Progresso e desenvolvimento para quem? (V.1, N.1, P.4, 2018)

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Douglas Pereira de Souza

Mestre em Energia pela Universidade Federal do ABC (2016), Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade de Ensino Superior da Amazônia Reunida (2015), possui graduação Enfermagem pela Universidade do estado do Pará (2016), possui também graduação em Licenciatura Plena em Ciências Naturais com habilitação em Física pela Universidade do Estado do Pará (2011). Atualmente pesquisa os impactos na Saúde Pública frente à construção de hidrelétricas na Amazônia, com experiência em Avaliação de Impactos à Saúde (AIS) de projetos de Grande escala; execução de projetos sustentáveis; Ensino, Educação e Saúde. Também colabora como pesquisador no laboratório de Justiça territorial (Labjuta/UFABC), na elaboração de estratégias para promoção da saúde de pessoas em situação de risco/vulnerabilidade.

Entrevista com Douglas Pereira de Souza sobre sua pesquisa referente à avaliação de impacto na saúde do projeto de implantação da hidrelétrica de Belo Monte, Altamira, Brasil.

 

Blog UFABC Divulga Ciência: Douglas, o tema da sua pesquisa é:  avaliação de impacto à saúde: Estudo da usina hidrelétrica de Belo Monte e uma análise sobre a violência em Altamira-PA. O que você e estudou na sua dissertação?

Douglas: Na verdade, eu coloquei em prática uma ferramenta que o ministério da saúde publicou em 2014 que se chama “avaliação de impactos em saúde”, essa ferramenta já é utilizada em alguns países como Estados-Unidos e Canadá e é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).É uma ferramenta recomendada paralelamente na utilização do impacto ambiental necessária na construção de grandes empreendimentos. Os problemas de saúde surgem conjuntamente com o impacto ambiental mas a avaliação de impactos da saúde é uma avaliação deixada em segundo plano e a própria avaliação de impactos na saúde é muito simplista quando é feita. A saúde é algo mais complexo do que o tratado, desse modo a avaliação de impacto ambiental deixa os aspectos da saúde de lado.

No Brasil a ferramenta de avaliação de impactos em saúde não é muito difundida e existe pouca literatura que a envolva. Na ferramenta há orientações de como deve ser feita uma avaliação de impactos na saúde e é recomendada que seja utilizada em grandes transformações que irão ocorrer em um território, inclusive nas transformações trazidas na construção de grandes empreendimentos, como projeto de habitação, construção de ferrovias, hidrelétricas e etc.

Minha pesquisa é pautada no funcionamento da violência como consequência direta da construção da hidrelétrica de Belo Monte, utilizando a ferramenta de avaliação de impactos a sáude.

Blog UFABC Divulga Ciência: Qual foi a metodologia usada na pesquisa?

Douglas: Eu usei 5 das 6 etapas da avaliação de impactos na saúde:

A primeira etapa é a seleção/triagem que haveria um selecionamento do que iria usar , pesquisar e como pesquisar e avalio se o que foi organizado é viável ou não.

A segunda etapa é o escopo em que eu defini o que era relevante, qual era o principal problema, no meu caso a violência.

A terceira etapa é o levantamento de dados, qual o tipo de dados que será utilizado. Eu utilizei tanto o quantitativo quanto qualitativo. Eu levantei dados de antes e depois da construção da usina e analisei esses dados para definir se após a construção da usina houve uma influência na violência de Altamira. Levantei dados no ministério da saúde de todos os grupos de homicídio e fiz os cálculos estatísticos; esse foi o levantamento quantitativo. Na etapa qualitativa eu utilizei a técnica do “bola de neve” que é utilizada nas ciências humanas em que se  entrevista uma pessoa e a pessoa entrevistada indica outra pessoa até surgir pessoas ou falas repetidas, as entrevistas foram feitas com os moradores de Altamira por Skype ou telefone e organizei as falas para comparar com os dados quantitativos.

Blog UFABC Divulga Ciência: Como a construção de uma usina hidrelétrica pode influenciar a violência de uma cidade?

Douglas: Primeiro é necessário entender que uma usina hidrelétrica é um projeto de grande escala, projetos de grande escala, sejam eles quais forem, ferrovias, estradas e etc, geram conflitos. Quando há um projeto desenvolvimentista no caso de uma hidrelétrica, ele tem uma grande capacidade de mobilização para as regiões de construções; há uma transferência de mão de obra para essas localidades e geralmente essas localidades como Altamira não possuem infraestrutura para receber esse contingente populacional, desse modo o lugar não oferece serviços de educação, saúde, esporte e lazer para a população local porque houve um crescimento exponencial na cidade. Criou-se então uma atmosfera de conflitos já que havia uma quantidade muito grande da população de Altamira que não tinha acesso aos serviços básicos. A violência é um fenômeno social que está ligado a conflitos sociais e a atmosfera de tensão criada pela exclusão da população favoreceu esses conflitos. A violência, portanto, tende a crescer.

