A Prática da Gestão na Formação dos Professores de Educação de Jovens e Adultos no Horário de Trabalho Pedagógico

Autora: Priscila Adriana dos Santos
Orientador: Daniel Pansarelli

AGRADECIMENTOS

À Universidade Federal do ABC.
à Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior – Capes.
Ao orientador Prof. Doutor DANIEL PANSARELLI,
pelo acompanhamento pontual e competente.
Aos professores do Curso de Pós-graduação.
A todos os que direta ou indiretamente
contribuíram para a realização desta pesquisa

À minha família, que me incentivou em todos os momentos e
ao meu filho, apesar da sua pouca idade e de sentir muito a falta da mãe
sempre tinha um sorriso nos momentos mais difíceis

Não é no silêncio que os homens se fazem,
mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão (Paulo Freire)

SUMÁRIO

  • 1- Introdução
  • 2- Capítulo I – Educação de Jovens e Adultos: Uma valorização Solidária de Todos e Todas
    2.1 – Educação Popular
  • 3 – Capítulo II – Atividade Prática: Projeto Solidário
    3.1 – Oficina de reciclagem
    3.2 – Oficina de Tear
    3.3 – Oficina de Reaproveitamento de alimentos
  • 4- Conclusão
  • 5 –  Referencias bibliográficas

1. INTRODUÇÃO

Na perspectiva de uma nova formação especializada para educadores de jovens e adultos, buscamos nas teorias e práticas de alguns teóricos da educação, como Paulo Freire, fazer uma relação com a economia solidária defendida por Paul Singer (2002). Trabalhamos com a expectativa de que nossos educadores consigam em suas práticas resgatar a dignidade individual sem se esquecer dos princípios básicos da solidariedade e da valorização do homem.

Inconscientemente o homem interage no meio nem sempre de uma forma prazerosa ou que proporcione satisfação pessoal sem estar vinculado com uma sociedade capitalista ou a uma educação que vise o capitalismo. Cabe à educação e aos educadores conscientizar:

A posição do homem diante do mundo natural e do mundo da cultura não é simplesmente passiva. No jogo de suas relações com esses mundos ele se deixa marcar, enquanto marca igualmente. Ao se estudar o comportamento do homem, a sua capacidade de aprender, a licitude do processo de sua educação, não é possível o esquecimento de suas relações com a sua ambiência. Disto ressalta a sua inserção participante nos dois mundos, sem a sua redução a nenhum deles (FREIRE, p,8-9, apud BEISIEGEL, 2010, p.29)

No entanto, essa mudança requer muitas etapas e a quebra de muitos paradigmas que estão inseridos há muito tempo dentro da educação. Por décadas a educação consciente ou inconscientemente vem produzindo cada vez mais uma cultura que valoriza algumas pessoas (privilegiadas dentro de uma cultura capitalista por possuírem mais recursos financeiros) e desvaloriza e ridiculariza uma grande massa (que normalmente não dispõe dos mesmos recursos), mas que estão inseridos dentro dessa sociedade e que de alguma forma modificam e deixam as suas marcas na mesma. Contudo, para que se consiga uma mudança significativa, muitos paradigmas culturais, assim como conceitos equivocados sobre hierarquia, precisam ser alterados. Conforme Freire (1959, p.102, apud BEISIEGEL, 2010, p.36) nos aponta,

Não será, porém, com essa escola desvinculada da vida, centrada na palavra, em que é altamente rica, mas na palavra “milagrosamente” esvaziada da realidade que deveria apresentar, pobre de atividades em que o educando ganhe experiência do fazer, que daremos aos brasileiros ou desenvolveremos neles a criticidade de sua consciência, indispensável a nossa democratização.

Para se resgatar o valor do homem e conscientizá-los da sua importância dentro de uma sociedade, precisamos no primeiro momento formar educadores críticos e com uma visão diferenciada da atual realidade, conscientizando–os da importância de que todos participem do processo educativo com o mesmo objetivo de emancipar o ser humano, como sujeito histórico-social (FREIRE apud BEISIEGEL, 2010). No entanto, para se atingir tal objetivo com competência e responsabilidade precisamos nos conscientizar dos conceitos de economia solidária, defendidos por Paul Singer (2002). Este mesmo autor nos diz que precisamos quebrar um monopólio que domina todos os saberes e hierarquias encontrados dentro do processo educativo. O professor não é o único ser detentor de todos os conhecimentos, normas e ou razões. Precisamos aprender a compartilhar experiências em comum para que todos participem de um processo em um nível de igualdade e principalmente sem nenhum tipo de preconceito.

Em resumo, quando se diz que o socialismo pressupõe o controle operário da produção, a idéia central é que a divisão do trabalho não terá de ser hierárquica, permitindo a todos a participação, em igualdade de condições no trabalho produtivo e no centro de tomadas de decisões (SINGER, 1999, p.189).

Para que todo esse processo de mudança aconteça da melhor forma possível, cabe à gestão da escola a necessidade de propiciar aos educadores, independente da modalidade a que pertençam uma formação adequada, transformando-os em professores especiais com capacidade de identificar em cada aluno suas potencialidades e de mostrar a todos que uma educação solidária pode modificar significativamente a vida das pessoas, permitindo a cada um reescrever sua história de vida. Dentro de uma autogestão todas as pessoas envolvidas no processo educacional precisam se conscientizar e desenvolver uma relação autêntica de diálogo na busca de um objetivo em comum, ou seja, o conhecimento. Dentro desta perspectiva, tiramos os educadores da forma passiva em que se encontram e os desafiamos a transformar os educandos em sujeitos criadores.  Uma das forma de justificar esse procedimento é que  sabemos que o educador desempenha o papel de agente promotor da mudança social em diversas modalidades de ensino. O educando possui técnicas democráticas de organização que podem transformar a sociedade e o educador é o agente de formação desse educando. Logo, não que dependa exclusivamente do educador a resolução do dilema educacional brasileiro, mas passa por ele a possibilidade de constituir instituições de ensino que venham a satisfazer ás necessidades escolares da nação, principalmente dos grupos excluídos do processo civilizatório.

