Orthognathotermes heberi

Cupim da Semana!

Família: Termitidae

Subfamília: Termitinae

 

O cupim dessa semana é a espécie Orthognathotermes heberi!  Essa espécie foi descrita por Raw e Egler em 1985. Eles enfatizaram que o dimorfismo observado em seus soldados (soldados maiores e menores) seria uma característica nunca antes vista no gênero.

Entretanto, após 24 anos, Rocha e Cancello (2009) fizeram uma revisão taxonômica do gênero Orthognathotermes, e repararam que os soldados menores, descritos por Raw & Egler (1985), não era um caso de dimorfismo, mas eram na verdade indivíduos parasitados por uma espécie de Acanthocephala!

“Tá, mas o que seria um parasita acantocéfala e por quê soldados de uma espécie seriam hospedeiros desse ser?”  – Calma lá, vamos explicar para você!

Acanthocephala é um grupo de parasitas obrigatórios dos intestinos de vertebrados (espécies de peixes, anfíbios, pássaros e mamíferos). Uma característica interessante desses animais, é que eles não possuem trato digestivo, uma vez que eles se alimentam dos nutrientes retirados de seus hospedeiros através da parede do corpo. Essa é uma adaptação bastante comum para um estilo de vida parasita. Mas enfim, como ele foi parar em um cupim?!

Orthognathotermes heberi (4)Além do hospedeiro definitivo vertebrado, o ciclo de vida dos acantocéfala inclui um hospedeiro intermediário, que são geralmente insetos ou crustáceos. Nosso cupim da semana, o O. heberi, assim como outras espécies de cupins, são hospedeiros intermediários da espécie de Acanthocephala Gigantorhynchus echinodiscus.

 

E quem é o hospedeiro definitivo do G. echinodiscus? Algum palpite? Se você pensou nos tamanduás, acertou! Tanto o tamanduá bandeira (Myrmecophaga tridactyla), quanto o mirim (Tamandua tetradactyla), são hospedeiros desse parasita. 

Quando o adulto libera os ovos, dentro do hospedeiro definitivo, os embriões se desenvolvem e são eliminados pelas fezes do tamanduá. Esse embrião é ingerido pelo cupim, e se desenvolve em uma forma encapsulada chamada cistacanto, essas bolinhas brancas que podem ser vistas no abdome do cupim na foto. O cistacanto retira nutrientes dos nossos amados cupins para a sua nutrição. Então quando o cupim é comido por um tamanduá, o cistacanto fixa-se na parede intestinal dele, e se desenvolve para a fase adulta, fechando o ciclo!

Orthognathotermes heberi (3)

Existe um mistério nesta história toda. Nos Orthognathotermes (e em todos os casos conhecidos aqui na América do Sul), apenas soldados são encontrados com parasitas, mas os soldados são alimentados por operários. Então esse ciclo não está fechando! Possivelmente os acanthocephala induzem um operário a fazer a muda para soldado (que pode ter maior chance de ser predado). Essa hipótese nunca foi testada. Mas seria interessante ver se soldados parasitados teriam um comportamento mais agressivo, o que consequentemente facilitaria a predação pelos tamanduás.

Orthognathotermes heberi (2)

Bom, para não dizer que não falamos do nosso cupim da semana, Orthognathotermes que pertence à família Termitidae. Do grego “orthos” (retilíneo) + “gnathos” (mandíbulas), e do latim “termes” (cupins), em referência a suas mandíbulas retas e alongadas de seus soldados.  

O gênero é endêmico da América do Sul, e O. heberi ocorre desde Manaus, até o Mato Grosso do Sul, desde a Amazônia, passando pelo Cerrado e Mata Atlântica. Esta espécie pode viver em ninhos construídos por outras espécies (sendo inquilina) ou construir seus próprios ninhos, que são montes baixos, construídos com terra fofa, se estendendo subterraneamente, como da foto ao lado.

 

Orthognathotermes heberi (1)


Texto por: Anna Beatriz dos Santos Bovo Nunes


Referências

AMATO, José FR et al. Cystacanths of Gigantorhynchus echinodiscus (Acanthocephala, Gigantorhynchidae), in neotropical termites (isoptera, termitidae). Neotrop. Helminthol, v. 8, p. 325-338, 2014.

GOMES, Ana Paula Nascimento et al. New morphological and genetic data of Gigantorhynchus echinodiscus (Diesing, 1851) (Acanthocephala: Archiacanthocephala) in the giant anteater Myrmecophaga tridactyla Linnaeus, 1758 (Pilosa: Myrmecophagidae). International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife, v. 10, p. 281-288, 2019.

RAW, Anthony; EGLER, Ione. A new Brazilian termite species and the first record of soldier dimorphism in the genus Orthognathotermes (Isoptera, Termitidae). Revista Brasileira de Zoologia, v. 2, n. 6, p. 333-337, 1985.

ROCHA, M. M.; CANCELLO, Eliana M. Revision of the Neotropical termite genus Orthognathotermes Holmgren (Isoptera: Termitidae: Termitinae). Zootaxa, v. 2280, n. 1, p. 1-26, 2009.

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