Cupins da Embraer – De onde vem as “aleluias” e como são produzidas?

Você já reparou que em algumas épocas do ano nossas casas ficam cheias de siriris/aleluias? Quando eu era criança, minha casa ficava tão cheia desses bichos, que eu pensava que a qualquer hora eu iria engolir um! Lembro de me sentar no sofá para ver TV, e só prestar atenção nos bichos voando (eu tinha medo!). Quando tudo aquilo passava eu ficava aliviado pensando: “De onde todos aqueles carinhas vieram? Por que sempre aparecem na mesma época do ano?”. Aposto que essas curiosidades não são só minhas, mas de muita gente. Então espero que esse texto mate a curiosidade de vocês! 

Se você nem sabia que os siriris ou aleluias são cupins, fica sabendo agora, e daqui pra frente chamaremos eles de “alados”. O voo desses insetos pode ser considerado como o “casamento” deles. Saem de suas colônias em busca de parceiros para começarem suas novas famílias, que no futuro também formarão outros cupins alados – e irão fechar o ciclo de vida básico dos cupins.

Antes de continuar nosso texto, convidamos os cientistas Emanuelly Lucena e Israel Soares, da Universidade Federal da Paraíba, e especialistas em revoadas, para esclarecerem algumas dúvidas. A primeira coisa que perguntamos foi: “os alados voam em qualquer condição climática?”. Emanuelly nos respondeu que fizeram um experimento na Caatinga para entender quais fatores ambientais influenciam as revoadas:

“Coletamos alados durante um bom tempo, e a cada dia de coleta medimos algumas coisas: umidade do ar, chuva, temperatura, pressão atmosférica, densidade do ar, velocidade do vento e umidade do solo. Ao final do experimento, fomos analisar os dados e percebemos que tanto a chuva quanto a densidade do ar, parecem exercer uma influência na saída dos vôos. O que não quer dizer que as aleluias costumam voar durante a tempestade, elas geralmente revoaram após a chuva.”

Mas antes que as revoadas aconteçam, existem diversas etapas importantes na produção dos alados. Nas colônias, essa produção é super coordenada através de diversos mecanismos, incluindo a alimentação durante o desenvolvimento e feromônios. São tantos detalhes, que fazem o cupinzeiro parecer uma fábrica da Embraer! A proporção de alados nas colônias varia muito de espécie para espécie. Em Nasutitermes exitiosus, por exemplo, a proporção de alados na colônia gira em torno dos 2%, enquanto que em Zootermopsis laticeps, essa proporção costuma ser maior que 35%. Além disso, em espécies que passam a vida em um único pedaço de madeira e que se alimentam dessa mesma madeira onde vivem, quando o alimento/casa está prestes a acabar, a maioria dos indivíduos se desenvolve/muda em alados para revoar e fundar novas colônias. Esse é o caso de Zootermopsis, por exemplo.

Sabe quando sua avó diz: “menina(o), se você não comer, não vai crescer”?! Nos cupins isso faz muito sentido, pois um dos muitos fatores que podem influenciar o desenvolvimento de alados, é a disponibilidade de alimento para a colônia. Outro fator importante para a produção de cupins alados, é que os já “amadurecidos” liberam feromônios que servem como um sinal para os mais jovens, dizendo: “hey, aqui já tem alado o suficiente – não é para desenvolver asas”. Esses feromônios são disseminados por toda colônia alcançando operários e soldados, até chegarem aos mais jovens, que terão o desenvolvimento alterado.

Mesmo a “linha de produção” de alados sendo tão complexa, em espécies como Marginitermes hubbardi, o tempo entre um cupim virar adulto e estar pronto para o vôo gira em torno de 9-14 dias. Para você ter uma ideia do quanto esse tempo é curto, pelo menos até 2003 um Boeing 747 demorava cerca de 24 dias para ficar pronto, isso porque a linha de produção da Boeing é uma das mais eficientes do mundo.

Depois que os alados são produzidos, ainda podem ficar dias no cupinzeiro em “estoque”, esperando as condições climáticas ideais para voo, assim como em nossos aeroportos, quando não tem como um avião decolar por conta da neblina ou algum outro problema. Em algumas espécies, essa espera pode levar semanas ou até meses. O recorde registrado foi da espécie Anacanthotermes ochraceus, com 6 meses de espera! (Para voar tranquilo, vale a pena esperar).

Antes de saírem, a preparação é enorme não só para eles, mas para todas as castas da colônia. Os soldados e operários fazem uma megaoperação, que vai desde a construção de túneis na madeira, ou no solo, para que os alados possam sair, até soldados que ficam posicionados nas saídas para defendê-las de predadores (como as formigas). Têm espécies que até constroem chaminés que funcionam como uma pista de decolagem (veja a imagem aqui do lado). O controle de cada etapa é importante, até mesmo a quantidade de voos que irão sair é controlada pelos operários, tudo através da arquitetura dos túneis. Um verdadeiro trabalho de logística aeroportuária e só então eles revoam!

Mas nem todo alado irá acasalar e formar colônias, a grande maioria é capturada e consumida por diversos predadores. Então podemos nos perguntar:  “Será que as revoadas de cupins ajudam a distribuir nutrientes pelo ecossistema?”. O Israel nos respondeu que: 

“Quando os alados revoam, são predados por pássaros, lagartos, morcegos, insetos e aracnídeos. Em um único ano cai mais de 160 alados por metro quadrado.”. 

Sendo assim, eles podem proporcionar aos predadores um valoroso rango repleto de nutrientes, energia, proteína, carboidratos, gordura e água.  Israel também compartilhou um vídeo com a gente, de uma aranha predando um siriri/aleluia, que você pode ver abaixo.

As revoadas são fenômenos fantásticos. Pensar que aquele momento é tão importante para os cupins e também complexo o torna ainda mais fascinante. Quando vir aquele bicho voando todo desengonçado, lembra que você está vendo uma futura rainha ou rei, que darão origem à uma colônia inteira. Também, não vamos esquecer de dizer: se você se deparar com alguma revoada, faça umas fotos e vídeos legais, e mande/marque o Wikitermes! ;D


Agradecemos a colaboração de Emanuelly Lucena e Israel Soares, termitólogos da UFPB.


Texto: Samuel Marques Aguilera Leite.


Referência:

Nutting, W.L., Krishna, K., Weesner, F.M., 1969. Biology of Termites: Flight and Colony Foundation. Academic Press, New York, NY, USA, pp. 233-281 vol.1.

Lu, R. F.  and Sundaram, S., 2002. Manufacturing process modeling of Boeing 747 moving line concepts. Proceedings of the Winter Simulation Conference, San Diego, CA, USA, pp. 1041-1045 vol.1, doi: 10.1109/WSC.2002.1172999.

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