Educação Financeira e Sustentabilidade (V.2, N.11, P.2, 2019)

Tempo estimado de leitura: 11 minuto(s)

Divulgador da ciência: Eder de Oliveira Abensur possui graduação, mestrado e doutorado em Engenharia de Produção e especialização em finanças pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente é professor associado II do curso de Engenharia de Gestão da Universidade Federal do ABC na área de Pesquisa Operacional.

 

 

Educação Financeira e Sustentabilidade, apesar de algumas convergências, apresentam conceitos individuais distintos.

A Educação Financeira procura preparar cidadãs e cidadãos financeiramente educados e consumidores conscientes capazes de organizar suas finanças pessoais e de tomar boas decisões sobre endividamento e investimento. Assim, ela busca reduzir significativamente os riscos de inadimplência individual e coletiva, o que contribui para a estabilidade social.

Uma sociedade sustentável preocupa-se com o uso dos recursos não renováveis (como o petróleo, por exemplo) de uma forma equilibrada reduzindo seu esgotamento. Isso pode ser feito por meio de hábitos comprometidos com a preservação do meio ambiente, a renovação e a reutilização dos recursos naturais do planeta.

Apesar de distintos, tanto a Educação Financeira como a Sustentabilidade caminham juntas contribuindo de uma forma integrada para a melhoria de qualidade de vida da sociedade. A figura abaixo mostra a convergência e as similaridades entre os dois temas.

 

Fonte: Elaborado pelo autor

 

Orçamento e Consumo Sustentável

O orçamento é uma das formas mais simples e eficientes de organização e manutenção do equilíbrio pessoal e/ou familiar. Ele é um dos alicerces do planejamento financeiro de curto, médio e longo prazo porque, com ele, fica mais fácil para as pessoas visualizarem a sua situação financeira atual.

Os reflexos de seu uso são imediatos:

  1. Mostra se o que você ganhou naquele período (por exemplo, no mês) foi maior ou não do que você gastou;
  1. Mostra quais são as suas principais fontes de ganhos e também de despesas;
  1. Ajuda você a fazer um planejamento de mais longo prazo para outras tomadas de decisão (por exemplo, o quanto de dinheiro você precisa para fazer uma viagem);
  1. Ajuda você a decidir quanto e quando investir, nos casos em que a situação financeira for favorável, ou como e quando se financiar num caso desfavorável;
  1. Auxilia você a perceber quais despesas pode reduzir.

Desta forma, o orçamento pessoal é uma poderosa ferramenta de suporte à decisão de consumo, pois:

  1. Demonstra se existe excedente de dinheiro para o consumo, ou seja, se você tem algum dinheiro sobrando para gastar;
  1. Demonstra qual a sua capacidade de consumo possível sem comprometer a saúde financeira;
  1. Reduz as chances de consumo desnecessário e por impulso.

 

Como saber se devo ou não consumir?

 Bem, de acordo com a Educação Financeira e com o auxílio do orçamento pessoal, você deve questionar seus hábitos de consumo por meio de 3 questões fundamentais:

1 – Eu realmente preciso do produto?

2 – Eu tenho condições de comprá-lo?

3 – Eu preciso comprá-lo agora?

Se a resposta a cada uma dessas perguntas for SIM, então o consumo justifica-se, caso contrário, ele deveria ser cancelado ou adiado.

A redução de consumo desnecessário é de grande ajuda à sustentabilidade. Consumo desnecessário implica em produção desnecessária, lixo adicional desnecessário e consumo de recursos naturais não renováveis também desnecessários.

 

Um exemplo prático

Quase todos nós gostamos de chocolate, certo?

Pois bem, vejamos um exemplo simples e prático da integração de Educação Financeira e Sustentabilidade sobre a decisão de comprar ou não uma caixa de chocolates em promoção num supermercado.

Suponhamos que além do produto em si (chocolate), o desconto oferecido seja também tentador.

Vamos às questões:

1 – Eu realmente preciso do produto?
      Discutível, mas para os propósitos deste exemplo digamos que SIM.

2 – Eu tenho condições de comprá-lo?
      SIM.

3 – Eu preciso comprá-lo agora?
      Ao verificar o prazo de validade, você percebe que ele está vencido! Ninguém quer comer chocolate estragado, não é? Assim, a compra deveria ser evitada.

Desta forma, respondendo a essas 3 perguntas, seu bolso seria poupado de uma compra desnecessária.

Se todo mundo agisse dessa forma, o supermercado seria obrigado a descartar ou devolver o produto. A reposição do produto (chocolate) seria feita em menores quantidades e com prazos mais dilatados, favorecendo a todos.

Desta forma, se fizermos uma avaliação consciente da necessidade de consumo associada às nossas reais condições orçamentárias, todo o ciclo de vida do produto seria melhorado com benefícios a todos e também ao meio ambiente.

Há várias formas de se preparar e organizar um orçamento. Ele pode ser feito num bloco de papel, num rascunho, num papel reciclado ou numa planilha eletrônica. Não importa a sua natureza, mas sim os seus resultados.

A seguir temos um exemplo de estrutura de orçamento pessoal que pode e deve ser adequado à realidade de cada pessoa.

