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Os alquimistas estão chegando (V.1, N.3, P.1, 2018)

Tempo de leitura: 10 minutos
#acessibilidade Estudo de Michelangelo para a obra David (esquerda), escultura em mármore de David, Michelangelo, finalizada em 1504 (centro), detalhe das veias sobre o braço direito e mãos (direita).

Texto escrito por Victoria Baptista Dias Miotto e Ronei Miotto

Os conceitos de arte e ciência parecem contraditórios, no entanto, apresentam diversos pontos de convergência. Ao longo da história muitos artistas e cientistas misturaram teorias dessas áreas por diversos motivos. A ciência aproximou-se da arte no século XVI inicialmente para registrar experimentos e a metodologia empregada e, posteriormente, para sua divulgação: na medicina, havia o uso da arte do desenho para o ensino de anatomia e a arquitetura dos teatros foi utilizada para construir uma sala de aula própria para ensinar anatomia de forma prática. Até hoje a ciência usa a arte como veículo de disseminação de conhecimento nas comunidades. Leonardo da Vinci, por exemplo, foi um filósofo natural e como tal buscava entender o universo; refletia este fato em seus estudos voltados tanto a ciência quanto à arte. Por outro lado, os artistas apropriaram-se de teorias científicas para desenvolver as suas próprias.

Vsevolod Meyerhold, teatrólogo russo, ficou conhecido por ter desenvolvido a técnica da biomecânica para atores, viveu em uma época de transição entre o regime Czarista e Stalinista, sendo por isso muitas vezes perseguido sob a acusação de praticar uma arte antirrevolucionária. Para continuar a apresentar suas ideias Meyerhold, atuou algumas vezes sob o pseudônimo Dr. Dappertutto – nome associado à Comédia Dell’Arte. Sob esse pseudônimo, trabalhou como pesquisador e crítico, além de questionar o seu redor exatamente como um filósofo ou cientista deve fazer. Essa postura, adotada por artistas e cientistas, é a base do avanço do conhecimento humano.

Muitos métodos científicos também foram, simbolicamente, transpostos para o âmbito artístico, como é o caso da alquimia. A alquimia foi uma tradição de investigação sobre a natureza da matéria que visava modificá-la mediante práticas constantes que, de uma forma geral, tentavam conquistar o tempo. O exemplo mais conhecido é a tentativa de transformar metais não nobres em ouro. Antonin Artaud – ator, diretor e teatrólogo – afirmava que essa transformação, de elementos não nobres em ouro, deveria ser o teatro.

O teatro, segundo Artaud, teria um duplo, ou seja, uma cena oculta, que nos leva a um mundo além da metafísica. O teatro seria a figuração; o duplo a transfiguração; a alquimia seria um duplo espiritual e real. O teatro é uma peste que, ao mesmo tempo que contamina, cura. “[…] Entre o princípio do teatro e o da alquimia há uma misteriosa identidade de essência” (Artaud, 2006, p.49,). Nesse contexto, Artaud criou o que denominou Teatro da Crueldade – que quase batizou como Teatro Alquimia. A crueldade nos é apresentada no sentido de cru, sujo, mal, caos. Entretanto, segundo Artaud, sem caos, não há vida, ou seja, algo só é criado a partir da destruição. Do mesmo jeito é a alquimia: só se faz ouro em laboratório a partir da destruição de outro elemento.

Apesar de parecerem diametralmente opostas, ciência e arte têm muito em comum, desde as teorias até os métodos de desenvolvimento.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Leonardo da Vinci [Public domain], via Wikimedia Commons, By Jörg Bittner Unna [CC BY 3.0 ], from Wikimedia Commons, By Jörg Bittner Unna [CC BY 3.0 ], from Wikimedia Commons, respectivamente.

Notas sobre a “Arte como Veículo” e o Ofício Alquímico do Performer; por Cassiano Sydow Quilici; Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Campinas, SP, Brasil; http://www.scielo.br/pdf/rbep/v3n1/2237-2660-rbep-3-01-00164.pdf acesso em: 28 de junho de 2018.

Os alquimistas estão chegando, música de Jorge Ben Jor.

Notas de aula da matéria História do Espetáculo Teatral I e II, ministradas pelo professor Marcos Barbosa, na Escola Superior de Artes Célia Helena, durante o ano letivo de 2017.

John W.LiebM.E., Leonardo da Vinci—Natural philosopher and engineer, Journal of the Franklin Institute Volume 192, Issue 1, July 1921, Pages 47-68; disponível em
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0016003221900498, acesso em 08 de julho de 2018;

Carlos Haag, Entre a cátedra e o ateliê, Pesquisa Fapesp, Edição 198, ago. 2012;

Os estudos anatômicos e cirúrgicos na medicina portuguesa do século XVIII; Abreu, Jean Luiz Neves; Universidade do Vale do Rio Doce (Univale/MG) [DOWNLOAD] acesso em 08 de julho de 2018.

VANIN, J. A. Alquimistas e Químicos: o passado, o presente eo futuro. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2005.

Antonin Artaud, O teatro e seu duplo, Martins Fontes; Edição: 3ª edição, p. 49 (2006).

Para saber mais:

Julio Plaza, Arte/ciência: uma consciência, ARS (São Paulo) vol.1 no.1 São Paulo 2003, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-53202003000100004, acesso em 08 de julho de 2018.
Antônio F. Cachapuz, Arte e Ciência no Ensino de Ciências, INTERACÇÕES 31, PP. 95-106 (2014), disponível em http://revistas.rcaap.pt/interaccoes/article/viewFile/6372/4941 acesso em 08 de julho de 2018.

Outros divulgadores:

Projeto Arte e Ciência no Parque

Projeto Ciência, Arte e Magia

Ciência Viva

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1 comentário em “Os alquimistas estão chegando (V.1, N.3, P.1, 2018)

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