Para que esse processo todo se desenvolva da melhor forma possível, nossos educadores precisam se conscientizar de que uma educação para a democracia começa nas práticas políticas, mas não se exaure nelas, a tarefa deles passa a ser a preparação de personalidades democráticas para uma nova ordem social, com capacidade de atender determinados fins práticos, tais como o desenvolvimento da consciência de afiliação nacional e dos direitos e deveres do cidadão – o que pressupõe a capacidade de pensamento autônomo de pessoas, valores e movimentos sociais (MATUI, 2001, p. 63, apud OLIVEIRA, 2010, p.57).

O educador não pode estar alheio ás mudanças e o que é muito importante precisa se colocar ao lado das mesmas – atento, porém, aos possíveis sentidos que ela pode ter – dentro e fora da escola. Visando em seu cotidiano desenvolver uma consciência política aguda e aguçada no sentido de desenvolverem uma nova prática, que vá além da escola.

Cabe ao professor reeducar-se a si próprio como condição para aperfeiçoar-se e pôr-se acima das contingências do meio. É tomando consciência da situação que os professores brasileiros poderão arcar com o extraordinário dever de advogado ex-oficio dos interesses educacionais, colocando em prática uma filosofia educacional, capaz de mudar a mentalidade do homem das novas gerações e re-educar as velhas. (FERNANDES, 1996, p. 122, apud OLIVEIRA, p.58-59).

Visando uma educação solidária, onde educadores e educandos precisam ter a consciência de que o resgate da valorização humana é primordial e que a educação é uma via de mão dupla, ou seja, que ninguém é detentor de todos os saberes precisamos buscar vários meios de transformar o educador em um ser especial, capaz de identificar o potencial de seus alunos e de mostrar que a educação é o caminho capaz de modificar significativamente a vida de uma pessoa, permitindo-lhe reescrever a sua própria história.

Para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização de adultos, demanda entre educadores e educandos uma relação autentica de diálogo. Aquela em que sujeitos do ato de conhecer se encontram midiatizados pelo objetivo a ser conhecido. Nesta perspectiva, portanto, os alfabetizandos assumem desde o começo da ação o papel de sujeitos criadores. Aprender a ler e escrever já não é mais memorizar sílabas, palavras ou frases, mas sim refletir criticamente sobre o próprio processo de ler e escrever e sobre o profundo significado da linguagem. (FREIRE, 1959, p 45 apud BEISIGEL, 2010, p.30).

Desta forma, entendeu-se que o trabalho da gestão escolar pode favorecer a implicação dos/as professores/as na reflexão de suas próprias práticas. Focou-se a articulação entre os conteúdos das disciplinas e a vida cotidiana dos estudantes, pois acreditamos que a dissociação entre teoria e prática é ilusória e prejudicial para a construção de visão crítica da sociedade. Com tudo isso procuramos objetivar, indicar e discutir a articulação entre os princípios da Economia Solidária e a concepção educacional de Paulo Freire como subsídio teórico e prático para o trabalho da gestão escolar.

Através de várias atividades de reflexão pedagógica que foram desenvolvidas nos HTPCs (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo), intuíamos fazer com que o educador se conheça mais intimamente e que desenvolva uma autoconfiança capaz de transmitir e adquirir conhecimento nas suas atividades teóricas e práticas do dia a dia.

Seguimos os princípios de Paulo Freire quando diz que o professor não precisa se igualar ao educando, pois é um ser teoricamente dominante de certa cultura, porém não nos esquecemos do principal, ou seja;

“já não se pode afirmar que alguém liberta alguém, ou que alguém se liberta sozinho, mas os Homens se libertam em comunhão”.
(Paulo Freire, 1987, p. 130)

Uso como metodologia desse trabalho, primeiro a caracterização de meu grupo de professores, ou seja, estão participando dessa formação 11 professores da educação de jovens e adultos desta unidade escolar, sendo 6 professoras e 5 professores entre primeiro e segundo segmento.

O estudo foi desenvolvido numa unidade escolar da rede municipal de São Bernardo do Campo e para tal, utilizamos a biblioteca da escola.

Trata-se de um estudo qualitativo com base na pesquisa-ação. Neste tipo de pesquisa, conforme nos aponte Thiollent (1986), tanto os pesquisadores quanto os envolvidos no processo de pesquisa participam ativamente na resolução de um problema. Para este mesmo autor, uma das áreas que a pesquisa-ação pode ser utilizada é a Educação, pois a implicação dos estudantes na resolução de um problema ou situação problemática estimula e facilita a aprendizagem.

Com base em nosso estudo sobre a formação de professores, fizemos duas atividades pedagógicas utilizando a pesquisa-ação. Nossas atividades eram realizadas no horário de trabalho pedagógico, com duas horas de duração cada, semanalmente. Em primeiro lugar, estudamos, sensibilizamos e trouxemos informações aos nossos educadores sobre economia solidária, defendida por Paul Singer através de textos e entrevistas com o próprio fazendo-se uma relação com as teorias defendidas por Paulo Freire e Florestan Fernandes. Após esse estudo os professores fizeram uma relação entre teoria e prática, trazendo o que foi estudado para a nossa realidade de sala de aula, aplicando e desenvolvendo com seus alunos uma atividade prática e solidária que vise à solução de um determinado problema detectado pelos estudantes. Acompanhamos os procedimentos de sala de aula e auxiliamos os educadores no sentido de proporcionar material, espaço apropriado, visitas agendadas á empreendimentos solidários e esclarecimentos ás prováveis dúvidas que apareceram no transcorrer das atividades.

Procuramos através de este procedimento desmistificar certos conceitos capitalistas e preconceituosos inserindo nas aulas novos conteúdos e debates que visaram o desenvolvimento da criticidade e o desenvolvimento de uma sociedade mais solidária.

