Cupins: Audição além do alcance

A cultura pop está repleta de personagens que, na ausência da visão, desenvolveram outros sentidos de maneira exacerbada, sendo inclusive lutadores habilidosos, como o Demolidor, a Arya Stark, o Neo de Matrix. Mas o que isto tem a ver com os cupins?

Bom, caso não saiba, os soldados e operários da maioria das espécies de cupins não possuem olhos, ou seja, são cegos! E, mais ou menos como os personagens de anime, ao longo de milhões de anos de evolução eles desenvolveram muito bem alguns outros sentidos e órgãos especializados. Aqui iremos falar de uma forma de percepção do mundo e comunicação bastante peculiar que os cupins possuem, na qual eles utilizam vibrações para perceber seus inimigos, saber quanta comida possuem, e ainda bater um papo com seus companheiros de colônia!

Uma personagem da cultura pop que tem habilidades parecidas é a Toph da série animada Avatar, que utiliza sua capacidade de dobrar a terra para perceber as mínimas vibrações ao seu redor, permitindo que ela crie uma imagem mental do mundo à sua volta, e até perceba movimentos dos seus inimigos.

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Os principais “inimigos” dos cupins são as formigas. Esses dois grupos vivem em uma guerra que dura, literalmente, milhões de anos, e aparentemente os cupins desenvolveram a capacidade de perceber seus inimigos assim como a Toph!

Em um estudo realizado na Austrália, os cientistas conseguiram mostrar que os cupins da espécie Coptotermes acinaciformis conseguem detectar o seu maior predador, a formiga Iridomyrmex purpureus, através dos sinais acústicos que elas emitem (ou seja, escutando os passos delas!). Assim, após perceberem que uma inimiga está nas redondezas, eles conseguem evitar o contato direto, que muito provavelmente acarretaria a morte daquele indivíduo.

Para extrapolar para outras espécies, esses mesmos pesquisadores mediram a intensidade das vibrações geradas por diferentes espécies de cupins e formigas, e observaram se havia alguma relação entre as vibrações com o comportamento observado. Eles constataram que os cupins têm “passos leves”, isto é, seus passos geram vibrações até 100 vezes menos intensas em comparação com os das formigas!

Ou seja, é bem provável que não apenas o Coptotermes acinaciformis, mas todos os cupins se aproveitem destes “passos barulhentos” de suas inimigas para ganhar vantagem e evitá-las, ou pelo menos para terem tempo de se planejarem e se defenderem! Acho que a Toph estaria orgulhosa!

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Mas não é só para o combate que os cupins utilizam as vibrações. Em algumas espécies, denominadas cupins de madeira seca, toda a colônia vive dentro de um pedaço de madeira, que é, ao mesmo tempo, sua casa (o ninho) e sua única fonte de alimento. No senso comum ganharam a fama de não serem muito seletivos, e de que seriam devoradores vorazes de qualquer tipo de madeira, mas sabemos hoje que eles escolhem seu alimento (e sua casa) cuidadosamente. Mas como eles fazem isso?

O experimento que elucidou tal questão, também realizado por cientistas australianos, consistiu em observar se o tamanho do alimento era usado como critério pelos cupins e, em paralelo, mediram as vibrações geradas por eles durante a exploração da madeira. A conclusão da pesquisa foi que os cupins, por meio de ondas vibracionais ressonantes, conseguem avaliar o tamanho dos pedaços de madeira! E, desta forma, tomar decisões de qual delas irá explorar.

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Além disso, esses cupins utilizam esta informação (o tamanho da madeira onde estão), para saber o momento ideal de “abandonar o barco”. Os indivíduos dessas espécies possuem uma plasticidade de desenvolvimento muito grande, e quando a colônia percebe que seu alimento (e consequentemente sua casa) está acabando, os operários sofrem mudas para se transformarem em alados, que irão voar e iniciar outras colônias.

Por último, como dito anteriormente, outro possível uso das vibrações é na comunicação entre indivíduos da mesma colônia. Quando existe alguma ameaça por perto, como a presença de predadores, ou mesmo um indivíduo infectado com alguma doença (vejam esse e esse textos) os soldados e operários irão avisar a colônia, e para isso os indivíduos mais próximos da ameaça vão começar a vibrar o corpo e/ou bater a cabeça no ninho, ou em outro objeto próximo, de forma a produzir vibrações que serão propagadas para os outros membros da colônia. A mensagem é clara: “perigo”!. Depois disso soldados e operários serão recrutados para combater a ameaça, ou no caso de cupins infectados, esses serão isolados. Em vez de “toquem as trombetas!”, os cupins falam “batam as cabeças!”.

Como viram, os cupins podem usar as vibrações para várias funções! Mas diferentemente dos personagens da cultura pop, os cupins não precisam ser expostos a material radioativo (como é caso do personagem Demolidor) para poderem desenvolver suas habilidades. Pelo contrário, o uso das vibrações para perceber seus inimigos, avaliar seu alimento e se comunicar, foram selecionados ao longo de milhões de anos de evolução. Por isso, o leque de habilidades dos cupins é bem amplo, sabemos de algumas como o olfato e a comunicação química, mas também existem outras que, muito provavelmente, ainda desconhecemos. Quais serão os outros “super poderes” desses pequenos animais?


Texto por Gabriel Olivieri
Publicado originalmente em 03/04/2020


Referências

Evans, T. A., Lai, J. C., Toledano, E., McDowall, L., Rakotonarivo, S., & Lenz, M. (2005). Termites assess wood size by using vibration signals. Proceedings of the National Academy of Sciences, 102(10), 3732-3737.

Oberst, S., Bann, G., Lai, J. C., & Evans, T. A. (2017). Cryptic termites avoid predatory ants by eavesdropping on vibrational cues from their footsteps. Ecology letters, 20(2), 212-221.

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