Novidades sobre Netuno, o Gigante Azul (V.2, N.3, P.1, 2019)

Tempo estimado de leitura: 10 minuto(s)

Beatriz Araujo é bacharel em Física e estudante de Ciência da Computação na Universidade Federal do ABC. É cofundadora do Clube de Astronomia Arcturus e atualmente trabalha na parte de divulgação científica.

 

Sugestão de trilha sonora: The Planets Op.32: Neptune, the Mystic – Gustav Holst

 

O ano é 1989. Já há 22 anos longe de casa, a aventureira sonda espacial Voyager 2 adentra o território do frio e gigante planeta Netuno, o último do Sistema Solar. Ela é, até hoje, a única sonda espacial a visitá-lo de perto, conquista realizada antes de rumar em direção aos confins do Sistema Solar.

 

Assim como a Terra é rodeada pela Lua, a maioria dos planetas também apresenta corpos celestes que rodopiam ao seu redor. É o caso de Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, que não estão sozinhos.

 

Porém, sabemos hoje da existência de 14 luas de Netuno. As dividimos, inclusive, em dois grupos: as luas internas (com órbitas internas à da lua) e as luas externas (com órbitas externas à da lua Tritão).

 

Figura 1: Netuno visto pela sonda espacial Voyager 2 (Crédito: NASA/JPL)

 

O gigante e suas luas

 

Antes da aventura da Voyager 2, tínhamos conhecimento de três luas de Netuno: Tritão, Nereida e Larissa, todas encontradas com o auxílio indispensável de observatórios astronômicos e telescópios presos ao solo terrestre. Netuno, inclusive, só pode ser avistado numa noite escura por meio de um desses equipamentos, não importa o quão boa seja a sua visão. Isso explica o porquê de termos negligenciado esse planeta por tanto tempo na história da humanidade; sua descoberta ocorreu há menos de 200 anos.

 

Pouco depois da primeira observação oficial do frio planeta azul, em 1846, foi constatado que ele não era um cavaleiro solitário nas profundezas do Sistema Solar. Rodopiando ao seu redor, estava Tritão, sua exótica lua. Ela é a maior lua do Sistema Solar e o único grande satélite natural com movimento retrógrado, que gira contrariamente à rotação de seu planeta. Além disso, é o corpo planetário mais frio conhecido.

 

Nereida, descoberta em 1949, é uma das luas externas de Netuno e tem uma órbita superexcêntrica, além de demorar 360 dias terrestres para dar uma volta em torno de seu planeta.

 

Já Larissa, foi vista pela primeira vez em 1981, mas apenas oficialmente descoberta em 1989 com a missão Voyager 2.

 

As aventuras das Voyagers

 

Figura 2: Concepção artística da sonda espacial Voyager 2 (Crédito: NASA)

A sonda espacial Voyager 2 está hoje no espaço interestelar e, assim como sua irmã Voyager 1, carrega consigo um disco de ouro com imagens, músicas, saudações e sons que representam a humanidade e foram escolhidos por um comitê presidido por Carl Sagan.

 

Mas, para ciúmes de sua irmã, a Voyager 2 foi a única sonda a estudar de pertinho todos os quatro planetas gigantes do Sistema Solar: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Do último planeta, Netuno, descobriu cinco luas internas (Proteu, Náiade, Talassa, Galatea e Despina) e quatro anéis além de ter capturado magníficas imagens.

 

Novas tecnologias, novos achados…

 

Depois da aventura da sonda, qualquer observação de Netuno e de seu sistema ficou restrita ao uso de equipamentos em solo ou órbita terrestre. Entretanto, a tecnologia avançou muito desde os anos 1980, principalmente no que se refere à obtenção e processamento de dados. Em 2002 e 2003, cinco luas externas (Laomedeia, Halimede, Sao, Neso e Psámata) foram descobertas por observatórios terrestres, totalizando, na época, treze luas conhecidas de Netuno.

 

Telescópios espaciais em órbita terrestre possuem a vantagem de evitar o obstáculo da atmosfera do nosso planeta que atrapalha a astronomia no espectro do visível. O famoso telescópio espacial Hubble, lançado em 1990, foi um avanço sem precedentes para a astronomia. Dentre diversas de suas descobertas destacam-se as imagens mais profundas já tiradas do universo e, além disso, ele também teve um papel importante no estudo de Netuno e seu sistema de satélites naturais

 

 

Figura 3: Sistema interno de luas de Netuno (Crédito: NASA, ESA, e A. Feild (STScI))

 

A última lua descoberta de Netuno, S/2004 N 1 ou Hippocamp, para os mais próximos, não é bem uma novidade. Ela foi encontrada a partir de uma reanálise de imagens do telescópio espacial Hubble obtidas em 2004-2005 e 2009, e sua existência foi confirmada a partir das imagens de 2016.

 

Você pode estar se perguntando: Como que ninguém notou antes essa magnífica lua nas fotos?

