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9.1  COMPLEXIDADE


A complexidade é uma forma de pensar a educação trazida à tona pela primeira vez pelo filósofo Edgar Morin, que a define como: 1) "que não se pode resumir em uma palavra chave, o que não pode ser reduzido a uma lei nem a uma ideia simples" e 2) "complexidade é uma palavra problema e não uma palavra solução" (MORIN, 2006, p. 5).
Sendo assim, quando pensamos em complexidade, não podemos pensar em simplificar as coisas, pois o pensamento simples tenta "controlar e dominar o mundo real". O objetivo do pensar complexo é "exercer um pensamento capaz de lidar com o mundo real, de com ele dialogar e negociar" (MORIN, 2006, p.6).
Junto com a ideia de pensamento complexo, surgem alguns mal-entendidos que devem ser dissipados antes de apresentarmos as etapas da complexidade. O primeiro deles é encarar a complexidade como uma receita ou uma resposta. Ela é uma proposta de desafio e é isso que estamos propondo para vocês: o desafio de pensar fora da caixa.
O segundo é achar que a complexidade é o fim das coisas, uma conclusão de algo. O pensamento complexo significa saber da incompletude do conhecimento e ter consciência das mutilações das simplificações. Portanto, o objetivo seria unir as partes que foram mutiladas.
"Se a complexidade não é a chave do mundo, mas o desafio a enfrentar, por sua vez o pensamento complexo não é o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo, e às vezes mesmo a superá-lo" (MORIN, 2006, p. 8).
Para entender a complexidade e mutilação dos saberes, é necessário refletir sobre a fragmentação do conhecimento. Morin (2006) diz que o conhecimento foi dividido em saberes disciplinares e que o ser humano não é fragmentado. Por isso, para pensarmos em educação e ensino, temos que ter consciência de duas coisas: o conhecimento deve ser transdisciplinar e a complexidade é só o início. Essa hiperespecialização que vemos hoje não permite que se vejam os problemas de forma global e isso torna impossível o aprender de forma complexa.
Sendo assim, a missão do "ensino é transmitir não o mero saber, mas uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre" (MORIN, 2003, p.11).
Para pensarmos de forma complexa, o passo inicial é a reforma do pensamento:

A reforma do pensamento é que permitiria o pleno emprego da inteligência para responder a esses desafios e permitiria a ligação de duas culturas dissociadas. Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, concernente a nossa aptidão para organizar o conhecimento (MORIN, 2003, p. 20).


Sendo assim, depois da reforma do pensamento, os passos à educação para complexidade são: i) aptidão para tratar problemas e ii) organização dos conhecimentos que permitem ligar os saberes, de forma a dar sentido a eles.
A educação deve favorecer a aptidão nata dos seres para lidar com os problemas de forma genérica e não atrofiar essa capacidade. Portanto, o desenvolvimento da aptidão é o desenvolvimento da inteligência geral, que é necessária para todos os domínios da cultura humana.
O segundo passo se refere à organização dos conhecimentos. Segundo Morin, o conhecimento deve ser constituído:

Todo conhecimento constitui, ao mesmo tempo, uma tradução e uma reconstrução, a partir de sinais, signos, símbolos, sob a forma de representações, idéias, teorias, discursos. A organização dos conhecimentos é realizada em função de princípios e regras que não cabe analisar aqui; comporta operações de ligação (conjunção, inclusão, implicação) e de separação (diferenciação, oposição, seleção, exclusão). O processo é circular, passando da separação à ligação, da ligação à separação, e, além disso, da análise à síntese, da síntese à análise. Ou seja: o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e ligação, análise e síntese (MORIN, 2003, p. 24).


Agora que conhecemos um pouco do pensamento complexo, vamos conhecer os desafios da proposta de Morin para a educação do futuro.

