Cupins peidam?

Você já se questionou se outros animais peidam? Talvez sua mente nunca sido invadida por esse questionamento meio estranho, mas acredite, essa pergunta aparentemente boba ou infantil, é de grande interesse para vários cientistas. Para alguns pode até parecer óbvia, já que talvez você já tenha sentido cheiros estranhos vindo do seu cachorro ou gato, certo? Mas e os insetos? E os cupins? Eles peidam? Neste caso, a resposta já não é tão óbvia assim!

Antes de responder a pergunta, é necessário definir o que é um peido. Sim, existe uma definição científica para isso! Na literatura médica é utilizado o termo flatulência, que é definido como a liberação de gás (flato), produzido como subproduto durante a digestão no estômago e/ou intestino, através do ânus. O tipo de gás produzido depende da dieta do organismo e da microbiota intestinal.  

Essa definição é importante, pois todo ser vivo é capaz de produzir algum tipo de gás, mas nem todos liberam pelo ânus. Por exemplo, em alguns insetos os gases gerados são absorvidas pela hemolinfa (fluido corporal análogo ao sangue) e liberados através da respiração, por pequenos orifícios presente na lateral do corpo dos insetos (denominados espiráculos). Mas esse não é o caso dos cupins, eles de fato peidam!

E qual a relevância desta informação? Bom, para começar, a flatulência dos cupins é nada menos que umas das principais fontes de gás metano (CH4) do mundo! As estimativas mais atuais apontam que os cupins são responsáveis por cerca de 2 a 4% das emissões globais de gás metano na atmosfera terrestre. Só nos EUA, por exemplo, os cupins produzem aproximadamente 12 milhões de toneladas por ano! Somando-se a isso, te lembramos que o gás metano contribui para o aquecimento global, e que essa molécula retém mais calor do que as moléculas de dióxido de carbono (CO2). Ou seja, o peido desses bichos tem sua relevância!

Mas como um um animal tão pequeno consegue produzir tanto gás metano? Eles peidam muito? Bom, na verdade um único cupim é capaz de produzir apenas meio micrograma de metano por dia, um valor bastante irrisório. A grande questão aqui não é a quantidade por indivíduos, mas sim a quantidade de indivíduos! Um único cupim pesa, em média, 0,96 mg; mas a biomassa dos cupins como um todo, isto é, o peso de todos os cupins do mundo, é estimado em 100 milhões de toneladas (considerado apenas o peso seco deles). Para se ter uma comparação, a biomassa de todos os vertebrados terrestres selvagens (ou seja, excluindo humanos e animais domésticos) é estimada em 18 milhões de toneladas. É isso mesmo! A biomassa dos cupins é 5 vezes maior do que a de todos os grandes mamíferos, aves, crocodilos, lagartos, cobras… JUNTOS! !

Então, seria os cupins os grandes vilões do aquecimento global? A resposta é não. Primeiro porque existem evidências de que metade do metano produzido pelos cupins, pelos menos para aqueles que constroem montículos, é oxidado por bactérias metanotróficas (bactérias que utilizam metano como fonte de energia), presentes nos próprios ninhos dos cupins. E segundo que a ação humana, como geração de energia e criação de gado, é a principal fonte de gases do efeito estufa recente. Além disso, os cupins são essenciais na conservação de florestas tropicais e na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas naturais (veja o texto os guardiões das florestas). 

Afinal, o que é peido para quem é essencial no combate das mudanças climáticas?!

(Uma última curiosidade – importante – sobre o tema, é que o metano é um gás inodoro, ou seja, o peido do cupim não fede!)

 


Texto por Gabriel Olivieri


Referências: 

NAUER, P. A., HUTLEY, L. B., ARNDT, S. K. “Termite mounds mitigate half of termite methane emissions”. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 115, n. 52, p. 13306–13311, 2018.

SANDERSON, M. S. “Biomass of termites and their emissions of methane and carbon dioxide: A global database”. Global Biogeochemical Cycles. [S.l: s.n.], 1996.

SHIPMAN, M. “Do insects fart?” (They Sure Do!). NC STATE UNIVERSITY, North Carolina, 29 de novembro de 2018. Disponível em: <https://news.ncsu.edu/2018/11/do-insects-fart/>.

TUMA, J., EGGLETON, P., FAYLE, T. M. “Ant-termite interactions: an important but under-explored ecological linkage”. Biological Reviews, v. 95, n. 3, p. 555–572, 2020.

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