3.1  COMUNICAÇÃO VIRTUAL


  A educação a distância (doravante EaD) se dá no âmbito virtual, por se referir a diferentes formas de educação que pretendem promover o conhecimento entre pessoas que se encontram distantes fisicamente. Nesse sentido, o que conecta essas pessoas é a comunicação virtual.

  Com essas novas relações, os conceitos mudam e surgem novas definições de interação e espaço.
Segundo Moran (2002), este é um momento de transição na EaD, pois embora ainda predominem as interações virtuais frias (questionários, e-mails) e poucas interações online (ferramentas síncronas), já se inicia um processo no qual é possível sair do modelo tradicional de interações individuais e ir para as grupais (interações coletivas).

  Mas, apesar disso, muitos problemas podem ocorrer em decorrência da comunicação virtual, pois segundo Abreu e Lima et al (2011), só 7% "de toda comunicação é realizada por elementos verbais", enquanto a prosódia e a linguagem corporal correspondem aos outros 93%.

 Com o intuito de diminuir essa distância na EaD, alguns cursos adotam regras e recursos para auxiliar na interação e no bom convívio entre alunos e tutores.  Essas regras são conhecidas como as Netiquetas, que podem utilizar diversos recursos, tais como as respostas dos tutores a perguntas dos alunos e os ícones que representam emoções (emoticons - emoção + ícone).

As 10 netiquetas (Shea, 2011) mais básicas são:

 

 

 

Regra 1: Lembrar-se do humano


Regra 2: Seguir os mesmos padrões de comportamento online que você segue na vida real


Regra 3: Saber onde está no ciberespaço


Regra 4: Respeitar o tempo das pessoas de outras largura de banda


Regra 5: Ter um bom perfil online


Regra 6: Compartilhar conhecimento especializado


Regra 7: Ajudar a manter os conflitos sob controle


Regra 8: Respeitar a privacidade das pessoas


Regra 9: Não abusar do seu poder


Regra 10: Ser tolerante a erros de outras pessoas

 

 

 

  Além do uso das Netiquetas, Abreu e Lima et al (2011) dizem que é preciso ficar atento à coerência textual, correção ortográfica, clareza e objetividade no conteúdo. Segundo estes autores, para promover uma boa comunicação virtual, é preciso ter bom senso para se adequar ao contexto.

  Quando se trata da EaD, um dos recursos bastante discutidos é o feedback, pois esta é uma forma do tutor fazer a mediação entre o aluno e o conteúdo. Existem vários modelos de feedback. Aqui serão tratados dois: escala de feedback e o feedback sanduíche.

A escala de feedback é um processo divido em quatro etapas:

1. Esclareça,
2. Valorize,
3. Questione e
4. Sugira.

No feedback sanduíche, o processo é dividido em 3 etapas:


1. Realce algo positivo,
2. Sugira melhorias e
3. Aponte algo muito bom.

  Independente do modelo adotado, é fundamental que o estudante de EaD seja ouvido, amparado e motivado pelo tutor a participar do processo de ensino/aprendizagem virtual (ABREU E LIMA ET AL, 2011).

  As instituições de ensino superior que utilizam EaD devem estar conectadas com as leis que regulamentam a educação e com as discussões que permeiam a educação de forma geral. Assim, serão discutidos a seguir alguns dos parâmetros que se relacionam com a educação superior e o que se espera da educação do futuro.

3.2 - OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO E O DOCUMENTO DE BOLONHA


  Os autores do "Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional Sobre Educação para o Século XXI", elaborado em 1998 , construíram quatro pilares que consideravam essenciais para a que "a educação apareça como uma experiência global a levar a cabo ao longo de toda a vida, no plano cognitivo prático, para o indivíduo enquanto pessoa e membro da sociedade" (DELORS, 2002).
Estes quatro pilares da educação são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Eles serão apresentados em detalhes a seguir.

