O que um sapo tem em comum com uma pilha? Uma breve história sobre a ciência (V.3, N.5, P.4, 2020)

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O que um sapo tem em comum com uma pilha? Uma breve história sobre a ciência (V.3, N.5, P.4, 2020)

Tempo de leitura: 5 minutos
#acessibilidade Imagem com fundo esverdeado de uma pilha pequena sobre um bloco de notas que mostra um trecho da tabela periódica e alguns desenhos de vidrarias de laboratório. No canto inferior esquerdo há um desenho cômico de um pequeno sapo com uma expressão confusa e um ponto de interrogação acima.

Em 1780, Luigi Galvani montou um circuito no qual duas extremidades metálicas conectadas a um sapo morto faziam com que os músculos se movessem da mesma forma que vivo ao aplicar uma corrente elétrica. Esse experimento para lá de esquisito foi, por incrível que pareça, o que levou ao desenvolvimento das pilhas e baterias como conhecemos hoje, seguido pelos experimentos de Alessandro Volta que empilhou discos de zinco e cobre intercalados com um tipo de tecido molhado com ácido ou água com sal e observou o mesmo comportamento em relação a condução de corrente elétrica quando ligados a um circuito. Ou… é mais ou menos assim que nos contam os livros de química e de história.

Apesar desses dois experimentos serem os mais “famosos” e largamente disseminados pelos livros e textos didáticos, até o fim desse texto espero que você se familiarize com duas grandes ideias principais. A primeira é que a ciência não é bem o que parece — talvez essa parte seja menos emocionante e te deixe ligeiramente decepcionado (ou ainda surpreso, pensativo… você escolhe!). A segunda é de que dá pra tudo ficar bem mais estranho do que a história dos sapos e que bem… talvez os cientistas tenham uma certa tendência para humor questionável mesmo. Se você rir desses trechos, tenho notícias sobre seu diagnóstico: grandes chances de ser, no fundo, um cientista!

Ao contrário do que parece nos livros didáticos, as grandes descobertas científicas não são eventos isolados, realizados do nada por gênios que pensaram em algo que ninguém mais estava pensando na época. Vamos tomar como exemplo a descoberta da pilha. Já vimos aqui que a pilha depende de um circuito onde há transferência de elétrons gerando corrente elétrica. Entretanto, na época em que Volta realizava seus experimentos, quase nada se sabia sobre a própria eletricidade que faria esse aparato funcionar ou sobre as reações químicas de redução e oxidação responsáveis por esse movimento de elétrons de um pólo ao outro da pilha. Inclusive, a descoberta do próprio elétron só seria feita quase um século depois.

Esses não eram os dois únicos cientistas que estudavam a eletricidade. Laura Bassi, uma das primeiras mulheres a conseguir uma cadeira na Universidade de Bolonha (e que merece um texto só para ela) montou em sua casa um laboratório de física tão bem equipado que diversos outros cientistas viajavam para realizar experimentos lá. Apesar de se envolver mais com estudos de fluidos e hidrodinâmica importantes para o desenvolvimento do abastecimento de água para a cidade na época, Laura Bassi também estudava eletricidade e há registro de muitas palestras e debates realizados por ela nesse período. Seu marido, Giuseppe Veratti, também estudava um pouco do assunto na época (com interesse em medicina) e juntos montaram um laboratório que foi utilizado por outros cientistas para muitos experimentos. O próprio Volta escreveu para Bassi enviando sua tese para revisão e pedindo opiniões sobre o seu trabalho com eletricidade — e esse tipo de correspondência era comum entre diversos cientistas da época. Podemos citar alguns como Giambattista Bianchi, Abbé Nollet, Francesco Algarotti, Alessandro Volta, Leopoldo Caldani, Felice Fontana, Lazzaro Spallanzani, Gian Lodovico Bianconi e Francesco Maria Zanotti — só entre os que se correspondiam com Bassi. A lista é grande e esse post é apenas um recorte para ilustrar que existiam muitas pessoas envolvidas nesses estudos.

Essas práticas de dialogar com outros cientistas que estudam assuntos similares, debater suas ideias em apresentações e palestras e ter seu trabalho sendo frequentemente revisado por outros cientistas, permanecem até hoje. As cartas dessa época hoje são e-mails ou publicações em revistas científicas, os salons hoje são congressos e assim por diante. A ciência dessa época e a da nossa têm em comum o fato de serem, fundamentalmente, uma construção coletiva de conhecimento e não um trabalho individual. Muitas pessoas precisam estudar extensivamente um assunto, realizar experimentos diferentes, compararem suas teorias e resultados, testarem seus métodos até que uma “grande descoberta” seja feita. Essa “grande descoberta” carrega consigo o nome de muitos cientistas de áreas afins ou diferentes trabalhando juntos, muitos debates, sugestões, revisões e testes.

Em suma, ao contrário do que parece, a ciência não é feita por gênios brilhantes trabalhando sozinhos em seus laboratórios isolados, mas por pessoas como eu e você, curiosas para entender um fenômeno, testando diariamente suas ideias, mostrando para outras pessoas, frequentemente obtendo as respostas que não gostaria, experimentos que dão errado ou mesmo conclusões equivocadas, que são postas a prova pela ciência novamente até chegar numa teoria fundamentada. Uma grande descoberta é, na verdade, como o último tijolo do topo de um muro: não apareceu lá sozinho, foram necessários muitos outros tijolos desde a base, cada um se apoiando no anterior para chegar um pouco mais longe.

Lembra que até então ninguém sabia muito como a eletricidade funcionava? Então. Na época de Volta, Bassi e outros aqui citados ainda se buscava entender as causas e efeitos desse fenômeno que para nós é tão trivial. Muitos cientistas da área médica acreditavam que a eletricidade poderia curar diversos males — e isso de fato levou ao desenvolvimento de muitas coisas na medicina. Alguns acreditavam que existia algum tipo de “fluido elétrico” nos animais ou seres humanos, já que não se sabia ainda sobre condução elétrica — entre outras diversas teorias e linhas de raciocínio sendo testadas. A eletricidade era, na época, gerada em um aparato portátil chamado de eletróforo, frequentemente para a realização de experimentos em público. Alguns desses infames experimentos incluem os de Nollet, que suspendeu um garoto no teto por cordas de seda, um material isolante, e o eletrizou para demonstrar que as pessoas que encostassem nele levariam um choque ou ainda que ele atraía alguns objetos para si. Em outra ocasião, Nollet reuniu 200 monges de mãos dadas com pedaços de ferro entre si, em um círculo de mais de 1 quilômetro e descarregou uma bateria que deu choque em todos eles (pare aqui e tire um minuto para imaginar essa cena), para demonstrar a velocidade de propagação da eletricidade.

Bom, se você riu dos experimentos do Nollet e acha que teria feito algo similar se fosse nessa época, se também é uma pessoa curiosa perguntando como as coisas funcionam e gostaria de testar coisas que ninguém testou ainda para saber o que aconteceria, já sabe…

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Lanna Emilli

ATKINS, Peter, JONES, Loreta, Princípios de Química – Questionando a Vida Moderna e o Meio Ambiente. 5. Ed. Porto Alegre: Bookman, 2012.

FRIZE, Monique. Laura Bassi and Science in 18th Century Europe: The Extraordinary Life and Role of Italy’s Pioneering Female Professor. ISBN 978-3-642-38685-5 (eBook). Springer, 2013.

How a Battery Works https://www.science.org.au/curious/technology-future/batteries Acesso em 20 de abril de 2020.

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