Bioindicadores: Precisamos falar de preservação de áreas naturais.

Neste texto, trazemos à vocês uma parceria especial com o projeto Bicho-Folha, da Unesp de Assis. Vamos falar como estudar alguns organismos pode nos dar dicas importantes sobre o quanto uma área está sendo impactada ou degradada. Esses carinhas que podem “nos dizer” essas informações preciosas são chamados de bioindicadores.

Mas afinal, quem são esses tais bioindicadores?! São seres vivos ou conjunto de seres vivos que estão intimamente relacionados ao ambiente, e são impactados de alguma forma pelas variações em seus habitats, de modo que nós possamos medir/quantificar esse impacto. E isso é verdade tanto para uma espécie (que pode aumentar ou diminuir o tamanho de suas populações ou modificar de alguma forma sua fisiologia), quanto para um conjunto de espécies (comunidades). Pra você pegar a ideia, vamos exemplificar: Será que o desmatamento causa variações nas comunidades de cupins?!  Se sim, então eles podem ser considerados como bioindicadores. Mas como podemos responder isso de forma científica?! Ou seja, como podemos testar a hipótese que os cupins podem ser utilizados como bioindicadores? Apertem os cintos, que nós vamos fazer uma viagem para a Caatinga, em especial, três áreas em situações bem diferentes – será que isso vai nos ajudar em nossa pesquisa?!

A primeira área (A) está bem preservada, há mais de 100 anos e, para cada 100 metros quadrados, encontramos mais de 40 árvores. A segunda área (B) é explorada para extração de madeira há cerca de 30 anos, com uma média de 11 árvores para cada 100 metros quadrados. Para finalizarmos, a terceira área (C) está desmatada, com menos de 10 árvores para cada 100 metros quadrados. Será que os grupos de cupins que vivem nessas três áreas sofreram algum impacto devido às condições de cada uma delas?! Essa pergunta aí foi parcialmente respondida lá em 2010, pelo pesquisador Alexandre Vasconcellos e seus colaboradores, que mediram algumas características das comunidades de cupins destas três áreas: riqueza, que basicamente é a quantidade de espécies em cada área; abundância, que é a quantidade de organismos de uma comunidade que vivem em uma área (para cupins, é estimado o número de colônias); e por fim, analisaram a composição de espécies que vivem em cada uma das áreas. Dessa forma, descobriram que a comunidade de cupins dessas três áreas sofreram algumas variações ligadas ao desmatamento, isso é um forte indício de que cupins podem ser considerados como bioindicadores. É importante ressaltar que os autores partiram do pressuposto que as duas áreas que tinham desmatamento, possuíam comunidades de cupins semelhantes às da área preservada.

Bom, entre as 193 colônias de cupins amostradas nesse estudo, 125 estavam na área preservada (A), 56 na área explorada para extração de madeira (B) e somente 12 na área desmatada (C), ou seja, uma considerável alteração na abundância. Alexandre e seus colaboradores também observaram que na área preservada haviam 14 espécies que não estavam nas demais áreas, e perceberam que a riqueza biológica da área preservada era de fato maior que das demais. Ou seja, tanto a abundância, quanto riqueza e composição de cupins mudaram nesse “gradiente” de degradação da Caatinga, e isso corrobora nossa hipótese de que cupins são bioindicadores. 

Agora falta entender quais cupins são mais afetados com o desmatamento dessas áreas de Caatinga. Para isso, os cupins ainda foram divididos de acordo com seu tipo de alimentação: comedores de madeira, húmus (matéria orgânica no solo) e folhas. Isso permitiu perceber que o grupo de cupins mais afetado com o desmatamento foi a dos comedores de madeira, que em áreas desmatadas perderam tanto abundância quanto riqueza de espécies. Isso é interessante, pois alguns outros estudos mostraram que, em florestas tropicais como a Amazônia, os cupins mais suscetíveis aos desequilíbrios ambientais, são os humívoros – pelo que parece, em cada bioma os cupins respondem de forma diferente às variações ambientais.

Além da coleta de cupins, Alexandre e seus colaboradores também contaram a quantidade de ninhos por hectare. Consideraram somente ninhos do tipo montículo (epígeo), que são aqueles que vemos na beira de estradas, e ninhos construídos em árvores (arborícolas). Na área preservada, cada hectare tinha em média 89 ninhos, enquanto que um hectare na área B havia em média 11 ninhos, e pasmem, na área desmatada não havia nenhum ninho desses tipos. Espécies dominantes na Caatinga, como Constrictotermes cyphergaster, que constroem ninhos arbóreos, são completamente eliminadas quando seus habitats são desmatados. Essa espécie tem a capacidade de remover até 13% do material vegetal em decomposição do solo da Caatinga. Sim, 13%! Com esse papel ecológico tão importante, diminuir as populações deste cupim é prejudicial para o ecossistema, em especial para o solo, que em um cenário sem impactos, eles adubariam naturalmente.

Percebe como tudo está conectado?! A interferência humana em ambientes naturais, nem que seja em uma única etapa do grande processo ecológico pode parecer bobagem, mas é impactante, principalmente se causar mudanças nas comunidades de organismos tão importantes, como os cupins. Não é tão simples “passar a boiada” ou a serra. Cada ano que se passa, nosso planeta dá mais sinais de um colapso por consequência da nossa irresponsabilidade. Não é novidade para ninguém que a população humana e o consumo cresceram pra caramba nos últimos séculos e continuam crescendo. Para aumentarmos nossa produtividade, a gente acabou tomando umas decisões bem erradas para o meio ambiente lá no passado (e no presente também =/), que precisamos repensar urgente, e se possível, diminuir impactos. Não é uma tarefa fácil, mas nós vamos conseguir, afinal, não estamos sozinhos neste planeta. Preservar não é somente importante, é necessário!


Texto: Samuel Marques Aguilera Leite.


Referência:

Alves, W. de F., Mota, A. S., Lima, R. A. A. de, Bellezoni, R. & Vasconcellos, A. (2011). Termites as Bioindicators of Habitat Quality in the Caatinga, Brazil: Is There Agreement Between Structural Habitat Variables and the Sampled Assemblages? Neotropical Entomology, 40(1), 39-46.

De Souza, O. F. F., & Brown, V. K. (1994). Effects of habitat fragmentation on Amazonian termite communities. Journal of Tropical Ecology, 10(2), 197-206.

McCarty, L. S., & Munkittrick, K. R. (1996). Environmental biomarkers in aquatic toxicology: Fiction, fantasy, or functional? Human and Ecological Risk Assessment: An International Journal, 2(2), 268–274.

Vasconcellos, A., Bandeira, A. G., Moura, F. M. S., Araújo, V. F. P., Gusmão, M. A. B., Constantino, R. (2010). Termite assemblages in three habitats under different disturbance regimes in the semi-arid Caatinga of NE Brazil. Journal of Arid Environments, 74(2), 298-302.

WorldOMeters (2020). Worldometer – real time world statistics. Data extraction in: 16/08/2020.

Comments

  1. Gostei do assunto de sua divulgação, gostaria de ver se é pertinente para meu site.

    Sds.

    1. Gabriel Olivieri says:

      Que legal que gostou, sempre é bom ter um feedback! É uma tema que pode ser discutido em qualquer lugar!

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