 Aprender a conhecer - Prazer de compreender, descobrir, construir e reconstruir o conhecimento, curiosidade, autonomia, atenção. Inútil tentar conhecer tudo. Isso supõe uma cultura geral, o que não prejudica o domínio de certos assuntos especializados. Aprender a conhecer é mais do que aprender a aprender. Aprender mais linguagens e metodologias do que conteúdos, pois estes envelhecem rapidamente. Não basta aprender a conhecer. É preciso aprender a pensar, a pensar a realidade e não apenas "pensar pensamentos", pensar o já dito, o já feito, reproduzir o pensamento. É preciso pensar também o novo, reinventar o pensar, pensar e reinventar o futuro.
 Aprender a fazer - É indissociável do aprender a conhecer. A substituição de certas atividades humanas por máquinas acentuou o caráter cognitivo do fazer. O fazer deixou de ser puramente instrumental. Nesse sentido, vale mais hoje a competência pessoal que torna a pessoa apta a enfrentar novas situações de emprego, mas apta a trabalhar em equipe, do que a pura qualificação profissional. Hoje, o importante na formação do trabalhador, também do trabalhador em educação, é saber trabalhar coletivamente, ter iniciativa, gostar do risco, ter intuição, saber comunicar-se, saber resolver conflitos, ter estabilidade emocional. Essas são, acima de tudo,qualidades humanas que se manifestam nas relações interpessoais mantidas no trabalho. A flexibilidade é essencial. Existem hoje perto de 11 mil funções na sociedade contra aproximadamente 60 profissões oferecidas pelas universidades. Como as profissões evoluem muito rapidamente, não basta preparar-se profissionalmente para um trabalho.
 Aprender a viver juntos - a viver com os outros. Compreender o outro, desenvolver a percepção da interdependência, da não-violência, administrar conflitos. Descobrir o outro, participar em projetos comuns. Ter prazer no esforço comum. Participar de projetos de cooperação. Essa é a tendência. No Brasil, como exemplo desta tendência, pode-se citar a inclusão de temas/eixos transversais (ética, ecologia, cidadania, saúde, diversidade cultural) nos Parâmetros Curriculares Nacionais, que exigem equipes interdisciplinares e trabalho em projetos comuns.
 Aprender a ser - Desenvolvimento integral da pessoa: inteligência, sensibilidade, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa. Para isso não se deve negligenciar nenhuma das potencialidades de cada indivíduo. A aprendizagem não pode ser apenas lógico-matemática e lingüística. Precisa ser integral (GADOTTI, 2000).

  Nesse contexto de discussão acerca dos parâmetros curriculares da educação, sua relação com a sociedade e as instituições de ensino superior, surge também o documento de Bolonha (Hortale & Mona, 2004). Ele é conhecido como a declaração conjunta dos ministros europeus da educação, lançada em 19 de junho de 1999, que consiste na tentativa de fortalecer os laços da universidade com a sociedade europeia na relação do mundo do trabalho. Seus objetivos são:

 1. Aumentar a competitividade e a atratividade em nível internacional da educação superior europeia.
 2. Melhorar a adaptação da formação dos graduados europeus às demandas do mercado de trabalho.
 3. Desenvolver a mobilidade interna e externa de estudantes e graduados.
 Para alcançar esses objetivos, propõem-se as seguintes metas:

1. Desenvolver um sistema de graus comparáveis e compreensíveis para estudantes e empregadores.


2. Estabelecer uma estrutura de graus em dois ciclos (graduação e pós-graduação), sendo o primeiro relevante para o mercado de trabalho.


3. Estabelecer um sistema uniforme de créditos.


4. Desenvolver programas de intercâmbio para estudantes e docentes.


5. Estabelecer mecanismos de cooperação entre as instituições de educação superior para a garantia da qualidade da formação.


6. Promover a dimensão europeia da educação superior (HORTALE & MONA, 2004).

  O documento de Bolonha, apesar de se relacionar com a União Europeia (UE), não está restrito a esse âmbito, pois outros países o adotaram como diretriz. O projeto da Universidade Federal do ABC, por exemplo, foi constituído baseando-se nesses princípios.

3.3 - A EDUCAÇÃO E O TECNICISMO


  Analisando os quatro pilares da educação e o documento de Bolonha, pode-se perceber que existem alguns pontos de intersecção entre eles. Um deles é a necessidade de relacionar a educação com o mercado de trabalho.

  Nos quatro pilares da educação, percebe-se uma mudança no que se espera da educação, e nesse sentido, sai-se da individualidade para a coletividade. Essa mudança pode ser relacionada com o mercado de trabalho no que tange à necessidade que as empresas têm de que seus funcionários trabalhem em equipe.

  Essa ideia é reforçada com o documento de Bolonha, pois é notório que os novos conteúdos da educação não devem mais ser expostos de forma desconectada, tendo agora um novo propósito, que é aproximar a universidade da sociedade.

  Todavia, ainda percebemos a influência do positivismo nas noções de progresso, fracasso e sucesso educacional; e também podemos percebê-la no âmbito da EaD. A noção de feedback que trabalhamos anteriormente é um exemplo, pois a sistematização e padronização dos processos leva-nos a acreditar que o ser humano é único e não multifacetado e, nesse sentido, é dada maior importância ao resultado do que ao processo.