Para analisar as informações obtidas nas atividades pedagógicas, articulamos e discutimos a relação entre a teoria apontada na introdução e prática educacional. Demos ênfase, sobretudo, aos aspectos relacionados ao nosso tema de estudo, ou seja, a mudança de postura e de visão do profissional da educação, dentro e fora da sala de aula, assim como a mudança de postura e opinião perante aos novos desafios.

2 – CAPÍTLO I
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA VALORIZAÇÃO SOLIDÁRIA DE TODOS E TODAS

Os primeiros boatos de uma educação que fosse direito de todos e de todas, aconteceram após a primeira semana de arte moderna e após alguns manifestos da escola nova [1] em meados da década de vinte. No entanto, o fato somente começou a se solidificar na década de trinta quando surgi um sistema de educação elementar no país para suprir as necessidades que se acumulavam devido à industrialização e a uma grande concentração populacional nos centros urbanos.

O Governo Federal impulsionou e traçou todas as diretrizes educacionais, incluindo e articulando esforços para que o ensino elementar também fosse desfrutado pelos adultos que não conseguiram se alfabetizar nos bancos escolares nas épocas propícias. Só na década de quarenta, com o fim da ditadura e com o país vivendo uma efervescência política de redemocratização, a educação de jovens e adultos consegue definir uma identidade juntamente com uma campanha de massa. A Campanha de Alfabetização de Adultos pretendia em uma primeira etapa, uma ação extensiva, que visava a alfabetização em três meses e todo o ensino primário condensado em dois períodos de sete meses. Nos primeiros anos os resultados foram bastante significativos, porém na década de cinqüenta os ânimos foram se dissipando e a Campanha de Educação de Adultos se extinguiu antes mesmo do término da década. As críticas quanto ao término da Campanha davam-se devido ás deficiências administrativas e financeiras assim como a falta de orientação pedagógica, pois os professores viam seus alunos analfabetos como pessoas incompetentes. Essa visão foi transformada antes do término da campanha, no entanto não evitou o seu fim.

Mais tarde em meados de 1956 e 1964, com a troca de governo e o advento da Industrialização no Brasil, novamente a limitação da educação tornou-se um problema mostrando-se a necessidade de se instruir o povo para a expansão do capital. Partindo-se desse contexto deu-se inicio ao Movimento de Educação de Base (MEB), um programa do Governo para alfabetização criado em 1961, pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Esse foi apenas o marco da educação popular no Brasil os anos seguintes seriam ainda mais fundamentais, pois foi exatamente nessa época que o educador Paulo Freire modificou definitivamente o caráter apenas alfabetizador da educação popular e passou a trabalhar com a conscientização crítica e libertadora do educando.

Com o golpe militar (1964), os programas de alfabetização e educação popular que se multiplicavam desde 1961, foram vistos como uma grave ameaça á ordem e seus defensores foram fortemente reprimidos. Nessa época o governo apenas permitia que os programas de alfabetização fossem ministrados aos adultos assistencialistas e conservadores até que em 1967 o Governo assume plenamente o controle do programa e cria o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização – como resposta ao Regime Militar e á grave situação de analfabetismo que o país enfrentava. Em 1969 houve uma campanha massiva de alfabetização e em 1970 o MOBRAL expandiu-se por todo o território nacional, diversificando a sua atuação. Das iniciativas que derivaram o Programa de Alfabetização a principal foi o PEI Programa de Educação Integrada que propiciava aos recém alfabetizados concluírem os seus estudos no antigo primário.

Em 1980, aos permanecer 16 anos em exílio, Paulo Freire volta ao Brasil e em 1989 assumi a secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo a convite da Prefeita Luiza Erundina, onde cria o MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos).

A principio a educação popular era entendida como uma modalidade, ou seja, uma extensão dos serviços da escola a aquelas pessoas que aparentemente não tiveram acesso á educação ou estava à margem dela. Após algum tempo é que se entendeu que a educação popular é um conjunto de lutas para que o povo consiga ter acessibilidade a essa modalidade de ensino.

A educação popular vinha sendo construída pelo conhecimento do cotidiano e entendida como o saber popular que não era considerado nos currículos escolares. Esse tipo de educação teve sua origem com a Companhia de Jesus, quando alfabetizaram índios, negros e mestiços plantando a semente da educação popular. Há quem discorde, no entanto neste contexto histórico qualquer educação voltada ao povo seria taxada de popular.

No século XX com o surgimento das escolas formais na América Latina que firmavam os princípios liberais de igualdade e justiça, apareceram os movimentos de trabalhadores, educadores, intelectuais e etc. no sentido de obrigar o Estado a se responsabilizar pela educação formal de todos e todas, com o apoio e interesse dos empresários que visam lucros com trabalhadores bem formados. A partir desse momento é que nasce a discussão de uma educação que atenda as necessidades do povo e que amplie a relação entre estado, sociedade e classes populares. Porém é apenas após a primeira guerra mundial (quando se verifica um número elevado de analfabetismo no país) que começa uma luta pela educação popular visando diminuir esses índices. Fica pautada aí uma divisão temporal bastante clara na educação: primeiro a divisão social do saber e a criação das escolas e depois a democratização do ensino no séc. XIX. Esse conceito é desenvolvido dentro da educação popular que busca melhorar as condições psicológicas e conseqüentemente materiais, através dos movimentos populares que visa uma conscientização em grupos de base, comunidades, etc.

Os primeiros escritos que trazem as novas visões de uma educação popular são os de Paulo Freire em “Prática cultural para a liberdade” onde se mostra uma nova responsabilidade não só para com a educação popular, mas também para com o bem estar dos indivíduos.

Segundo Paulo Freire a educação deveria em primeiro lugar transformar os sistemas tradicionais de ensino e reescrever, de forma coletiva, as práticas pedagógicas, repensando o sentido político da educação.