 

 Bom, na Astronomia, a captura de imagens é bem mais complexa do que o que estamos acostumados. O nosso celular, por exemplo, consegue captar e processar uma foto quase que instantaneamente, mas, ao apontarmos os nossos telescópios câmeras para o céu, nos deparamos com objetos longes e difíceis de observar. Muitas vezes, os equipamentos passam dias e horas coletando os dados e, depois, é preciso lançar mão de técnicas de processamento super-refinadas. Só assim é possível encontrar, no meio de um mar de dados, algo relevante. E, claro, dependendo da técnica utilizada, algumas coisas podem acabar passando despercebidas.

 

E como foi possível detectar a pequena Hippocamp?

 

 Pesquisadores desenvolveram um método de reprocessamento mais refinado das imagens do Hubble capaz de trazer à tona informações que antes estavam escondidas entre ruídos e borrões. Os mesmos truques foram também utilizados para a observação recente de Náiade, vista pela última vez em 1989.

Tá… mas por que essa descoberta é importante?

A descoberta de Hippocamp não acrescenta somente em número, mas também nos ajuda a entender melhor sobre a história do sistema de luas interno de Netuno.

 

É que o 14º satélite natural tem uma órbita um pouco mais próxima a Netuno do que Proteu, que tem 4.000 vezes o seu tamanho e, em sistemas nos quais um corpo orbita o outro, acontece um fenômeno chamado de efeito de maré.

 

Isso significa que há uma tendência de que os corpos fiquem com os mesmos lados virados um para o outro, o que muda suas rotações individuais. É por isso que sempre vemos apenas uma face da nossa Lua!

 

Uma consequência desse efeito é, também, o afastamento do corpo que está orbitando. Já ouviu falar que a Lua se afasta aproximadamente 4 cm de nós a cada ano? Quanto maior o corpo, mais intenso será esse efeito. E isso acontece também com Proteu. No passado ele esteve mais próximo de Netuno e, com o tempo, migrou para órbitas mais afastadas.

 

Como a Hippocamp é bem pequena, sua órbita não deve hoje diferir muito de como era no passado. Nesse caso, seria muito provável que Proteu, em seu trajeto de migração, houvesse capturado a pequena lua, “engolindo-a”. Como a Hippocamp está sã e salva por aí, talvez ela não exista há tanto tempo assim e nem estivesse, no passado, no mesmo local de hoje.

 

Os pesquisadores têm uma forte hipótese: um grande impacto em Proteu (possivelmente o que gerou sua grande cratera Pharos) haveria gerado fragmentos que se espalharam no espaço e entraram em órbita ao redor de Netuno . Esse material, então, haveria se acumulado em órbitas internas à de Proteu e, olha só, dado origem a Hippocamp.

 

Figura 4: Satélites de Netuno e Anéis (Crédito: NASA/ESA)

 

 

Uma coisa é certa: essa história é um exemplo de como o papel de colisões e migrações orbitais foi relevante para a formação do sistema interno de luas de Netuno, e ela também pode nos fazer refletir sobre o quanto ainda temos a descobrir sobre nossa vizinhança, e quem dirá sobre lugares mais longínquos do cosmos.

 

Há pouco mais de 400 anos, Galileu Galilei apontava sua luneta para Júpiter e descobria um sistema de quatro luas que contestava o pensamento geocêntrico – a ideia de que a Terra era o centro do universo, muito comum na época. Hoje, já deixamos nossa marca para além do Sistema Solar e sonhamos com o que o futuro ainda nos reserva. A cada descoberta um novo mundo se abre a nossa frente.

 

Referências

[1] https://solarsystem.nasa.gov/missions/voyager-2/in-depth/

[2] https://solarsystem.nasa.gov/moons/neptune-moons/triton/in-depth/

[3] https://solarsystem.nasa.gov/moons/neptune-moons/nereid/in-depth/

[4] https://solarsystem.nasa.gov/moons/neptune-moons/larissa/in-depth/

[5] https://voyager.jpl.nasa.gov/golden-record/whats-on-the-record/

[6] https://solarsystem.nasa.gov/missions/voyager-2/in-depth/

[7] https://www.space.com/22222-neptunes-moons.html

[8] M. R. Showalter, I. de Pater, J. J. Lissauer e R. S. French. The seventh inner moon of Neptune, Nature vol. 566, p. 350–353 (2019)

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4 Resultados

  1. Helder Bueno disse:

    Fazia tempo que eu não lia algo sobre Netuno. Ótimo texto!

    • Blog UFABC Divulga Ciência disse:

      Obrigada pelo comentário, Helder.

      Toda semana postamos um novo conteúdo produzido pela comunidade da UFABC.

      Fique ligado!

  2. Celene disse:

    Parabéns à UFABC pela criação de um blog de divulgação científica com ISSN. É um respeito da instituição com os estudos e um incentivo para mais pesquisas. Parabenizamos também o trabalho do grupo de estudantes do Arcturus: vida longa ao grupo! Gostamos também do texto de Beatriz Araujo felicitando a física e os físicos que conseguem dar clareza aos temas muito complexos para nós (des)conhecederores do tema.

    • Blog UFABC Divulga Ciência disse:

      Essa é a proposta do Blog, popularizar a ciência produzida na UFABC, de modo que a Universidade possa atingir cada vez mais pessoas.

      Muito obrigada pelo comentário, Celene.

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