Os gigantes entre nós! (V.2, N.2, P.4, 2019)

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Leonardo Matheus Servino é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Diadema. Atualmente é aluno de mestrado no programa de Pós-Graduação em Evolução e Diversidade da Universidade Federal do ABC (UFABC).

 

Hoje em dia, em qualquer lugar do mundo, você pode ver cavalos desempenhando os mais diversos papéis: transportando pessoas e cargas, servindo como atrações em passeios turísticos, sendo criados e leiloados por colecionadores e até realizando tratamentos terapêuticos nas pessoas.  

 

No município de Extremoz, no Rio Grande do Norte, além de curtir belas praias, tirar lindas fotos nas dunas e desfrutar de um sol radiante, você pode fazer um passeio nas costas de um dromedário, aquele que parece um camelo!

 

Mas será que esses animais sempre estiveram nos lugares em que habitam atualmente? Ou será que algum processo facilitou as idas e vindas de certas espécies?

 

Velhos amigos

 

Muitos animais acompanham o ser humano há milhares de anos. Há casos tão antigos que as pessoas já não lembram mais que determinada espécie não pertencia originalmente àquele lugar.

 

As galinhas, por exemplo, estão presentes no mundo todo, mas nem sempre foi assim. Estima-se que a sua domesticação começou no sul e no sudeste da Ásia, por volta de 5.400 antes de Cristo!

 

Crédito: BIGSTOCK

 

Cavalos e dromedários também são exemplos de animais que foram transportados pelos humanos para servir a algum propósito. No norte do Cazaquistão, há evidências de cavalos transportados por humanos há 5,5 mil anos. Quanto aos dromedários, os primeiros foram domesticados muito antes de 2.000 a.C., na Península Arábica.

 

Passando despercebidos

 

Animais com mais de 44kg são chamados de Megafauna. Porém, estamos tão acostumados com alguns desses animais que mesmo sendo tão grandes, eles se tornam invisíveis aos nossos olhos.  Em fevereiro de 2018, três pesquisadores da Austrália e um dos Estados Unidos publicaram um trabalho, e denominaram esses grandes animais que não notamos e que não causam grandes danos ao ambiente de “Megafauna Invisível”.

 

De volta à vida selvagem

 

Mas nem sempre os humanos conseguem manter o controle sobre esses animais. Em alguns casos, eles escapam ou são soltos na natureza, e, com o passar dos anos, recuperam seus instintos selvagens.

 

Camelos que foram levados para a Austrália no século XIX acabaram sendo soltos após o desenvolvimento de novas tecnologias e agora vivem uma vida selvagem nos desertos. Já nos desertos da Mongólia, há cavalos selvagens, os Cavalos-de-przewalski, que haviam desaparecido nos anos 1960, mas ressurgiram nos anos 1990, graças à programas de reintrodução de animais.

 

 

E o que Pablo Escobar tem a ver com isso?

 

Há um caso que tem se tornado muito famoso na mídia, principalmente pela grandiosidade do fenômeno: os hipopótamos colombianos!

 

Hipopótamos estão presentes, originalmente, apenas no continente africano, mas quem assistiu a série Narcos, da Netflix, sabe que o narcotraficante Pablo Escobar possuía um zoológico particular em sua luxuosa propriedade chamada de Fazenda Nápoles.

 

Lá, ele mantinha diversos animais, como girafas, elefantes, cangurus, e, até mesmo, quatro hipopótamos. Após sua morte, as propriedades de Escobar foram confiscadas pelo governo colombiano e os animais foram transportados para outros zoológicos.

 

Abandonados à própria sorte

 

Mas, os hipopótamos, que são animais agressivos quando se sentem ameaçados e podem pesar até 1.800 kg, foram abandonados no local, onde se reproduziram por 20 anos.

 

E tem mais: alguns conseguiram escapar!

 

Os hipopótamos de Pablo invadiram o principal rio do país, o Rio Magdalena e suas águas calmas e rasas, junto à ausência de um predador capaz de controlar o aumento da quantidade de indivíduos, ofereceu um ambiente propício para a reprodução desses animais que atualmente já são cerca de 60!

 

Crédito: RAUL ARBOLEDA/AFP/GETTY IMAGES

 

As consequências da intervenção humana

 

Quando o ser humano introduz a Megafauna em um novo ecossistema, sérias consequências podem ocorrer.

 

No caso dos cavalos selvagens da Mongólia, a intervenção humana foi positiva. Alguns animais foram levados para zoológicos, que desempenharam uma importante função: a criação de planos para a conservação de espécies. Graças aos animais mantidos em cativeiro e o cruzamento de animais de diferentes zoológicos, foi possível reintroduzir a espécie na natureza nos anos 1990.

 

Porém, na Austrália, estima-se que a população de camelos tenha chegado a 750 mil indivíduos em 2013, o que se tornou um problema, pois esses animais podem beber até 100 litros em 10 minutos, esgotando nascentes de água e estoques de poços. Embora o caso dos camelos da Austrália fosse anteriormente tratado como um exemplo de “Megafauna Invisível”, a situação hoje de estado de alerta.

 

Crédito: AAP

 

E os hipopótamos de Escobar? Eles têm sido vistos dentro de cidades, causando riscos aos moradores, pois são animais extremamente agressivos quando ameaçados. Além disso, impactos ambientais como a eutrofização das águas no Rio Magdalena já foram registrados.

 

Basicamente, o que ocorre é que esses animais defecam nas águas, o que aumenta a disponibilidade de nutrientes nelas, e isso gera a proliferação de determinados organismos, como bactérias e algas, causando a morte de vários outros seres vivos.

 

Como alternativa para a contenção do problema, o governo colombiano já considera a castração de machos e a manutenção dos animais em cativeiro. Porém, a ação ainda está no início e a caça desses animais não é bem vista pela população, que criou grande simpatia por eles.

 

Mesmo com tantas variáveis, o que se espera é a adoção de medidas cautelosas para o controle dos hipopótamos, mas por enquanto, um pedacinho da África vive na Colômbia.

 

 

Fique ligada (o)!

 

A natureza possui seus próprios ciclos, e tudo nela envolvido está conectado por uma grande rede. As interações entre plantas, animais, fungos e outros microorganismos funcionam de forma harmônica, e qualquer desequilíbrio nesse sistema gera consequências graves aos seres vivos. Aí mora o perigo da introdução de espécies exóticas a novos ecossistemas , ou seja, o transporte de seres vivos pelos seres humanos de um local para outro, seja com algum propósito ou simplesmente sem querer.

 

A atividade humana tem gerado muitos desequilíbrios na natureza. O desmatamento da Floresta Amazônica, o descarte de lixo e derramamento de óleos nos rios e mares, a poluição gerada nas grandes cidades e indústrias, todas essas atividades são ameaças à natureza.

 

Imagem destacada: Pexels

 

 

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