Pela primeira vez sente-se a necessidade de uma real transformação e a possibilidade de que se fortalecendo a educação popular conseguir-se-ia uma transformação da ordem social dominante. Esse novo horizonte de educação popular tira o sujeito do anonimato e o coloca no coletivo, interagindo com a transformação da história e da cultura do país.

Hoje a educação popular ultrapassou o nível da comunidade e dos bairros influenciando nos sistemas educacionais de ensino como podemos observar nas Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná. Esse documento traz as marcas de uma construção horizontal que abraçou todas as escolas e núcleos regionais de educação do estado e a polifonia onde se ecoa todas as vozes dos professores das escolas públicas. Esse documento tem o objetivo de traçar todo o chão da escola pública e de garantir a apropriação do conhecimento pelos estudantes da rede pública. Os mesmos princípios democráticos solicitam dos professores um engajamento na continua reflexão desse documento, para que através da criticidade constante e transformadora efetive-se nas escolas de todo o Estado um currículo dinâmico e democrático.

A educação popular não possui uma metodologia pronta e definida, pois parte-se do conhecimento de cada sujeito. Porém existem algumas diretrizes para começarmos e identificarmos o trabalho nas escolas e comunidades. Um deles é a cultura popular, onde se identifica os componentes da cultura que são dominados pelas ideologias capitalistas e a produção de uma cultura provinda dos mesmos. A outra é a influencia e a participação dos professores como possibilitadores do processo de transformação do sujeito popular em agente político.

Essa construção de conceito requer práticas pedagógicas para a construção do saber popular, para a relação educador/educando, para o levantamento das características de cada grupo e para a identificação dos educandos individuais ou coletivos.

A educação popular coloca o educador como um assessor, participante e comprometido. Esse conhecimento se concretiza em todas as situações onde, a partir de reflexões sobre a prática de movimentos sociais e movimentos populares, as pessoas trocam experiências, recebem informações, aprendem e se instrumentalizam. A educação popular não é uma prática pedagógica destinada apenas para um determinado grupo com práticas isoladas mais sim um trabalho coletivo em si, ou seja, é o momento em que a vivencia do saber compartilhado cria a experiência do poder.
As classes populares criam e recriam saberes relacionados ás suas experiências de vida e de contexto social onde estão inseridos. A educação popular valoriza e problematiza os conhecimentos populares sem subjugá-los pelos saberes eruditos, entretanto existe uma articulação entre um e outro.

É para contrariar a separação dos saberes que surge a educação popular, comprometida e participativa, orientada pela perspectiva da realização do direito de todos e todas. Essa educação é vista como um ato de conhecimento e transformação social, onde ao se  cruzar os muros escolares, busca o resgate da cidadania e a necessidade da inclusão em todos os sentidos. Por isso essa educação é direcionada ás camadas populares, voltando-se as suas necessidades e interesses dentro de uma sociedade desafiada pela globalização da economia, pela fome, pela pobreza, pelo tradicionalismo, pela modernidade e até pela pós-modernidade, pelo autoritarismo, pela dita democracia, pela violência, pela impunidade, pelo cinismo, pela apatia, pela desesperança, mas também pela esperança.

É baseada nessa realidade que encontramos a educação popular e o desafio de transformar uma cultura político-democratica e cidadã das classes populares. A Educação Popular visa à formação de sujeitos conhecedores e dominantes da consciência cidadã e a organização do trabalho político para a afirmação do sujeito.

“A consciência é uma das fundamentais tarefas de uma educação realmente libertadora e por isso respeitadora do Homem como pessoa.”
(Freire, 2002, pg. 45)

É uma estratégia de construção, onde o sujeito participa ativamente do redirecionamento da vida social, visando como resultado sua colocação dentro de um contexto de interesse.

A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade de ensino que compreende o Ensino Fundamental e Médio, praticada pelas escolas públicas e particulares, na tentativa de atender a jovens e adultos que por motivos diversos não conseguiram atingir a escolaridade na idade adequada.
No Brasil esse movimento consolidou-se sobre a influencia das idéias do educador Paulo Freire e a sua forte relação com a educação popular. O segmento é regulamentado pelo artigo 37 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (a LDB, ou lei nº 9394 de 20 de dezembro de 1996). É um dos segmentos da Educação Básica que recebem verba do FUNDEB.

Antes de nos aprofundarmos na Educação de Jovens e Adultos é necessário deixar claro que o Ensino Fundamental no Brasil é aquele segundo Projeto de Lei nº 3.675/04 que passa de oito para nove anos abrangendo a classe de alfabetização que antes não era obrigatória e recebia a nomenclatura de Educação Infantil. Segundo a Lei posterior 11.114/05 esse procedimento teve o prazo máximo de até 2010 para ser adaptada aos estados e municípios ficando o ensino fundamental caracterizado da seguinte maneira: a classe de alfabetização passa a ser o primeiro ano. A antiga primeira série o segundo ano. A antiga segunda série o terceiro ano e assim por diante fazendo a antiga oitava série equivaler ao nono ano. As mudanças envolvem todos os segmentos da educação remodelando-os da seguinte maneira: Creche de 0 á 3 anos. Infantil de 4 á 5 anos. Fundamental de 06 a 14 anos.

2.1 Educação Popular

Antes de continuarmos a falar sobre educação popular, precisamos definir o que seja popular. A concepção mais comum que se observa, inclusive nos dicionários é que popular é algo do povo, para o povo e que atende as necessidades do povo.

Usando a definição de Paulo Freire, entendo popular como sinônimo de “Oprimido”, ou seja, aquele que vive sem as condições elementares para o exercício de sua cidadania e que está fora da posse e uso dos bens materiais produzidos por uma sociedade.

Assim Educação popular é aquela que tem como teoria o conhecimento baseado na realidade, com metodologias incentivadoras á participação a ao empoderamento das pessoas permeando por uma base política estimuladora de transformações social e orientada por anseios humanos de liberdade, justiça, igualdade e felicidade.