 

Fonte: Elaborado pelo autor

 

Cada pessoa deve definir a frequência com que atualiza seu orçamento, mas o importante é não ficar refém dele. O orçamento é uma ferramenta indispensável a uma boa organização pessoal, mas ele não é um fim em si mesmo. Ele deve nos ajudar a conseguir nossos objetivos e não nos impedir de obtê-los.

Práticas de reutilização são simultaneamente sustentáveis e de boa educação financeira. Reutilizar recipientes de vidro (ex: vidros de geleias) para uso doméstico reflete-se em economia de dinheiro. Eles servem como vasos para pequenas plantas, recipientes para guardar temperos (ex: alho, manjericão) e auxiliam na educação infantil ao permitir que as crianças as utilizem para pintura.

Outra interessante combinação de Educação Financeira e Sustentabilidade está na tomada de medidas de redução de despesas. Imagine que, ao conversar com amigos que têm uma família com o mesmo número de pessoas que a sua, você descobre que a sua conta de energia elétrica está muito mais alta do que as delas! Você vai querer saber de onde está vindo esse gasto, certo?

Em geral, chuveiros elétricos e geladeiras são os vilões desse problema. Os chuveiros usam resistências para aquecer a água e por isso acabam consumindo muita energia. As geladeiras não consomem tanta energia de uma vez, mas ficam ligadas 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Ao verificar a sua geladeira, você descobre que ela é muito antiga e foi fabricada numa época em que não havia tanta preocupação com o consumo de energia. Aí está o seu gasto! Os equipamentos atuais apresentam classificações de consumo de energia. Equipamentos com a classificação A têm a melhor relação de consumo, ou seja, consomem menos energia. Você decide, então, trocar a geladeira por outra com máxima redução de consumo.

Após realizar a troca, a conta de energia mostra uma significativa redução de consumo e, consequentemente, seu gasto mensal também é reduzido.

 

Decisões de Investimento e/ou Financiamento e Consumo Sustentável

Entre os tipos de bem que existem, o carro talvez seja o mais caro de todos. Isso porque, em geral, compramos vários carros durante a vida e, se você tem o costume de sempre comprar carros 0 km, os gastos são ainda maiores. Além disso, a propriedade de um carro implica em muitas despesas anuais (combustível, seguro, IPVA, manutenção, estacionamento).

A compra de um bem como o automóvel (ou qualquer outro meio de transporte) exige planejamento e pesquisa de mercado. O exemplo a seguir avalia alternativas de transporte diário para o trabalho num roteiro cuja distância é inferior a 20km e com existência de ciclovias. Lembra da sequência das três perguntas do consumo? Utilizaremos elas novamente:

1 – Eu realmente preciso do produto?

O transporte é uma necessidade diária de todos os cidadãos. A decisão é se ele será próprio ou público ou misto. Esse caso exige reflexão, pois há alternativas a serem avaliadas, como, por exemplo, transporte coletivo (metrô + ônibus), transporte por aplicativo ou transporte baseado em energias limpas (bicicleta, carro elétrico, carro híbrido).

2 – Eu tenho condições de comprá-lo?

O transporte coletivo apresenta custos menores que os outros, mas infelizmente a qualidade, pontualidade e o excesso de usuários pesam contra.

Estudos feitos demonstram que para distâncias curtas, o custo de viagens por aplicativos é menor do que os custos de ter um carro próprio.

Os carros elétricos são aqueles movidos exclusivamente por bateria com recarga feita em tomadas elétricas. Um carro elétrico novo custa aproximadamente R$150.000,00, valor inacessível para a maioria da população.

Os carros híbridos são aqueles que possuem 2 motores: um a combustão, por exemplo, a álcool e outro elétrico. O gerador transforma parte da energia gerada pelo motor a combustão em energia elétrica para o motor elétrico. Um carro híbrido novo custa aproximadamente R$130.000,00, também inacessível para a maioria da população.

Conforme o orçamento disponível, a existência de ciclovia, a distância envolvida e uma avaliação de impacto sobre o meio ambiente, você pode pensar também em outros meios de transporte, como bicicleta (aproximadamente R$500,00), bicicleta elétrica (aproximadamente R$3.500,00) ou, até mesmo, uma motocicleta (aproximadamente R$8.000,00). Suponhamos que você decida pela compra de uma bicicleta elétrica. Ao contrário da bicicleta comum, a elétrica evita suor dispensando o uso de chuveiros no trabalho.

3 – Eu preciso comprá-lo agora?

Para os propósitos deste exemplo, a resposta é SIM. Porém, você não tem dinheiro para pagá-la à vista. O próximo passo, então, é avaliar as possibilidades de financiamento e verificar qual das modalidades é mais adequada:

Consignado: aproximadamente 30% ao ano

Cheque Especial: aproximadamente 280% ao ano

Cartão de Crédito: aproximadamente 250% ao ano

Recorre-se, portanto, ao crédito consignado que, dos financiamentos acessíveis a você, é o que apresenta a menor taxa de juros.

A incorporação de conceitos de Sustentabilidade nos ferramentais e nas práticas de Educação Financeira são viáveis e em permitem que pensemos no nosso consumo de  maneira consciente e sustentável.  Os exemplos cotidianos utilizados ao longo do texto são simples, mas são reais e reforçam a relevância e a viabilidade de praticarmos ações que nos conduzam a uma melhora de qualidade de vida.

Imagem destacada: Pixabay

 

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