. Excelente texto para esse assunto tão simples e fácil…e mesmo assim…tão complexo e difícil. Conheci uma pessoa bem próxima de meu relacionamento que desprendeu como chorar. Ficava muito triste sim, às vezes, mas o choro não vinha. Nenhuma lágrima sequer. Curioso. Faz pensar.. Sim, concordo com a autora..Vanessa Verdade . Tema ainda que incita muitas dúvidas e pesquisa. Fico por enquanto na gratidão ao Universo, de nós favorecer com a possibilidade de reconstrução emocional reforçado pela sabedoria popular quando diz que o choro lava a alma!!!!Parabéns Vanessa e parabéns Rafaela pela ilustração perfeita!. Orgulhos meus!!!💞

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