Observando-se os educadores e todo o processo em que estão envolvidos, conseguimos verificar que os mesmos pensam a educação em domínios restritos como a universidade, o ensino fundamental, o ensino médio, a alfabetização, a educação de jovens e adultos. Muitas vezes esses domínios são determinados socialmente, quando deveriam atender as necessidades do contexto, do cotidiano do aluno, enfim da cultura do educando.

Pensar em educação popular é repensar a educação. A educação quando vista no panorama social é uma condição permanente de recriação da própria cultura sendo por isso a razão da dominação. Já no panorama individual a educação é a condição da criação do individuo e a relação de saber das trocas entre as pessoas. Portanto aprender é formar-se pessoa fazendo a passagem da natureza para a cultura.

Segundo a história, foi criado um saber de todos que se tornou sábio e erudito, no entanto com o passar dos tempos esse saber erudito se tornou centralizado e associado a especialistas da educação que vê o conhecimento popular como difuso, ou seja, reflexo interior da vida subalterna que num longínquo sentido transmitem seus conhecimentos através das classes populares ou comunidades. Com essa grande separação de saberes consegue-se a marginalização dos oprimidos, das classes subalternas de uma sociedade desigual.

Visando acabar com esse tipo errôneo de cultura surge a Educação Popular, que vem definitivamente contrária aos paradigmas já existentes e comprometida, na perspectiva da realização do direito de todos e todas. Essa educação tem como principal característica a valorização do saber da comunidade em sua matéria prima. Assim aprende-se á partir do conhecimento do outro e se ensina á partir de palavras e temas geradores do cotidiano deles.

O processo de ensino-aprendizagem é visto como um ato de conhecimento e transformação social, pautado em uma perspectiva política. Esse processo ganha um grande destaque perante á Educação Tradicional, pois não é imposta e se baseia nos saberes já adquiridos incentivando-se o diálogo. Diferencia-se também da Educação Informal porque possui uma formação horizontal entre educador e educando. Sendo assim a Educação Popular visa a formação de sujeitos com um maior conhecimento e consciência cidadã para que possam redirecionar sua vida social objetivando trabalhar com as necessidades populares.

O resultado desse tipo de educação pode ser visto nos sujeitos que interagem bem em contextos de interesse após terem sido trabalhados em suas expectativas como acontecem com trabalhadores rurais, assentamentos, instituições, aldeias indígenas e na educação de Jovens e Adultos. Esses espaços atualmente se mostram mais propícios a esse tipo de educação, contudo, nos outros segmentos também aparecem à necessidade natural de se trabalhar com a Educação Popular para garantir uma discussão mais popular e crítica como se percebe em determinadas abordagens de seminários e discussões que aparecem nos Parâmetros Curriculares Nacionais- PCNs.

A educação popular contribui com movimentos sociais abrangendo a discussão dos direitos, diferenças e compromissos sociais (inclusive na rede pública), buscando proporcionar uma educação comprometida e participativa na perspectiva da realização dos direitos. Essa educação, no entanto, não é fria e imposta e sim baseada no saber da comunidade e do diálogo. Não é formal, pois busca a formação de um sujeito com conhecimentos e consciência cidadã assim como a organização do trabalho político para a afirmação do mesmo.

Educação Popular é uma estratégia de construção da participação popular para o redirecionamento da vida social.

Cabe então agora direcionarmos o nosso olhar para esse educador que estará inserido dentro desse processo, tentando levantar características de seu perfil e quais serão seus desafios e atribuições dentro desse processo pedagógico. Devemos lembrar que após levantarmos as características pessoais e suas formações profissionais estaremos lidando com um indivíduo com saberes específicos, ou seja, saberes distintos dos alunos o que não significa um maior ou menor valor dos mesmos e sim uma aceitação de que são saberes próprios das experiências do educador. A esse respeito Freire destaca:

“A experiência de estar por baixo levam os alunos a pensarem que se você é um professor dialógico, nega definitivamente as diferenças entre eles e você. De uma vez por todas, somos todos iguais! Mas isso não é possível. Temos que ser claros com eles. Não. A relação dialógica não tem o poder de criar uma igualdade impossível como essa. O educador continua sendo diferente dos alunos, mas – e esta é, para mim, a questão central – a diferença entre eles, se o professor é democrático, se o seu sonho político é de libertação, é que ele não pode permitir que a diferença necessária entre professor e os alunos se torne antagônica. A diferença continua a existir! Sou diferente dos alunos! Mas se sou democrático não posso permitir que essa diferença seja antagônica. Se eles se tornam antagonistas, é porque me tornei autoritário.” (Paulo Freire, 1986, p. 117)

Com isso fica claro que o educador popular não é aquele que transmite informações descontextualizadas e também não se restringe a um facilitador de aprendizagens. Entre um contexto e outro, compreende-se que o educador popular é aquele sujeito indispensável ao diálogo, levando os educandos a reflexão, articulando a ação e tornando-se a práxis.

A partir dessa leitura diferenciada da realidade, de 2003 á 2005, percebeu-se que são freqüentes duas imagens de educadores: o educador como ponte e o educador como mediador.

O primeiro associa o educador ao papel de apoiador, ou seja, a passagem entre conhecimento popular e acadêmico, que subsidia a ação dos sujeitos-educandos, ao mesmo tempo em que facilita reflexões ou é facilitador de aprendizagens centrando o processo educativo no educando e delegando ao educador a função de motivar, estimular e deixar fluir as motivações desse aluno.

A segunda imagem é mais recorrente e mais diversificada. Assim nos conduz a indagar: Mediador de quê/quem? São variadas as respostas, porém há maior ênfase ao mediador do processo dialógico onde os conhecimentos são construídos pelos grupos, ou seja, educador e educando conjuntamente.