9.2 OS SETE SABERES NECESSÁRIOS PARA A EDUCAÇÃO DO FUTURO


Edgar Morin (2002) aponta sete erros que ele chama de buracos negros da educação, os quais não seriam levados em consideração nos programas educacionais.
O primeiro erro diz respeito ao conhecimento. Nesse caso, o problema estaria no fato de as escolas ensinarem conteúdos, saberes, mas não ensinarem o que é o conhecimento. Os problemas resultantes dessa educação estariam no erro e na ilusão.
O conhecimento não seria um reflexo da realidade, ele seria "uma tradução, seguida de uma reconstrução". Nesse sentido, pode-se dizer que o problema do conhecimento não deve estar restrito, unicamente, aos filósofos. Ele deve ser possibilitado a todos, desde o início de sua vida escolar (MORIN, 2002, p. 15).
O segundo erro do buraco negro da educação seria o conhecimento pertinente, que consiste na não mutilação do objeto, ou seja, em não mutilar o conhecimento. Seria necessário, nesse sentido, criar uma conexão entre as disciplinas ensinadas na escola, resultando na obtenção de um contexto interdisciplinar. Com a separação em disciplinas, o ser humano perde a capacidade de contextualizar e de criar relações entre os diferentes saberes.
A terceira crítica que Morin faz é chamada de identidade humana, a qual não é contemplada em programas de instrução. Existiria uma tríplice intitulada de indivíduo-sociedade-espécie, que deveria ser ensinada na escola. Nesse sentido, a identidade poderia caminhar em conjunto com a ciência.
Ensinar que existe uma identidade do indivíduo, que vivemos em sociedade e que somos homo sapiens  é imprescindível no viver em sociedade. Para isso, faz-se necessário construir essas interações. Dessa forma, é importante ressaltar a multiplicidade do que somos, como também, reconhecermos que possuímos uma unidade.
A compreensão humana é o quarto saber, segundo Morin (2002). Este autor diz que na educação não se ensina a compreender as outras pessoas e essa noção do que é compreender é fundamental para a vida humana.
O quinto saber é a incerteza, que consiste no ensino do inesperado. Sabe-se que, na escola, só se ensinam as certezas. Todavia, é necessário aprender que para cada ação, existe a possibilidade do inesperado, do erro. Reconhecendo a possibilidade do imprevisível, podem-se traçar estratégias para corrigir o processo de ensino/aprendizagem, com relação a algo que não saiu conforme o esperado.
O sexto ponto apresentado pelo autor é a condição planetária. Nas condições atuais em que vivemos - o mundo globalizado, possibilidades de ameaças globais - os seres humanos possuem uma ligação, um destino comum. Seria necessária, então, uma educação voltada para o entendimento que vivemos de fato em uma comunidade global, direcionada para um único destino. Dessa forma, precisamos tratar a educação como fortalecedora desses vínculos.
O sétimo e último saber seria a antropoética que consiste na possibilidade do ser humano desenvolver suas responsabilidades pessoais e sociais. Esse saber só teria sentido em uma democracia, pois ela possibilitaria aos cidadãos exercerem sua responsabilidade por meio do voto.

9.3 COMO APLICAR ESSES SABERES NA EAD?


O primeiro passo para aplicar o pensamento complexo em EaD é saber do desafio que é pensar "fora da caixa". Essa "caixa" é a educação tradicional que recebemos, pois ela coloca cada conhecimento em caixas da superespecialização, que não conversam entre si.
Na tutoria em EaD, precisamos entender que lidamos com sujeitos complexos, mas que foram, muitas vezes, acostumados com o que Paulo Freire chama de "ensino bancário" e que devemos trabalhar para desenvolver a aptidão para lidar com problemas e a organização do pensamento geral.
Devemos entender que a noção de indivíduo não é fixa e estável, e que existe uma autonomia completa. Somos ligados ao mundo pela nossa cultura e relações sociais; não somos neutros e nem imparciais.
Sendo assim, o tutor deve entender que a proposta de Morin é só uma provocação, um desafio que não deve ser simples de ser resolvido. Na verdade, ele não deve ser resolvido, pois não é um fim, e sim um processo constante de transformação.
Educar é vivenciar essa transformação em todas as etapas. Por isso, é tão importante admitir que somos seres incompletos e sujeitos ao erro e que o conhecimento se dá pela troca, comunicação e dialética entre os sujeitos.

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O desafio da complexidade de Edgar Morin.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


MORIN, Edgar. O problema epistemológico da complexidade. Portugal: Europa-América, 1996.
_____________. A cabeça bem feita. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
_____________. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.
_____________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília: Cortez Unesco, 2002.


 

 

 

 

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