Objetivos: Conhecer a comunicação dialógica e o método socrático, como também aplicá-los na EaD.

Resumo: Na aula de hoje, inicialmente aprofundaremos o conhecimento sobre o método de Sócrates, o qual é originalmente chamado de maiêutica. Em seguida, apresentaremos a comunicação dialógica com a intenção de pensar em formas de aplicá-la na prática da tutoria em EaD.

Atividade: Atividade 13.



 


8.1. MAIÊUTICA

A maiêutica é um método criado pelo filósofo Sócrates na Grécia antiga, que tinha o objetivo de extrair a verdade por meio das perguntas. Os ideais gregos de educação estão fundados na Paidéia, que é "uma preocupação ampla com a formação humana e conhecimento do mundo." Esses valores são levados em consideração até hoje como modelo educativo (Carvalho, 2001, p. 87).

O método socrático se baseia em perguntas e respostas, e é dividido em duas partes: ironia e maiêutica. Na primeira parte, Sócrátes era irônico ao fingir não conhecer o assunto abordado e tentar extrair o máximo do seu interlocutor, induzindo-o a reconhecer seus raciocínios errôneos. Já a maiêutica é "uma arte obstétrica", que significa dar a luz ao conhecimento, é o momento de desconstrução dos conceitos, para a criação de novos.

Veja a seguir um exemplo da maiêutica socrática retirada do diálogo Mênon (Platão, 1966). Sócrates, através de um diálogo, conduz um jovem (chamado Escravo) para a compreensão de um resultado matemático. Ou então, como afirma o próprio Sócrates, ajuda o jovem a se lembrar de algo que já sabia. 

Sócrates: - Examina, agora, o que em seguida a estas dúvidas ele irá descobrir, procurando comigo. Só lhe farei perguntas; não lhe ensinarei nada! Observa bem se o que faço é ensinar e transmitir conhecimentos, ou apenas perguntar-lhe o que sabe.
(E, ao escravo): Responde-me: não é esta a figura de nosso quadrado cuja área mede quatro pés quadrados?
Escravo: - É.
Sócrates: - A este quadrado não poderemos acrescentar este outro, igual?
Escravo: - Podemos.
Sócrates: - E este terceiro, igual aos dois?
Escravo: - Podemos.
Sócrates: - E não poderemos preencher o ângulo com outro quadrado, igual a estes três primeiros?
Escravo: - Podemos.
Sócrates: - E não temos agora quatro áreas iguais?
Escravo: - Temos.
Sócrates: - Que múltiplo do primeiro quadrado é a grande figura inteira?
Escravo: - O quádruplo.
Sócrates: - E devíamos obter o dobro, recordaste?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - E esta linha traçada de um vértice a outro da cada um dos quadrados interiores não divide ao meio a área de cada um deles?
Escravo: - Divide.
Sócrates: - E não temos assim quatro linhas que constituem uma figura interior?
Escravo: - Exatamente.
Sócrates: - Repara, agora: qual é a área desta figura?
Escravo: - Não sei.
Sócrates: - Vê: dissemos que cada linha nestes quatro quadrados dividia cada um pela metade, não dissemos?
Escravo: - Sim, dissemos.
Sócrates: - Bem, então quantas metades temos aqui?
Escravo: - Quatro.
Sócrates: - E aqui?
Escravo: - Duas.
Sócrates: - E em que relação aquelas quatro estão para estas duas?
Escravo: - O dobro.
Sócrates: - Logo, quantos pés quadrados mede esta superfície?
Escravo: - Oito.
Sócrates: - E qual é seu lado?
Escravo: - Esta linha.
Sócrates: - A linha traçada no quadrado de quatro pés quadrados, de um vértice a outro?
Escravo: - Sim.
Sócrates: - Os sofistas dão a esta linha o nome de diagonal e, por isso, usando esse nome, podemos dizer que a diagonal é o lado de um quadrado de área dupla, exatamente como tu, ó escravo de Mênon, o afirmaste.
Escravo: - Exatamente, Sócrates!

Sócrates desenha para o jovem um quadrado com área igual a 4 pés quadrados (pés2) - ver Figura 1. Sócrates, então, desenha um quadrado formado com quatro cópias de um quadrado com área igual a 4 pés2 - ver Figura 2 - e faz novas perguntas ao rapaz. O rapaz concorda que este quadrado maior (Figura 2) tem 16 pés2 de área. Sócrates traça uma linha de um vértice a outro de cada quadrado interior do quadrado de 16 pés2 - ver Figura 3 - e faz novas perguntas ao rapaz. Escravo, por sua vez, concorda que o quadrado é dividido ao meio pelo segmento que une os pontos médios de dois lados opostos. Tomando uma diagonal de cada um dos quatro quadrados, Sócrates obtém um novo quadrado. Ele, então, faz novas perguntas ao rapaz. Escravo concorda, então, que este último quadrado tem área de 8 pés2, através das perguntas realizadas por Sócrates (cf. Paterlini, s/d). 