Sendo assim esse educador que vem aos grupos populares com um determinado saber tem a atribuição de contribuir com uma teoria própria. É mediador da problematização junto com os educandos e ao mesmo tempo mediado pela ação-reflexão-ação. Assim todos os sujeitos se transformam porque tanto educador como o educando se mobilizam por conta dos próprios saberes inseridos em sua própria realidade.

O educador popular, não precisa necessariamente ser um militante, mas existem algumas características que lhe são extremamente marcantes como: Compreender a realidade para estabelecer um grau de relação com o universo simbólico do educando; Distinguir quem são os jovens e adultos no universo existencial e o seu lócus social; Deve entender a dinâmica específica do processo ensino aprendizagem que envolve a linguagem e a emocionalidade.

O objetivo comum do educador popular é fortalecer as classes populares transformando-os em sujeitos produtores e divulgadores dos próprios conhecimentos, desencadeando desta forma uma transformação social. Para que isso aconteça a formação dos educadores acontece conforme ele vai conhecendo os seus educandos, através de um diagnóstico participativo, isto é, do dialogo buscado recuperar a oralidade e a historia de vida de cada um. Por tanto educador e educando se transformam mutuamente, chegando ao ponto de não mais se afirmar que alguém liberta alguém ou se liberta sozinho e sim que os Homens se libertam  conjuntamente.

Em meados dos anos oitenta, Paulo Freire começa então a discutir a Economia Solidária defendida por Paul Singer como uma prática pedagógica. Nessa ocasião Paulo Freire elaborou uma introdução para esse programa, onde o mesmo demonstra uma extraordinária capacidade de desvendar o potencial dessa nova maneira de praticar a economia.

Esse programa representa algo de novo e esperançoso para o futuro da Educação Popular e para uma nova ordem econômica mundial. Desde então surge a visão de uma economia que constitui, na verdade, um projeto de sociedade que implica na concepção de novos valores, acentuando o papel da educação popular em seu caráter participativo, contestatório, alternativo e transformador.

A ligação umbilical existente entre Educação Popular e Economia Solidária se deve ao fato de que ambas se apóiam na aquisição de novos valores que aplicados á atividades econômicas, exigem a invenção de novas práticas. Cabe a Educação Popular divulgar essas práticas com o intuito de difundir entre aqueles que são excluídos da sociedade capitalista uma visão de novas oportunidades de inclusão social e a probabilidade de um novo espaço econômico.

Ao discutirmos economia solidária em toda a sua complexidade e diversidade podemos resumi-la nas seguintes palavras: Trata-se na verdade de uma desmercantilização do processo econômico introduzindo-se um programa básico de construção de um novo socialismo. Essa desmercantilização não significa um desvalorizamento da moeda local ou o fim de um mercado capitalista, mas sim a eliminação do lucro como categoria

“A Economia Solidária é um ato pedagógico em si mesmo, na medida em que se propõe uma nova prática social e um entendimento novo dessa prática. A única maneira de se aprender a construir a Economia Solidária é praticando-a. Mas seus valores fundamentais precedem a sua prática.” (Paul Singer, 2005, p. 19)

Na Educação de Jovens e Adultos existe uma alternância entre estudo e trabalho que se constitui em toda proposta pedagógica. Entendemos que todos e todas não podem parar de trabalhar para estudar. Sendo assim não basta apenas promover a conscientização e a organização popular, é preciso associar á consciência crítica e organizativa ao produto, ao trabalho e á renda.

Atualmente a Economia Solidária se constitui num fenômeno muito mais complexo e nas últimas décadas vem se estruturando e se constituindo numa força real e alternativa aos modelos capitalistas.

Os pensamentos desses dois grandes estudiosos (Paulo Freire e Paul Singer) têm inspirado o que hoje chamamos de Economia Popular da Solidariedade ou Economia da Solidariedade, sob uma nova racionalidade chamada de Fator C, ou seja, no nosso idioma como em outros idiomas vários temas implicados com mudanças de comportamento social e pessoal começam com a letra C: cooperação, colaboração, comunicação, companheirismo, comunidade, etc. Na base desses novos comportamentos, tem-se a solidariedade como fator humanizante comum, tanto á economia popular, como á organização e educação popular comunitária. No entanto, a Tecnologia Social, que é um conceito que incorpora traços importantes do sistema segundo pensamentos de Paulo Freire, pois compreende produtos, técnicas e metodologias desenvolvidas na integração com a comunidade por efetivas soluções de transformações sociais tem se mostrado uma proposta inovadora de desenvolvimento, considerando a participação coletiva em seu processo de organização, desenvolvimento e implantação. Baseando-se assim nessa disseminação de soluções para problemas relacionados á alimentação, saúde, educação, habitação, renda, recursos hídricos, energia, meio ambiente, dentre outras demandas.

As Tecnologias Sociais podem combinar saber popular, organização social e conhecimento técnico-científico, levando-se me consideração que as soluções sejam efetivas e reaplicáveis, propiciando desenvolvimento social em larga escala.

Uma das características mais marcantes da Economia Solidária é o seu sistema de gestão, nitidamente distinto no setor privado capitalista que está ligado intimamente á aquisição de capital e do lucro ao passo que na gestão solidária está ligada á melhoria de qualidade de vida dos associados ao empreendimento, ao modo de vida sustentável e ao bem viver da população.

Segundo Singer a Economia Solidária é um modo de produção cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito á liberdade individual. Na empresa capitalista os funcionários são descriminados por valores salariais. Na empresa solidária os sócios não recebem um salário fixo e sim valores iguais dependendo da receita obtida no mês pela produção.

Por isso na autogestão, a formação para o gestor não é um processo educativo restrito ao setor administrativo. A formação para a gestão de empreendimentos autogestionários dirige-se ao conjunto de pessoas ligadas ao empreendimento, embora tenha-se que exigir formação específica e profissional para certos quadros institucionais de acordo com as suas responsabilidades.