Na construção da hidrelétrica houve um pico de mão de obra que é contratada no início da construção e que depois após a construção essa mão de obra é demitida, apenas alguns profissionais permaneceram no empreendimento, profissionais que fazem um serviço mais especializado. A enorme população demitida não possuía outra fonte de renda, Altamira é uma cidade que possui uma economia voltada para o comércio local e o extrativismo, assim como a maioria das cidade da região norte, o surgimento da construção de Belo Monte forneceu emprego até um certo ponto e com a falta massiva de postos trabalhos alguns outros mecanismos surgem como alternativa de renda e sobrevivência, o tráfico foi um desses mecanismos. Até a construção da hidrelétrica o tráfico não possuía espaço em Altamira, mas devido ao desemprego pós-construção da Belo Monte houve uma disseminação do tráfico e uma interiorização da criminalidade.

Eu estudei especificamente o aumento dos casos de homicídio, mas alguns fenômenos sociais aumentaram proporcionalmente como o aumento de acidentes de trânsito. O aumento do poder de consumo da população aumentou com os salários da construção e consequentemente  também o poder de compra da população de Altamira, uma parcela da população obteve meios próprios de transporte com o aumento do consumo e como Altamira não possuía infraestrutura de asfalto, sinalização e outros meios de infraestrutura, acarretou no aumento do número de acidentes.

Blog UFABC Divulga Ciência: Qual o principal problema enfrentada na realização da pesquisa?

Douglas: O principal problema são os dados oficiais. A construção da Belo Monte em Altamira ocorreu em 2010 que foi o ano de publicação do censo demográfico, ou seja, eu fiz uma leitura do território antes da construção da usina, a partir de 2010 eu não tenho uma leitura do território. A contagem da população que está entre a realização dos censos é feita  de estimativas, estimativas essas que não levam em consideração a construção de um grande empreendimento, então de acordo com os dados oficiais há 111.000 pessoas em Altamira mas na verdade segundo a Prefeitura há 150.000 e isso é um problema muito grave porque todas as políticas públicas são pautadas na leitura do número de habitantes de um território. Se há um dado oficial dizendo que uma quantidade de 111.000 pessoas, mas na verdade há 150.000 os recursos destinados para as políticas não irão atender as demandas da sociedade.

Os dados do ministério da saúde também possuem problemas, os homicídios calculados, às vezes, não apresentam o sexo do cadáver que pode ser uma falha de preenchimento ou a falta de identificação já que não há IML em Altamira.

Os dados oficiais são desatualizados e na maioria das vezes e prejudica uma análise mais real dos problemas sociais.

Blog UFABC Divulga Ciência: Cite um aspecto positivo da construção da usina de Belo Monte?

Douglas: Uma hidrelétrica, mesmo com todos os seus problemas é um projeto desenvolvimentista e, portanto, a Belo Monte gerou empregos, aumentou o poder aquisitivo da população local e a Belo Monte também possui um papel importante no papel energético do Brasil.

Blog UFABC Divulga Ciência: Qual foi o resultado da pesquisa?

Douglas: Na minha pesquisa eu pude comprovar que é possível fazer uma avaliação de impacto na saúde mesmo com a falta de acesso a dados públicos, até porque os dados estão melhorando com o decorrer dos anos.

Pude comprovar também que a violência de Altamira cresceu após a construção da Belo Monte, mas que ela não foi causada exclusivamente pela construção da usina já que a violência é um aspecto multifatorial, mas também não dá para negar que a usina intensificou esses fatores pelas transformações que ela proporcionou.

E por último pude demonstrar que uma avaliação de impacto na saúde é muito importante e precisa ser posta em prática em qualquer projeto.

 

Blog UFABC Divulga Ciência: Se você pudesse resumir sua dissertação em uma imagem/figura, qual seria?

Douglas: A imagem que eu escolheria seria a da índia Tuíra, colocando o facão no rosto do diretor da Eletronorte, Muniz Lopes. Essa imagem representa a resistência de povos à construção da hidrelétrica, principalmente indígenas que tiveram suas terras inundadas. Em nome do desenvolvimento e do progresso foi construída a Belo Monte, mas progresso e desenvolvimento para quem?

 

 

 

Imagem destacada: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/03/04/depois-de-belo-monte-altamira-pa-supera-taxa-de-homicidios-de-pais-mais-violento-do-mundo.htm

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