Cupinzeiros são refúgios para pequenos animais durante queimadas no Cerrado

Essas estruturas ajudam a manter a diversidade do Cerrado durante eventos de grande estresse para o ambiente

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Dois ou mais organismos possuem uma associação simbiótica quando a interação entre eles é de longo prazo e obrigatória. Essa interação pode ser benéfica para ambas as espécies envolvidas, ou não. Um tipo bem comum de simbiose ocorre entre nós, humanos, e vários microorganismos que vivem em nosso corpo!. Na natureza, existe uma infinidade de interações entre animais ou plantas com microrganismos, como bactérias e protistas por exemplo.

Mas os cupins, como organismos sociais, possuem além de microrganismos simbiontes em seus intestinos, um outro tipo de simbiose, chamada “macro-simbiose”. É muito comum que cupinzeiros sejam ocupados por outras espécies, e esse convívio entre os cupins “hospedeiros” e outros animais “inquilinos” resultaram em interações bem específicas e interessantes, como aranhas que não se alimentam dos cupins da colônia e de formigas que protegem os cupinzeiro em que estão. Esses animais que vivem em simbiose com os cupins são chamados de termitófilos (do latim, termes = cupim; do grego, filia = simpatia, atração; ou seja, termitófilos são animais que tem “atração” por cupins).

E esse tipo específico de interação é que chamou a atenção do pesquisador Og DeSouza, da Universidade Federal de Viçosa. Em uma de suas linhas de pesquisa, o Prof. Og estuda a ocupação simultânea de cupinzeiros por outros animais, como formigas, besouros, lacraias, aranhas e, inclusive, outras espécies de cupins – diferentes daquela espécie que construiu o cupinzeiro.

DeSouza e sua equipe bolaram um experimento para compreender melhor como funcionam algumas dessas interações entre os cupins, os cupinzeiros, os termitófilos e um componente ambiental comum no bioma Cerrado, as queimadas. O estudo foi feito em uma localidade onde três meses antes havia ocorrido uma queimada, e as áreas queimadas e não queimadas ficaram com uma divisória bem clara, facilitando assim as comparações entre ambas. Os pesquisadore coletaram então todos os termitófilos em 30 ninhos distribuídos nas duas áreas: queimadas e não queimadas, e contaram o número de espécies e do número de indivíduos de cada uma dessas espécies.

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Os resultados mostraram que nos cupinzeiros que estavam na zona de stress (ou seja na área queimada) havia uma maior presença de indivíduos termitófilos, provavelmente provavelmente por conta da pressão ambiental. Ou seja, o fogo fez com que os animais buscassem abrigo nos cupinzeiros.

Os cupinzeiros geralmente são feitos de uma mistura de saliva e fezes dos cupins com barro, e não só criam uma barreira física para impedir o fogo, como suas paredes espessas são ótimos isolantes térmicos. Essas estruturas levantadas no meio das savanas são fortalezas que criam refúgios para diversos animais que estão fugindo das queimadas!

Esse estudo demonstrou assim, a importância das relações entre espécies diferentes, que convivem em um mesmo ambiente. Em especial, foi demonstrado como os cupins criam refúgios para outros animais, garantindo a sobrevivência e manutenção das populações destes frente a perturbações, como as queimadas que são frequentes no Cerrado brasileiro.

Um outro resultado curioso, entretanto, foi a relação entre o fogo, os cupinzeiros e um grupo específico de termitófilos: as formigas. Cupinzeiros com formigas apresentaram um padrão diferente na comunidade de termitófilos que não fossem formigas. A presença de formigas fez com que sempre houvesse uma menor quantidade de termitófilos nos cupinzeiros, inclusive não tendo diferença entre aqueles cupinzeiros na área queimada e não queimada. Como muitas formigas são predadoras, provavelmente elas afastam possíveis termitófilos, mesmo sob a influência do fogo. Dessa forma, o que foi observado foi que o stress ambiental favorece a entrada de termitófilos, que provavelmente estão buscando proteção, mas as formigas os inibe de entrar nos cupinzeiros.


Texto por Gabriel Nappi
Publicado originalmente em 21/07/2019


Referências
Monteiro, I., Viana‐Junior, A. B., de Castro Solar, R. R., de Siqueira Neves, F., & DeSouza, O. (2017). Disturbance‐modulated symbioses in termitophily. Ecology and evolution, 7(24), 10829-10838. https://doi.org/10.1002/ece3.3601

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