Trata-se de uma formação para a gestão colaborativa e o trabalho de equipe.

Com a autogestão todos participam das decisões independente da função que ocupa Por isso todos os membros de um empreendimento solidário precisam ser formados para a gestão coletiva do próprio empreendimento. Todos precisam de uma nova formação já que a forma como a economia capitalista se organiza não oportuniza uma cultura de decisão coletiva.

“A prática da economia solidária exige que as pessoas que foram formadas no capitalismo sejam re-educadas (…). Essa re-educação coletiva representa um desafio pedagógico pois se trata de passar a cada membro do grupo outra visão de como a economia de mercado pode funcionar e do relacionamento cooperativo entre sócios, para que a economia solidária dê os resultados almejados. Essa visão não pode ser formulada e transmitida em termos teóricos, apenas em linhas gerais e abstratas. O verdadeiro aprendizado dá-se com a prática, pois o comportamento econômico solidário só existe quando é recíproco. Trata-se de uma grande variedade de práticas, de ajuda mutua e de tomadas coletivas de decisões, cuja vivencia é indispensável para que os agentes possam aprender o que deles se espera e o que devem esperar dos outros.” (Paul Singer, 2005, p. 16)

Nesse sentido pode-se afirmar que a Economia Solidária é uma práxis eminentemente pedagógica e sendo assim temos a necessidade de construir uma pedagogia da economia solidária.

As pedagogias clássicas não dão conta dessa nova realidade econômica e política que esta cada vez mais forte se constituindo hoje. O ensino da autogestão é um exemplo prático e que precisa ser construído com práticas. Aqui vale a advertência de Paulo Freire quando ele diz que ninguém ensina nada a ninguém e sim que aprendemos em comunhão, ou seja, não se trata de se oferecer cursos avançadíssimos e sim de aprendermos através da troca de experiências reais.

Baseando-se nesse principio é primordial que exista entre educador e educando um diálogo verdadeiro onde se possam firmar bases solidadas de solidariedade e cooperativismo. A economia solidária só pode ser considerada como tal se seus integrantes a entenderem como uma economia não capitalista.

Essa economia é um ato de vontade de construir através de lutas e de outras formas uma sociedade que não será a ideal, mas melhor do que aquela que conhecemos e que estamos inseridos. Será um processo revolucionário e por isso nos permitirá construir uma sociedade da forma como desejamos.

Para que isso aconteça seus empreendedores precisam de uma formação política, pois esse tipo de economia propõe uma forma de vida sustentável que concretiza a utopia socialista, ou seja, uma sociedade de iguais e diferentes. Não se conhece uma economia solidária sem uma cultura solidária. As pessoas precisam estar convencidas de que aquele é o melhor caminho para todos e todas e assim passem a cultivar entre elas uma relação de reciprocidade, de respeito, de busca, de entendimento procurando conjugar igualdade de direitos e deveres.

Porém, não se pode pensar em uma cultura de solidariedade sem a formação para a sensibilidade. Precisamos dar ênfase a diversidade cultural compartilhando-a, valorizando-a sem estabelecer uma relação de hierarquia entre eles. O desenvolvimento humano é o resultado de um trabalho em comum da educação e da cultura. Não podemos confundir solidariedade com piedade por isso ela precisa ser emancipatória. Emancipar significa basicamente ‘tirar as mãos de”. Não basta “sofrer com”, é preciso “estar com”, compartilhar.

É exatamente isso que Paulo Freire (1981) afirmou na dedicatória de seu livro mais conhecido “Pedagogia do Oprimido”

“Os esfarrapados do mundo e a aqueles que com eles sofrem, mas, sobre tudo, com eles lutam.” (Paulo Freire, 1981, Pedagogia do Oprimido)

A Economia Solidária hoje, mais que um modo de produção é um modo de vida, obrigando-nos a ter outro olhar sobre as pessoas e fazendo-nos pensar e decidir a favor de todos e todas. O Objetivo principal da Economia Solidária é o de apoderar pela dissolução do poder que existe em todo ser humano, fazendo-os assim reivindicar seus poderes, conquistar mais autonomia e “ser mais”.

Paulo Freire nos ensinou que todo conhecimento nasce da ação-reação-ação, mas para produzir conhecimento não basta somente agir. É preciso refletir e sistematizar as práticas. Nesse processo o diálogo entre as partes que ensina e aprende é fundamental e a cultura do educando é o elemento central dessa metodologia. Deve-se saber e valorizar os conhecimentos dos educandos.

Sendo assim a formação de educadores populares e de agentes de desenvolvimento local e solidário tornou-se realmente um campo relevante de atuação da formação de Jovens e Adultos e sua ação vai além do âmbito de um simples projeto para se constituir em uma política mais abrangente.

O movimento de uma nova economia não está separado de uma série de movimentos sociais e populares, que de diversas formas tem lutado por um mundo possível e reinventando modos de vida sustentável, produtivos e justos.

É nesse contexto mais abrangente que aparecem novos métodos, traduzidos por novas expressões tais como a Tecnologia Social que é um conceito amplo e pode compreender tanto produtos quanto técnicas com metodologias reaplicáveis desenvolvidas em interação com a comunidade.

E não podemos falar de formação sócio-profissional em economia solidária sem mencionar a importante contribuição da pedagogia da alternância, onde basicamente se valoriza as experiências dos alunos conciliando estudo e trabalho.

Na Pedagogia da Alternância a qualificação sócio-profissional é entendida também como uma estratégia de enfrentamento do desemprego e da exclusão social.

A sistematização está sempre associada a avaliação da eficácia do sistema e da  concepção da formação em relação aos seus fins e objetivos, sendo assim de suma importância.

O mundo do trabalho hoje está exigindo cada vez mais uma formação geral dos trabalhadores. Por isso toda classificação profissional deve também dar uma qualificação social onde se inclui habilidades básicas e especificas.

