Tradutores on-line, Inteligência Artificial e a Era de Aquarius: um ponto de vista (V.3, N.5, P.13, 2020)

Tempo estimado de leitura: 7 minuto(s)

Divulgador da ciência: Annibal Hetem Junior

 

“Quando a Lua estiver na sétima casa

E Júpiter se alinhar com Marte

Então, a paz guiará os planetas

E o amor guiará as estrelas”

 

Esta é a primeira estrofe da canção “Aquarius”, que fez muito sucesso nos anos 1970-80. Esta interessante composição, cuja letra é de autoria de Gerome Ragni e a música de Galt MacDermot, foi especialmente criada para o musical “Hair”, que ficou em cartaz por vários anos na Broadway. Uma curiosa versão vintage pode ser apreciada no clip disponível em [1], extraída da deliciosa versão cinematográfica do filme de Miloš Forman de 1979.

 

Para os astrólogos, a Era de Aquarius deveria trazer influências sobre a ascensão de tendências culturais, nas quais seriam valorizados os temas ligados a filantropia, veracidade, perseverança, humanitarismo, idealismo e modernização. Estas manifestações da nova era seriam através de novas tecnologias, principalmente comunicação e computação.

 

De uma análise superficial da estrofe apresentada, já podemos ter uma boa ideia sobre uma das mais fortes correntes de pensamento da época: o amor guiará as estrelas, desde que haja uma condição: devem ocorrer composições geométrico-temporais entre os planetas. Guarde esta informação com carinho para daqui a pouco.

 

Para traduzir do inglês estas quatro linhas, eu utilizei o tradutor on-line disponível em [2]. Não porque eu não conseguisse fazer a tradução, mas para ser coerente com o tema que vem a seguir: a inteligência artificial.

 

Sim, é verdade: um software tradutor de uma língua para outra é uma das várias representações daquilo chamamos genericamente de inteligência artificial. Traduzir um texto é um processo de alta complexidade pois, além do reconhecimento das palavras em suas várias possibilidades, deve-se considerar a ordem e o significado das expressões.

 

A tradução de um texto pode ser dividida em quatro etapas. Conforme [3], a primeira é o reconhecimento dos símbolos – as palavras. Esta é uma tarefa essencialmente léxica, no sentido de que se deve ler cada palavra letra a letra, e buscar algumas propriedades (está no plural? é uma declinação verbal?), e assim por diante. A etapa seguinte é a análise sintática, que trabalha sobre a combinação das palavras lidas entre si, montando sentenças com sujeito, verbo e predicado. Lembremo-nos que um sujeito ou predicado pode ser outra sentença, o que nos leva a uma interpretação recursiva. A etapa seguinte é a semântica, quando se associa às sentenças um significado.

 

Ao final destas três etapas inicia-se a última: a construção do novo texto na língua desejada. Garanto-lhe caro leitor, que esta etapa não é a mais fácil de todas.

 

A pergunta que surge neste ponto é: seria possível criar uma série de regras matemáticas ou sequências de ações que execute a função de traduzir um texto? A resposta é: sim, porque sabemos que este algoritmo existe. Pela descrição dos passos que este algoritmo deve seguir, concluímos que o mesmo deve ser extremamente complexo. Por isso é chamado de inteligência artificial.

 

Aliás o que é inteligência artificial? Não existe uma definição precisa – tudo o que podemos afirmar é que se um algoritmo for suficientemente complexo, este passa a ser classificado como inteligência artificial [4]. 

 

Hoje, diferente dos séculos anteriores, não vivemos em casas de pedra. Nossas casas tem muitos vidros, quase um aquário. E a inteligência artificial é onipresente. Tradutores on-line, buscas na internet, reconhecimento de rostos ou impressões digitais, reconhecimento de voz, traçadores de rotas no trânsito, imagens de ressonância magnética, etc. Todas essas ferramentas, que consideramos tão úteis e práticas, são manifestações de inteligência artificial.

 

Até onde vai a inteligência artificial no nosso dia-a-dia?

 

Quando uma página da internet me diz que “estas informações foram definidas segundo suas últimas escolhas”, eu fico preocupado. Será que outras opções não me foram apresentadas porque eu fiz esta ou aquela escolha no passado? Até que ponto as máquinas estão me analisando? E o pior: até que ponto elas estão me limitando e me impedindo de acessar certas notícias ou ter novas experiências?

 

Nós, hoje, somos analisados constantemente. Como se fôssemos um texto: análise léxica, análise sintática, análise semântica. Ou seja, somos classificados primeiro como indivíduos, depois como membros de um grupo e finalmente como integrantes da sociedade.

 

E uma vez analisados, somos reescritos em uma linguagem especial que tem significado apenas para quem patrocina a criação das inteligências artificiais. Cada um de nós é traduzido como um dispositivo que paga ou recebe, que compra ou vende, que consome ou é consumido.

 

A Era de Aquarius teve seu início em janeiro de 2001 (isso segundo alguns autores, mas não há, entre os astrólogos, um consenso sobre a data exata) e está cumprindo sua promessa de disseminar as tecnologias de comunicação e computação.

 

Entretanto, como diz a canção, o amor somente guiará as estrelas quando a Lua, Júpiter, Marte e os outros planetas estiverem perfeitamente alinhados e nas casas certas.

 

O amor que guiará as estrelas tem um preço: sujeitar-se a ser classificado, analisado e traduzido. 

 

Se você, caro leitor, não estiver alinhado e na casa certa, então não será livre. Sua situação será, com toda a certeza, semelhante à era anterior, Peixes. 

 

Você estará preso num aquário.

 

Referências

 

[1] https://www.youtube.com/watch?v=N9oq_IskRIg

[2] https://translate.google.com/

[3] Aho, A.,V., 2006, Compilers: Principles, Techniques and Tools, Addison Wesley Publishing Company; 2  ed., ISBN-13 978-0321486813

[4] Kai-Fu Lee, 2019, Inteligência Artificial, Globo Livros, ASIN B07ZWFHBVV

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