 Mas como podemos aplicar esse método à EaD?

O método socrático é o oposto do que se espera em uma educação tradicional baseada no feedback, pois não se espera que os alunos saibam todas as respostas e nem cabe ao tutor transmitir conhecimento. A proposta é que o tutor e o aluno construam juntos o conhecimento. Assim, o tutor não deve dar respostas prontas nem ter como modelo premiações ou punições. Vamos dar um exemplo de como dar uma devolutiva a um aluno EaD utilizando o método socrático:

Atividade: O que é sociointeracionismo?

Resposta do aluno: Sociointeracionismo é uma teoria da aprendizagem que faz com que o aluno aprenda pelo diálogo e que premia cada etapa com reforços positivos, elogios e dá notas baixas para quem não atinge o conhecimento necessário.

(*Perceba que o aluno acertou parcialmente a resposta, entretanto misturou o sociointeracionismo com comportamentalismo.)

Devolutiva do tutor: Oi aluno, você acertou parcialmente a resposta, por isso gostaria que você refletisse sobre o seguinte: em uma educação que é baseada no diálogo, o mais importante é o resultado, as notas? Se você refletir sobre a terminologia do termo sociointeracionismo terá o quê (socio + interacionismo)?

Comentário explicativo: O tutor utilizou o método socrático para realizar a devolutiva, pois ao invés de dar a resposta apontando a forma correta que o aluno deveria ter respondido, optou por afirmar que a resposta estava parcialmente correta e fazer perguntas que apontem o caminho que o aluno deve seguir.

 


8.2. COMUNICAÇÃO DIALÓGICA

A comunicação dialógica é uma relação dialética baseada no diálogo. No caso específico da educação, ela se dá por um processo de encorajar o aluno a dar sua opinião, a expressar sua individualidade e também a criticar as opiniões dos colegas.
Segundo a professora Silvia Dotta:

"O conhecimento é co-construído por professores e alunos em atividades realizadas em parceria, por meio do debate e do discurso dialógico, (...) a natureza dialógica do discurso deve ser explorada para possibilitar a construção colaborativa do conhecimento. Por meio do discurso dialógico, ideias podem ser refinadas e esclarecidas." (Dotta, 2009, p. 46)

O papel do professor e/ou tutor, neste contexto, é de mediador, sendo necessário que ele reconheça os signos na linguagem dos alunos e que identifique o conteúdo elencado na disciplina a ser estudada, para que possa conduzi-los para a ampliação ou obtenção deles. O conhecimento prévio que os alunos trazem não deve ser descartado e esse deve ser o ponto de partida das interações.

A teoria de Vygostky é utilizada como base para a comunicação dialógica, pois leva em consideração as relações sociais, as interações e a cultura dos sujeitos. Neste sentido, Wertesch diz que:

"(...) toda ação humana, seja individual ou interacional social, está situada socioculturalmente, ainda quando um indivíduo esteja sozinho contemplando algo, ele está socioculturalmente situado, em virtude dos modos de mediação que emprega." (Wertesch apud Dotta, 2009, p. 51)

Paulo Freire (1996) destaca a necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa. Para ele, o educador precisa:

1. Conseguir dosar a relação teoria/prática;


2. Criar possibilidades para o aluno produzir ou construir conhecimentos, ao invés de simplesmente transferir os mesmos;

3. Reconhecer que, ao ensinar, se está aprendendo; e não desenvolver um ensino de "depósito bancário", onde apenas se injetam conhecimentos (informações) nos alunos;


4. Saber "despertar no aluno a curiosidade, a busca do conhecimento, a necessidade de aprender de forma crítica".

A obra de Paulo Freire (1996) também é a base para a educação dialógica. Para este autor, o sujeito contribui ativamente para a formação de seu próprio saber. Segundo Paulo Freire, não existe a possibilidade de o aluno ser um receptáculo, posto que mesmo na educação "tradicional" - chamada de "bancária" - o estudante assume posturas críticas em relação ao conteúdo que é unicamente transferido.

A forma adequada de ensinar, de acordo com o "pensar certo", está em criar possibilidades para a produção ou construção do conhecimento. Dessa forma, o ensino não deve ser transmitido e sim construído em um processo no qual educador e educando devem trocar os papéis, pois os dois experimentam o ensinar e aprender: "quem forma se forma ou re-forma ao formar, e quem é formado forma-se ao ser formado" (Freire, 1996, p. 23).

