Como lidar com a raiva? (V.2, N.6, P.3, 2019)

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Divulgadora da ciência: Ana Lee Aparecida Francisco

Graduada em Ciências Biológicas, Especialização em Vigilância Laboratorial da Raiva pelo Instituto Pasteur. Tem experiência na área de biologia geral, epidemiologia e saúde pública.Mestranda do Programa de Biossistemas na UFABC

 

Sabe aquela vontade de gritar mil palavrões quando você topa com o dedinho do pé em uma quina? Ou quando, sem querer, deixa o celular cair dentro do vaso?  Ou, ainda, quando vê seu ônibus chegando e corre para o ponto, mas o motorista não para? Quando essas coisas acontecem, nós sentimos uma forte emoção que parece nos transformar em outra pessoa, nós sentimos raiva.

 

Mas hoje não vamos falar desse tipo de raiva, vamos falar daquela transmitida pelo vírus Rabies lyssavirus (você já deve ter ouvido falar dela, mas talvez sem esse nome difícil). Conhecida popularmente por causar agressividade, principalmente em cães, a raiva pode afetar o sistema nervoso central de todos os mamíferos, inclusive dos humanos.

 

Pelo seu nome, é fácil achar que o principal sintoma causado pela raiva – doença – é a  raiva – emoção – (dãããã!), mas, na verdade, os sintomas variam muito entre os mamíferos infectados… nem todos saem por aí babando e mordendo tudo que vêm pela frente. Nos cães e gatos, por exemplo, é observada agressividade. Já em animais de criação, como bovinos e equinos, ocorre a paralisia, causada pela perda de força nos membros.

 

E nos seres humanos? Bem, nos humanos, os sintomas detectados são diversos: sensação de coceira (prurido) e/ou coceira com formigamento ou sensação de arrepio e queimação local que, em geral, se inicia ao redor do local da agressão (parestesia assimétrica), paralisia com diminuição do tônus muscular (paralisia flácida), dificuldade ou dor ao deglutir, produção excessiva de saliva (sialorréia), excesso de excitação sexual (priapismo), exacerbação das características próprias da personalidade da pessoa, como agressividade ou depressão, além de hidrofobia (fobia de água), aerofobia (fobia de estar ao ar livre e exposto a correntes de ar) e fotofobia (hipersensibilidade ou aversão à luz).

Pode parecer que a raiva é uma coisa do passado para os humanos, mas 59 mil mortes ocorrem anualmente em decorrência da raiva, principalmente na Ásia e na África, em locais onde as condições socioeconômicas e sanitárias influenciam drasticamente em ações efetivas de vigilância e controle do vírus.

 

Eu sei que essas informações assustam um pouquinho, mas calma (!) não se desespere, saiba que existem tratamentos médicos caso você seja agredido por um animal infectado com raiva. Um dos tratamentos consiste em 4 doses de vacina da raiva (com vírus inativado), a primeiro no dia em que ocorreu a agressão(dia 0) e, também, após 3, 7 e 14 dias. O outro tratamento utilizado é chamado de sorovacinação e consiste na aplicação da vacina nos mesmos moldes do primeiro tratamento juntamente com a infiltração de um soro antirrábico no local da agressão.

 

Em casos em que a observação do animal agressor for possível, como nos casos de bichos de estimação, deve-se observá-lo por dez dias para descartar a possibilidade da doença. Nas agressões por morcegos ou qualquer espécie de mamífero silvestre, o recomendado é a sorovacinação. Ahhh, algo muito importante, que não posso esquecer, caso você seja mordido, lave imediatamente a ferida com água e sabão (sua mãe e sua vó estavam certas!) e então procure o médico.

 

Eu falei aqui sobre o tratamento de pós-exposição, porque apenas o público de risco tem acesso à vacinação de pré-exposição, mas ela existe. Esse público abrange veterinários, biólogos, pessoas ligadas à vigilância epidemiológica, técnicos de laboratório que trabalham em diagnóstico da doença, ou qualquer outra pessoa que exerça profissões em que podem ser expostos a animais contaminados com o vírus.

 

Os principais reservatórios (hospedeiros) da raiva são os animais pertencentes as ordens Carnivora e Chiroptera (como os morcegos). Esses animais, quando doentes, servem como indicadores da circulação do vírus e do risco da doença, exercendo um papel de extrema importância na natureza.

 

A raiva é mantida por diferentes ciclos que, eventualmente, se inter-relacionam, sendo os de maior importância: 1) o ciclo urbano, onde o principal reservatório é cão doméstico e 2) o ciclo silvestre, subdividido em aéreo e terrestre. No ciclo silvestre aéreo, o principal reservatório é o morcego que se alimenta de sangue (Desmodus rotundus). Já no ciclo silvestre terrestre os principais reservatórios são o sagui de tufo branco (Callithrix jacchus) e o cachorro do mato (Cerdocyon thou). A forma mais comum de infecção ocorre pelo contato direto através da mordedura de animais infectados.

 

No Brasil, o número de casos de raiva urbana transmitida por cães domésticos está caindo. Em 2016, foram registrados apenas dois casos de raiva humana causada por esses animais. Nas regiões sul e sudeste do país, a raiva urbana está controlada devido a ações como vigilância epidemiológica, programas de vacinação que ocorrem anualmente, entre outros. No entanto, ainda existem áreas críticas para este ciclo epidemiológico, como as regiões do norte e nordeste, onde a implantação de programas de controle efetivos tem sido dificultada devido a questões socioeconômicas. Nesses locais o número de animais soltos ou abandonados é elevado, implicando na impossibilidade de vacinação, além do fato de que estes tendem a procriar de forma descontrolada.

 

Fazendo a nossa parte:

 

Não se esqueça! A vacinação anual dos animais (seja ele de estimação ou de criação) é essencial para manter a circulação do vírus controlada.

 

No Brasil, infelizmente, ainda não existem vacinas em iscas para animais silvestres como ocorre na Europa e em alguns locais dos Estados Unidos, por isso vale ressaltar que TODOS os mamíferos silvestres são de extrema importância para o meio ambiente (e consequentemente para nós, pois fazemos parte da natureza) e em hipótese alguma esses animais devem ser mortos em decorrência do medo da disseminação do vírus.

 

Por esse motivo, o acesso à informação é tão importante: dessa maneira a população adquire o conhecimento necessário para prevenção das doenças e para saber como agir em caso de exposição. Agora que você sabe um pouquinho mais sobre a raiva, que tal compartilhar o que você aprendeu com o maior número de pessoas possível? Quanto mais gente souber lidar com a raiva, melhor a sociedade fica!

 

 

Referências Bibliográficas

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