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Eugenia e a raiz histórica da beleza branca (V.3, N.6, P.7, 2020)

Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade Duas mulheres negras em uma cafeteria se olhando no espelho e sorrindo enquanto uma delas maquia a outra.

Em 2019, pela quinta vez nos 67 anos de história do concurso, a Miss Universo foi uma mulher negra. Zozibini Tunzi foi a primeira negra sul-africana a ser coroada no concurso (as duas outras sul-africanas coroadas eram brancas). Em uma das etapas do concurso, Zozibini defendeu que ensinemos às jovens que mulheres são os seres mais poderosos do mundo e que ocupem os espaços de liderança no futuro.

Por que falar de concursos de beleza em um blog de ciência? Veja bem, exatamente pelo mau uso da ciência na origem de concursos de beleza. Por mais que seja importante valorizar o tardio reconhecimento da beleza negra, precisamos reconhecer também como a origem de tais concursos se deu no cerne da eugenia.

Francis Galton (1822-1911) foi o inglês responsável pela distorção das ideias evolutivas de Darwin, seu primo, para que as opressões feitas ao longo do tempo com povos nativos em diferentes lugares do mundo fossem justificadas com um jeitão de ciência. Segundo Galton, a seleção natural poderia ser aplicada às sociedades.

A antropometria física, elemento central da Eugenia, era a ação de fazer medições nas pessoas, registrando distância entre olhos, tamanho do nariz e boca, tamanho da caixa craniana, etc. Coincidentemente (ou nem tanto), as medições corporais de pessoas da elite europeia revelavam maior simetria, inteligência, civilidade, valores morais aceitáveis.

As raças poderiam ser aprimoradas para atingir o “ideal” eugênico.

Diferente do que muita gente pensa, a Eugenia não foi um movimento restrito à Europa e fez sim bastante sucesso no Brasil, que fundou a Sociedade Eugênica em 1919. De 1929 a 1932, o Boletim de Eugenía publicou mensalmente as ideias galtonianas e as formas de aplicá-las no Brasil.

No segundo volume do tal boletim, podemos ler que o problema eugênico da população é que, devido à civilização, a seleção natural não era mais capaz de remover os elementos débeis da população, como nas demais espécies animais. Ora pois, seleção natural nunca fez isso! Galton não deve ter lido o livro do primo com tanta atenção.

A criança, vista como a entidade que representaria o futuro da raça, passa a ser o centro de investimentos, uma vez que a educação seria como a medicina terapêutica para melhorar a raça e a espécie humana, a começar pelas crianças. A escola, principalmente a escola pública, foi palco dos valores vigentes na sociedade nas primeiras décadas do século XX.

Em outro volume do Boletim de Eugenía, podemos ler que o objetivo da eugenia seria não apenas ter homens mais sadios e fortes, como também ter melhores cidadãos, com as altas qualidades exigidas pela cidadania. O eugenista que desejasse realizar seu ideal deveria, entre outras coisas, educar as pessoas para um novo senso de responsabilidade para a raça.

O corpo, como mais um dos objetos da cultura, pode ser aperfeiçoado. A educação física escolar, rígida e militarizada, para o exercício das virtudes é a ferramenta para o aperfeiçoamento dos corpos. Já os corpos que já seguissem o padrão da raça, poderiam ser celebrados. Concursos de beleza passaram a fazer parte do calendário escolar para comemorar as crianças robustas. Os concursos de beleza infantil foram também uma forma de disseminar os ideais eugênicos, pois grandes festas eram preparadas e havia comoção popular em tais eventos.

É nessa mesma época que se instituem os concursos de beleza feminina e de desempenho físico masculino. Mesmo quem não tinha os padrões da tal raça do futuro era cativado a se espelhar nos ideais eugênicos de beleza.

Voltando aos dias de hoje, já conseguimos perceber que a mídia vende um padrão de beleza muito restrito, não é mesmo? Talvez entender o mal que a eugenia causou nos ajude a gostar mais da imagem que vemos quando olhamos no espelho.

*Originalmente este post informava que Zozibini havia sido a primeira mulher negra a ganhar o concurso. A informação foi corrigida em 24/07/20.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Designed by prostooleh / Freepik

https://www.missuniverse.com/past-winners

Boletim de Eugenia. http://bndigital.bn.br/acervo-digital/Boletim-de-Eugenia/159808
volume 2 e volume 3

Cynthia Greive Veiga; Maria Cristina Soares Gouvêa. Comemorar a infância, celebrar qual criança? Festejos comemorativos nas primeiras décadas republicanas. Educação e Pesquisa, 26, 135-160, 2000.

José Gregório Viegas Brás. A higiene e o governo das almas: o despertar de uma nova relação Revista Lusófona de Educação, 12, 113-138, 2008.

Simone Rocha. Educação eugênica na constituição brasileira de 1934. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014.

Para saber mais:

https://almapreta.com/editorias/realidade/eugenia-por-um-brasil-mais-branco

https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/Biographies/Galton/

Outros divulgadores:

Vídeo sobre eugenia do canal Nerdologia no YouTube

Vídeo sobre racismo do canal Nerdologia no YouTube

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2 comentários em “Eugenia e a raiz histórica da beleza branca (V.3, N.6, P.7, 2020)

  1. Sunny,
    Obrigada pelo comentário. É sempre importante continuarmos aprendendo. De fato, a motivação foi a repercussão do evento e o tardio reconhecimento da beleza negra em meio a eventos globais, mas as informações estavam equivocadas. Corrigimos o texto e esperamos que você continue contribuindo conosco.
    Abs!

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