  Segundo Oliveira (2011), a questão da modernidade e de "uma violenta globalização neoliberal" empurra a sociedade para uma busca desenfreada de aparatos tecnológicos na educação e uma descaracterização da profissão do professor. Isto pode resultar em uma escola que se preocupa só com a aparência. Assim, percebe-se uma ausência de alguns itens essenciais nos documentos legais, que nesse sentido, não delimitam "sobre o que importa aprender, como e para quê. Nem tampouco sobre quem terá a responsabilidade (...)".

 O movimento associado ao discurso das competências e à pedagogia por objectivos (SIC), ancorado no experimentalismo positivista e na psicologia condutista, nascido no seio do treino industrial e militar, deslocaliza o problema da própria racionalidade tecnológica e converte-a em tecnicismo (...). Ou seja, este tecnicismo (disfarçado pelas vestes da modernização, do progresso e da inclusão social) neutraliza o problema da educação pública dissipando as discussões teóricas e ideológicas que devem subjazer à formulação do currículo. Entre outros aspectos, não se aprende para saber mas para saber-fazer, apenas, o que o mercado determina que tem valor, naquele momento (OLIVEIRA, 2011, p. 59-60).

 O filósofo Michel Foucault (2006) diz que o saber é uma forma de poder e que uma das formas de controle social são as instituições, incluindo a escola.

 A escola seria um ambiente que tem como objetivo a disciplina, baseando-se no que Foucault chama de sociedade disciplinar. Segundo Gallo (p. 94):

  As sociedades disciplinares foram as responsáveis pela individualização do poder, pelo processo de subjetivação que, ao mesmo tempo, permitiu a autotematização do humano, com o aparecimento das ciências humanas, e o estabelecimento de novas formas de convívio social e de relações de poder, onde a dominação é introjetada por cada indivíduo. Essa introjeção cria uma ilusão de liberdade e autonomia, pois cada um de nós é supostamente responsável por suas escolhas: o que, quando e como comprar, em quem votar, por exemplo.

  Diante da leitura foucaultiana de educação, podemos pensar sobre qual educação desejamos: se construiremos sujeitos críticos e verdadeiramente autônomos ou se reproduziremos um modelo de educação docilizada, disciplinar.

 Os papéis do professor e do tutor são fundamentais para a promoção de sujeitos críticos na sociedade, aqueles que conseguem estabelecer relações e não só reproduzir os discursos. Nesse sentindo, questiona-se: devemos construir um conhecimento útil voltado somente para o mercado de trabalho ou auxiliar na construção de sujeitos livres? E ainda: o papel do tutor seria auxiliar os alunos em seu processo de construção do conhecimento ou dar respostas prontas, fórmulas de sucesso?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ABREU-E-LIMA, Denise Martins de; ALVES, Mario Nunes. O feedback e sua importância no processo de tutoria a distância. Pro-Posições,  Campinas,  v. 22,  n. 2, Aug.  2011 .   Disponível em:  <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73072011000200013&lng=en&nrm=iso>. access on  09  Nov.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000200013.
DELORS J. Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para UNESCO da comissão internacional sobre educação para o século XXI. 10th ed. São Paulo: Cortez DF MEC UNESCO; 2002. p 89–102.
FOUCAULT, M. O Uso dos Prazeres - História da Sexualidade II. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1990.
__________.  O uso  dos  prazeres  e  as  técnicas  de  si.  In: FOUCAULT, M. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
GADOTTI, MOACIR. Perspectivas atuais da educação. São Paulo Perspec.,  São Paulo,  v. 14,  n. 2, June  2000 .   Disponível em:  <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392000000200002&lng=en&nrm=iso>. access on  24  Nov.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392000000200002
GALLO, Sílvio.  Repensar a Educação: Foucault. Revista Filosofia, Sociedade e Educação. vol.1, fasc. 1, Marília: Unesp, 1997, p.93-118.
HORTALE, V. A., & MONA, J. G. Tendências das Reformas da Educação Superior na Europa no Contexto do Processo de Bolonha. Educ. Soc., Campinas,25 (88), 937-960, 2004.
MORAN, M.J. O que é Educação a Distância? 2002. Disponível em:  <www.eca.usp.br/prof/moran/textosEaD.htm> . Acessado em 22 Nov. 2012.
SHEA, Virginia. The Core Rules of Netiquette. Disponível em:< http://www.albion.com/netiquette/corerules.html> Acessado em: 24 Nov. 2012. (Tradução Livre)
OLIVEIRA, L. R. Breve reflexão sobre e-portefólios em educação. In A. P. Vilela (Coord.) A Par dos Tempos que Correm. As TIC e o Centenário da República. Braga: Centro de Formação de Associação de Escolas Braga/Sul. Pp. 59-67, 2011.


 

 

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