Mais um incêndio em um museu brasileiro, o que ainda não aprendemos? (V.3, N.6, P.12, 2020)

Tempo estimado de leitura: 5 minuto(s)

Divulgadora da ciência:

Fabiana Rodrigues Costa Nunes, docente do Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH) da UFABC, coordenadora do Grupo de Pesquisa de Paleontologia de Vertebrados e Comportamento Animal (CNPq) e do Laboratório de Paleontologia de Vertebrados e Comportamento Animal (LAPC – UFABC).[Lattes]

 

Há exatos nove dias da data em que o Museu Nacional/UFRJ completou 202 anos (6 de junho), instituição científica mais antiga do Brasil, um novo anúncio de uma velha tragédia bate à porta: o Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é atingido por um incêndio nas primeiras horas da manhã de 15 de junho. Para todos aqueles que acabavam de se parabenizar pelo aniversário do museu do Rio de Janeiro, que vem sendo reestruturado após também ter parte de seu acervo comprometido por um incêndio de grandes proporções há quase dois anos, precisar suspender momentaneamente as celebrações vitoriosas de um museu de tamanha importância que sobreviveu à própria perda para lamentar o infortúnio de outro é um desalento sem tamanho. Por mais uma vez, tiram-nos o fôlego, e o luto sobrevém aos festejos: o crepitar do fogo calou o estalar ruidoso dos fogos.

 

Mas, afinal, o que é que ainda não aprendemos? Após quase dois anos de presenciarmos, estarrecidos, a um museu do porte do Museu Nacional queimar, em rede nacional, diante dos nossos olhos, o que mais é preciso acontecer, e o que ainda estamos perdendo?

 

Museus são repositórios inestimáveis do patrimônio histórico, cultural e científico de um povo, constituindo, assim, instituições que asseguram a manutenção e preservação deste patrimônio às gerações futuras. Museus de história natural resguardam a biodiversidade, armazenando e produzindo conhecimento acerca do patrimônio natural que abrigam e contribuem profundamente para a conservação da vida selvagem e o conhecimento da evolução da vida. Seu acervo, constituído pelos mais diversos elementos da fauna e flora, viventes e extintos, permite que tais espaços  englobem a pesquisa, responsável pela construção do conhecimento científico, e a divulgação deste conhecimento mediante a elaboração de exibições ao grande público. Quantas pessoas teriam tido, por exemplo, a oportunidade de se deparar com animais até então desconhecidos, mesmo viventes, fora destes museus? Não fossem estes espaços, quanto da nossa biodiversidade estaria disponível para pesquisa, contribuindo para o avanço destas áreas na Ciência? E quanto conheceríamos, de fato, acerca da evolução da vida e do próprio desenvolvimento da humanidade?

 

Quando o descaso, a negligência com o bem público faz mais uma vítima, percebemos que todas as perdas anteriores de acervos museológicos, ainda que inestimáveis (e não maiores pelo esforço sobre-humano de recuperação e restauração destes materiais pelas equipes de resgate), surpreendentemente não teriam sido o bastante para conscientização da sua importância. A reserva técnica, área atingida pelo incêndio que acometeu o museu da UFMG, abrigava, além do acervo orgânico (zoologia e botânica), o acervo da coleção de paleontologia e arqueologia, além de documentação bibliográfica e arquivística. Não é possível contabilizar, no momento, o que se perdeu, e embora se tenha a certeza do trabalho que a longo prazo se fará pela recuperação deste material, já se sabe de antemão que a sua totalidade não será restituída. E o quanto teremos perdido? Como pergunta o próprio diretor do Museu Nacional/UFRJ, Alexander Kellner, consternado diante da mesma situação que ora se repete em outro museu: até quando?

 

É sabido que a atual conjuntura não abrirá seus espaços saturados de polarização política e preocupações no âmbito da saúde pública com a atual pandemia para que debates acerca da importância dos museus tomem corpo e rendam algum fruto. Infelizmente, no momento, há negligências de outras ordens que são muito mais atrativas para a indignação e mobilização da sociedade. Apesar disto, não podemos deixar de pautar a relevância que assumem tragédias como esta (e outras) na perda irreparável de acervos museológicos, e nos perguntar quando finalmente iremos aprender com elas. Quantos museus ainda precisarão queimar, diante dos nossos olhos, para finalmente agirmos no sentido de conservá-los com o respeito que delegamos aos maiores patrimônios da humanidade? Espero que estas perguntas não se repitam, e tampouco nos calem a falta de respostas.  

 

Leitura recomendada:

http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/19-ate-quando/#

 

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