Um dos fatores principais para a obtenção de uma educação baseada no "pensar certo" é o desenvolvimento da criticidade, tão necessária para uma aprendizagem dialógica, pois construir o conhecimento de forma criativa implica em aprender a relacionar os conteúdos com a realidade cotidiana. Essa prática ativa de ensino difere do método de memorização empreendido pelo ensino "bancário", na qual os conhecimentos são concatenados e recitados.

Segundo Freire (1996, p.28), "só quem pensa certo, pode ensinar". O "pensar certo" propõe uma educação centrada no conhecimento de mundo, do ser histórico. Reconhece-se, então, que, ao produzir o conhecimento, aprendemos com o que já existe e muitas vezes o superamos, ao produzir algo novo.

Para que pensemos certo, é necessário respeitar o conhecimento trazido pelos alunos. Assim, é importante utilizar as diferentes realidades vivenciadas pelos alunos para desenvolver um olhar crítico da sociedade. Um dos principais fatores do "pensar certo" e da educação dialógica é agir com humildade, pois aprendemos a importância de ouvir os alunos. "O educador que escuta, aprende a difícil lição de transformar seu discurso ao aluno, às vezes necessário, em uma fala com ele" (Freire, 1996, p. 113).

Ter uma postura humilde requer aceitar que somos seres inacabados. Essa consciência nos torna seres responsáveis. A postura humilde nos faz ter respeito à autonomia e à liberdade do educando. Muitas vezes, respeitar significa dizer aquilo que pensamos, pois não existe neutralidade nos discursos. Assim, sabemos que existe uma diferença entre professores e alunos, mas não um juízo de valor, onde um é melhor que o outro.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. CARVALHO, J. M. História da filosofia e tradições culturais: um diálogo com Joaquim de Carvalho. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.
  2. DOTTA, S. Aprendizagem dialógica em serviços de tutoria pela internet: estudo de caso de uma tutora em formação em uma disciplina a distância. Tese (Doutorado em Educação). São Paulo: Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo (USP), 2009.
  3. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 23. reimp. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
  4. PATERLINI, R. R. Sócrates e Mênon. São Carlos: Departamento de Matemática, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), s/d. Disponível em: http://www.dm.ufscar.br/hp/hp157/hp157001/hp157001.html. Acesso em: 12/5/2014.
  5. PLATÃO. Diálogos I – Mênon – Banquete – Fedro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966.
  6. VYGOTSKY, L. S. Formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

CRÉDITOS

Autor: SANTIAGO, C. G., Equipe PACC, UAB-UFABC - Santo André, Dezembro de 2012.
Revisores: BALLAMINUT, N.; CARTEANO, R., FIOROTTI, S.; HERRERA, V.; SIMAS, J. P.; ZIA, I. C. A., Equipe PACC, UAB-UFABC - Santo André, Maio de 2014.



ATIVIDADE 13

Após a leitura do texto da aula, crie uma devolutiva do tutor de acordo com o método socrático, tendo em vista a resposta incompleta dada pelo aluno. Em seguida, explique a razão desta devolutiva (dedicação: 20 minutos).

Atividade: O que são as Netiquetas para a EaD?
Resposta do Aluno: As Netiquetas são etiquetas que se recomendam observar na Internet.
Devolutiva do Tutor:  
Comentário explicativo
 

*O conteúdo sobre Netiquetas está disponível na Aula 3 (mudar por 2). 

Acesse o Tidia-Ae e submeta um arquivo (.doc ou .pdf) com os exemplos como anexo na Atividade 13 (Atividades > Aula 08 - Atividade 13). O texto no arquivo deve ser digitado conforme a norma ABNT NBR 14724:2011: em cor preta, no formato A4 (21 cm × 29,7 cm); as margens devem ser: esquerda e superior de 3 cm e direita e inferior de 2 cm; a fonte tamanho 12, preferencialmente Arial ou Times New Roman.

Para esta atividade será atribuída uma nota de 0 a 10, sendo que os critérios de avaliação são os seguintes: desenvolveu uma devolutiva de acordo com método socrático (2,00), desenvolveu um comentário explicativo que complementou/corrigiu a resposta discente (2,00), foi cortez com o aluno (1,00), auxiliou o aluno frente à dificuldade alheia (pró-ativo) (1,00), foi criativo em sua devolutiva e/ou comentário explicativo (1,00), enviou o texto de acordo com o solicitado (devolutiva e comentário do tutor) (1,00), segue a ABNT para indicar referências e citações (1,00), e não comete erros de português (1,00).

 


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