UBUNTU em tempos de pandemia (V.3, N.4, P.15, 2020)

Tempo estimado de leitura: 6 minuto(s)

Por Marcos Vinicius Lemes

Em meio à crise que estamos vivendo, nossa concepção de humanidade recebeu um convite urgente para uma necessária atualização… Mas, ao falarmos em humanidade, um antigo conceito surge para nos lembrar de suas raízes: Ubuntu.

 

Ubuntu é uma palavra originária do idioma kibundu e não tem uma tradução exata para a língua portuguesa, mas remete à ideia de que uma existência está diretamente conectada a outra existência… Na esfera política, Ubuntu é utilizado para enfatizar a necessidade da união e do consenso nas tomadas de decisão, de forma ética e humanitária.

 

Existem algumas definições que sintetizam este conceito, como a feita pelo Arcebispo Desmond Tutu :

 

Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, não preocupada em julgar os outros como bons ou maus, e tem consciência de que faz parte de algo maior e que é tão diminuída quanto seus semelhantes que são diminuídos ou humilhados, torturados ou oprimidos.” 

 

A fala do Arcebispo Desmond Tutu também nos remete às recomendações feitas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para permanecermos em nossas residências, pois assim não estaríamos apenas nos protegendo da infecção pelo Sars-Cov-2, como também não atuaríamos como vetores de sua disseminação, que atinge todas e todos a nossa volta e, como bem definido pelo conceito de Ubuntu, consequentemente acaba por atingir a nós mesmos.

 

Outra relação possível refere-se a um conceito difundido pelo educador brasileiro Paulo Freire, em sua obra “A Pedagogia do Oprimido”, ao afirmar que a luta do oprimido contra a opressão liberta tanto os oprimidos quanto os opressores, através da não “instrumentalização” do oprimido, passando a ter com este uma relação de mediação, humanidade e respeito pleno, nos convidando à reflexão sobre as nossas relações enquanto sociedade.

 

Um bom exemplo da aplicação de Ubuntu foi relatado pela jornalista e filósofa Lia Diskin no Festival Mundial da Paz, em Florianópolis, nos presenteando com um caso de uma tribo na África:

 

Um antropólogo estava estudando os usos e costumes de uma tribo na África e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta para casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo, então, propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, colocou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e deixou o cesto debaixo de uma árvore. Chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto e quem chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comeram felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”

Ele ficou perplexo! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo…

 

Ubuntu significa: “sou o que sou pelo que NÓS SOMOS !”

 

Atente para o detalhe: pelo que SOMOS, não pelo que temos.

 

Não podemos mais viver em concepções de egoísmo e competitividade social, em todos os aspectos de nossa existência. Enquanto a grande maioria está se esforçando para ficar em casa, cuidar dos idosos e crianças, grandes equipes de cientistas continuam trabalhando arduamente para encontrar e trazer a cura para este vírus; equipes de enfermagem e médicas continuam tratando e cuidando de pacientes, mesmo com todos os riscos que estejam correndo, além de muitos outros setores que continuam mantendo suas portas abertas para abastecer a população de suas necessidades primária.

 

Sabemos que manter a serenidade dentro do turbilhão de informações e emoções que envolvem a pandemia de COVID-19 é um desafio intenso para a população mundial… O isolamento do convívio social por prazo indeterminado enquanto as informações chegam de todos os cantos como uma avalanche – a maioria delas negativas, diga-se de passagem – está mexendo com as estruturas psicológicas de muitas pessoas, gerando consequências à saúde física e mental, independentemente de contrairmos ou não o vírus.

 

Portanto, mostra-se de extrema importância o exercício da empatia e humanidade neste momento, assim como a certeza de que este esforço em conjunto nos auxiliará de forma muito eficaz no combate ao novo coronavírus. Ao mesmo passo, estamos presenciando diversas ações de solidariedade e união espalhadas, principalmente, através das redes sociais, demonstrando que a essência que nos une ainda pode ser, e será, muito mais forte que as adversidades que nos separam, pois como diria uma frase presente no filme O Rei Leão: “Somos mais do que mil, somos UM!”

 

Marcos Vinicius Lemes é aluno da Licenciatura em Química pela Universidade Federal do ABC e bolsista do Blog UFABC Divulga Ciência.

 

Referências Bibliográficas

http://www.espacoubuntu.com.br/a-filosofia.html

https://www.geledes.org.br/ubuntu-uma-etica-africana-para-repensar-a-sociedade-brasileira/

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