A extensão na luta pela igualdade de gênero (V.2, N.4, P.4, 2019)

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Cláudia Celeste Celestino possui graduação em Licenciatura Em Física pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho(1997), mestrado em Física pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho(2000) e doutorado em Engenharia e Tecnologia Espaciais pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais(2005). Atualmente é professora do curso de Engenharia Aeroespacial na Universidade Federal do ABC. Atua, principalmente, nos seguintes temas: perturbações orbitais, nuvem de partículas, detritos espaciais, decaimento orbital, dinâmica orbital e densidade de partículas. Mariana Fernandes Xavier é estudante de Bacharelado em Ciência e Tecnologia na Universidade Federal do ABC.

 

 

 

A luta das mulheres pela igualdade está muito presente no mundo atual e tem conquistado diversas vitórias, porém, ainda há um longo caminho a ser trilhado até alcançarmos esse objetivo. A área das ciências exatas ainda é predominantemente masculina, mas dois projetos de extensão da UFABC estão buscando contribuir para a diminuição dessas desigualdades.

 

A desigualdade de gênero na Academia

           

Uma das áreas em que ainda há grande desigualdade de gênero é a acadêmica. Em 2015, o Relatório Científico da UNESCO, que mapeia ciência, tecnologia e inovação (CTI) em todo o mundo, apontou que mais da metade das pessoas que se formaram no ensino superior era mulher (53%), mas elas representavam apenas 28% dos pesquisadores do planeta, deixando clara a tendência de que as mulheres não persistem na carreira acadêmica.

 

No Brasil, num contexto geral, as mulheres são maioria no ambiente acadêmico. Em 2017, uma pesquisa do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) apontou que cerca de 61% dos estudantes que concluíram a graduação em 2017 eram mulheres.

 

Uma análise feita pela plataforma Painel Lattes do CNPq mostrou, em 2016, que 53,21% dos currículos de mestres que atuam nas áreas de Pesquisa e Ensino são de mulheres, e no doutorado essa porcentagem é de 47,5%.

           

Nas ciências exatas não é bem assim

 

Porém, o cenário muda drasticamente quando falamos da área de exatas. De acordo com a mesma análise do CNPq, de todos os currículos de mulheres no doutorado, apenas 14,7% são da área de exatas (Ciências Exatas e da Terra e Engenharia), e no mestrado essa porcentagem cai para 10%.

 

5ª Conferência de Solvay (Física) – 1927 – 28 homens e uma mulher . Crédito: International Solvay Institutes

 

 

27ª Conferência de Solvay (Física) – 2017 – 49 homens e 9 mulheres. Crédito: International Solvay Institutes

 

Aqui na UFABC, a realidade é a mesma.  Em 2017, uma pesquisa da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento Institucional da Universidade, mostrou que as mulheres apenas aproximadamente 1/3 do corpo discente do Bacharelado em Ciência e Tecnologia.

           

A extensão fazendo a diferença

 

Perante todos esses dados, os membros dos projetos de extensão ASTROEM e ARANDU decidiram tomar atitudes que contribuíssem para a luta pela igualdade de gênero na área de exatas.

 

Mas afinal, o que são esses projetos? Ambos os projetos têm como objetivo principal prover uma ligação entre a universidade e a sociedade aos seus arredores. E de que forma? Por meio de aulas dadas por estudantes da UFABC a alunos da rede pública de ensino.

 

ASTROEM

 

O ASTROEM foi criado em 2013 e procura apresentar os problemas gerais no setor aeroespacial para alunos de 9º ano e de Ensino Médio e integrar os conteúdos vivenciados pelos estudantes no ensino básico, em sala de aula, com as atividades de astronomia, astronáutica, aeronáutica e mecânica aplicada.

 

Há um grande equilíbrio em relação à participação de alunas no projeto, que varia  entre 40 e 60%, alcançando a média de 52,27% ao longo dos 6 anos de existência.  Mas, em relação aos integrantes do grupo de alunos da UFABC que tocam o projeto, a situação é bem diferente.

 

Até o seu quinto ano de existência, as mulheres não chegavam a 40% do total de integrantes. Em 2018, isso mudou radicalmente e a participação feminina passou a ser de mais de 60%. Apesar disso, a média de integrantes do sexo feminino no projeto durante esses 6 anos foi de 37,65%, ainda  baixa em comparação com o sexo masculino.

 

ARANDU

 

O ARANDU foi criado em 2016 com um objetivo parecido com o do ASTROEM: aproximar as engenharias aos estudantes do Ensino Médio e do 9° ano do Ensino Fundamental, por meio de aulas dinâmicas com experimentos que mostrem aos alunos aplicações do conteúdo teórico apresentado.

 

Com isso, espera-se despertar o interesse dos estudantes pela área acadêmica, principalmente na área aeroespacial. Ao fim do curso, os alunos até são desafiados a construir um CanSat (um picossatélite com massa entre 100g e 1kg) do tamanho de uma lata de refrigerante, usando os conhecimentos desenvolvidos durante o curso.

 

Nesse projeto, a participação das mulheres foi ainda menor. Em nenhum dos três anos de existência do projeto a porcentagem de alunas chegou a 50%. 2016 foi o ano com maior participação feminina, 41%, mas, houve uma queda significativa e 2018 foi o ano com a menor participação de mulheres no projeto, apenas 23%.

           

Em relação ao time do projeto, a diferença de gênero é ainda mais chamativa. O ano 2017 não contou com a participação de nenhuma mulher. Mas isso está mudando gradativamente. Em 2018, 30% da equipe foi do sexo feminino e a previsão é que em 2019 esse número suba para 38,5%.

 

A igualdade de gênero precisa de construção

 

Como plano de ação para contribuir com a luta pela de igualdade de gênero, os projetos ARANDU e ASTROEM criarão vagas exclusivas para garotas em ambos os cursos.

 

Integrante da equipe do Arandu, Gabriela Pierroni, montando um CanSat durante a última aula do projeto. Crédito: Arandu.

 

Essas meninas participarão normalmente das aulas e serão monitoradas para que, no final do processo, sejam capazes de desenvolver, de forma autônoma, um projeto voltado para a área das ciências exatas.

 

Com isso, espera-se que as meninas sejam incentivadas a ingressar no ramo de exatas após a conclusão do Ensino Médio e, isso se concretizando, acredita-se que a quantidade de meninas, não só no projeto, mas também no meio acadêmico de exatas, aumente de maneira contínua no decorrer dos anos, contribuindo para que as mulheres ocupem  espaço que lhes é de direito.

 

Imagem destacada: Alunas do Arandu 2018 no passeio promovido pelo Arandu ao Aeroporto Campo de Marte. Crédito: Arandu

 

Referências

 

UnescoScienceReportTowards  2030. Disponível em: <https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000235407.locale=en>. Acessado em: 06/03/19.

 

Sinopse Estatística da Educação Superior 2017. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/informacoes_estatisticas/sinopses_estatisticas/sinopses_educacao_superior/sinopse_educacao_superior_2017.zip>. Acessado em: 06/03/19.

 

Estatísticas da Base de Currículos da Plataforma Lattes – Distribuição por sexo, faixa etária e área’. Disponível em: <http://estatico.cnpq.br/painelLattes/sexofaixaetaria/>.  Acessado em: 06/03/19.

 

Pesquisa Censo e Opinião Discente. Disponível em: <http://propladi.ufabc.edu.br/images/perfil_aluno/perfil_discente_2016.pdf>. Acessado em: 06/03.

 

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