Mas existem ainda outros obstáculos que precisam ser superados, ou seja, o pré conceito. A economia solidaria ainda é entendida, muitas vezes, como um setor a parte, dependente do estado, subordinado e residual da economia global e não como uma alternativa global.

Ela é considerada muitas vezes como uma economia caritativa, filantropia, destinada apenas aos excluídos. Cabe a economia capitalista difundir esse conceito sobre a economia solidária para desqualificá-la como alternativa economicamente viável.

No entanto, outra economia já esta acontecendo em múltiplas manifestações: cooperativa de produção de trabalho, de consumo solidário, bancos comunitários, fundos solidários, etc. todas elas tendo como objetivo combater a exclusão social, a desigualdade e contribuir para a valorização pessoal.

“A posição do Homem diante dos aspectos do mundo natural e do mundo da cultura não é simplesmente passiva. No jogo de suas relações com esses mundos ele se deixa marcar, enquanto marca igualmente. Ao se estudar o comportamento do Homem, a sua capacidade de aprender, a licitude do processo de sua educação, não é possível o esquecimento de suas relações com a sua ambiência. Disto ressalta a sua inserção participante nos dois mundos, sem a sua redução a nenhum deles.” (Paulo Freire, PP 8 – 9)

O cooperativismo chegou ao Brasil no século XX através dos imigrantes europeus. Tomou como sua principal forma as cooperativas de consumo e agrícola. Após a crise de 1980 e 1990, quando acontece a desindustrialização do país, acarretando a grande massa de desempregados e acentuada exclusão social, a economia solidária volta com bastante força a realidade dos brasileiros. Ela assume em geral a forma de cooperativa ou associação produtiva, sob diferentes modalidades, mas sempre autogestionáveis.

Em 1980, a Cáritas entidade ligada ao CNBB financiou milhares de pequenos projetos denominados PACs (Projetos Alternativos Comunitários) onde uma boa parte destes projetos destinava-se a gerar trabalho e renda para os trabalhadores da periferia e da zona rural e algumas acabaram se transformando em unidades de economia solidária.

Outra modalidade foi quando aconteceu a tomada das empresas falidas ou em vias de falir pelos seus trabalhadores com o intuito de se defender de uma hecatombe industrial preservando os seus postos de trabalho e automaticamente se transformando em patrões.

As ITPCS (Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares) são outro componente da economia solidaria no Brasil, pois são multidisciplinares, integradas por professores, alunos de graduação e pós-graduação e funcionários pertencentes as mais diversas áreas do saber. Elas atendem grupos comunitários que pretendem trabalhar e produzir conjuntamente dando-lhes toda a formação necessária para que seu empreendimento seja concretizado.

Atualmente a maioria dos empreendimentos solidários é de caráter intersticial, surgiram como respostas ás crises nas empresas, ao desemprego e á exclusão social. No Brasil a reinvenção da economia solidária é recente, mas apresenta uma grande variável criativa e inovadora orientando a inversão de centenas de indústrias em cooperativas e o aumento de incubadoras para a organização das comunidades periféricas. Cabe á escola e á educação acabar com determinados paradigmas e a divulgação de uma cultura equivocada e capitalista, abrindo assim o olhar de todos e todas para uma probabilidade de vida melhor e a recuperação da auto-estima tão massacrada pelo sistema capitalista.

3. CAPÍTULO II
ATIVIDADE PRÁTICA : PROJETOS SOLIDÁRIOS

  • Oficina de Reciclagem
  • Oficina de Tear
  • Oficina de Reaproveitamento de Alimentos

4- CONCLUSÃO

Após um ano de estudos sobre as teorias de Paulo Freire e de Paul Singer, conseguimos realizar alguns trabalhos, como foram exemplificados á cima, envolvendo seriedade, solidariedade, interesse e principalmente compromisso ao mostrar aos alunos algumas probabilidades que existem para se sobreviver dentro de uma sociedade capitalista. Os resultados foram surpreendentes em todos os sentidos e proporcionaram aos nossos alunos e professores um desenvolvimento bastante significante em suas autoestimas. Ainda existem muitos pontos a serem abordados.

Concordamos como um todo, (autogestão e professores), que muita coisa ainda precisa ser modificada na rotina dos nossos alunos e em 2012 começamos os nossos trabalhos focados nas experiências passadas e nas novas que pretendemos desenvolver com o passar do ano. Essas mudanças precisam começar no sistema educacional como um todo e cabe a nós tentarmos mostrar esse novo horizonte a todos e todas.

Durante anos a educação vem sofrendo mudanças e conflitos em busca de novos rumos. Não foram poucas as lutas de teóricos como Paulo Freire, que possuíam uma visão muito ampla sobre o que é realmente educação. No entanto, ainda precisamos evoluir muito nesse sentido e nos conscientizarmos que conseguimos viver sem esse capitalismo abusivo que nos ronda desde o momento da concepção.

Alguns novos horizontes estão sendo traçados, a passos curtos, porém bastante significantes com a mudança de algumas posturas e o surgimento de polos de economia solidária nas nossas muitas comunidades. Basta apenas o povo se conscientizar que é capaz de desenvolver outras culturas econômicas e acreditar em seu potencial.

5 –  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEISIEGEL, C.R. Paulo Freire. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.
OLIVEIRA, M.M. Florestan Fernandes. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.
SINGER, P. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002.
THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1986.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 5ª Edição, 2011.
FREIRE, P. Pedagogia da Esperança – Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra – 17ª ED. 2011.

 

  1. [1] Nos Manifestos de uma escola nova se defendia uma educação pública, laica, gratuita e obrigatória, onde o Estado deveria proporcionar uma escola de qualidade concretizando-se assim o direito á educação e tornando-a obrigatória. Os pioneiros se pronunciavam a favor de uma escola mista e questionavam os princípios da educação católica, por isso a escola seria laica para se dar ênfase as questões sociais no lugar das religiosa.