A casta dos reprodutores e o dia das mães

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Segundo domingo de maio, aquele dia que exaltamos todas as Mães do mundo, elas que lutaram (ou lutam) para trocar nossas fraldas fedidas educar seus filhos, elas que escutam sempre dos filhos: “mãe, me dá dinheiro?” “eu te amo”. É neste dia de reflexão, sobre respeitar e amar as diversas Mães que existem, que o Wikitermes decidiu contar um pouco sobre a casta dos reprodutores, que inclui a Mãe dos cupins: a rainha!

A maior parte dos filhos cupins da colônia são da casta dos operários e dos soldados que cuidam da manutenção e defesa da colônia, respectivamente. Eles são cegos e estéreis (existem exceções, mas explico mais à frente). E existe a casta dos reprodutores, representada pela mãe rainha e o pai rei (sim os cupins possuem reis, diferente de outros insetos eussociais famosos pelo matriarcado como as abelhas e formigas). Os reprodutores possuem olhos e ocelos (estrutura que capta a intensidade e direção da luz, mas não forma imagem) e, não à toa, tem órgãos sexuais bem desenvolvidos.

Mas antes das rainhas e reis começarem suas próprias colônias, elas passam pela de fase de adolescente ninfa e depois princesa e príncipe alado. A ninfa é a forma juvenil dos futuros alados, são esbranquiçadas, possuem estruturas nas costas que darão origem às asas (os brotos alares) e um abdômen rico em gordura. As ninfas então crescem e se tornam alados, conhecidos popularmente como aleluias ou siriris, os alados possuem dois pares de asas membranosas, os olhos e ocelos já desenvolvidos, e os órgãos sexuais maduros (já são quase rainhas e reis).

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A jornada dos alados começa geralmente no início da estação de chuvas, pois nessa época o clima é mais ameno, o que evita que eles percam muita água para o meio (comparado com outros insetos, os cupins possuem um exoesqueleto fino). É neste momento também que o solo fica mais macio para ser cavado, facilitando o fundação da colônia. Contudo, nem todas a espécies constroem seus ninhos no solo, muitas procuram por madeira morta também. A época de reprodução do cupins é um verdadeiro espetáculo da natureza, os alados, machos e fêmeas, deixam a colônia em revoadas (verdadeiros enxames) à procura de parceiros. É bem comum encontrá-los rodeando postes de iluminação (ou qualquer fonte de luz) ou ainda no chão após alguma chuva. talvez você já tenha xingado por ter que varrê-los depois.

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Após a aterrissagem, os alados logo perdem suas asas: elas possuem um ponto de quebra bem na base, onde com um pequeno contorcionismo os alados agora ex-alados as “remove”. As fêmeas geralmente vão para lugares mais altos, e levantam o bumbum começam a liberar substâncias químicas para atrair possíveis parceiros.Quando ocorre o match, a fêmea sai na frente, e o macho atrás, em uma formação chamada de tandem (veja a imagem). Desta forma brincando de trenzinho, eles saem a procura do local certo para começar o império a colônia. Só depois da escolha de um local adequado é que ocorre a primeira cópula, que dará origem aos primeiros operários. Quando uma colônia cresce e fica madura, o que geralmente leva anos, uma nova ninhada de alados surge e, assim, o ciclo se completa e tudo começa novamente.

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No início da colônia, a rainha e rei constroem uma pequena câmara real, e cuidam dos ovos e jovens, mas depois que os operários assumem essa função, a Mãe rainha basicamente se ocupa em se reproduzir. Aquele abdômen alongado e volumoso é um reflexo disso, é basicamente um saco para alojar os óvulos e ovários hiperdesenvolvidos. O rei também apresenta um pequeno aumento no abdômen, mas nada comparado com o da rainha. O potencial de produção de ovos varia de acordo com a espécie, mas pode ir de dezenas até milhares de ovos por dia! Existem relatos de espécies que botam até 86.000 ovos por dia (é quase um ovo por segundo!).

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Se o papel da rainha e do rei é essencial para a existência da colônia, o que ocorre se algum deles morrer? A colônia entra em colapso? Bom, algumas colônias de fato não conseguem se recuperar após tal perda. Os operários e soldados continuam vivendo e cuidando da colônia até a inevitável morte – que chega muito mais rápido que a de uma rainha, uma vez que enquanto operários e soldados vivem de alguns meses a no máximo dois anos, rainhas podem viver por até 30 anos dependendo da espécie.

Porém, algumas espécies de cupins possuem o que chamamos de plasticidade de desenvolvimento. Anteriormente comentei que os operários e soldados são estéreis, mas que haviam exceções. Nesses casos, a perda da rainha ou rei faz com que alguns indivíduos (conhecidos como falsos-operários) desenvolvam seus órgãos reprodutores e assumam o papel de rainha ou rei! Existem relatos raros de até mesmo soldados com essa capacidade, além de alados que não revoam e viram reprodutores no ninho que nasceram. Esses reprodutores substitutos conseguem perceber a morte do reprodutor primário através da ausência dos hormônios que são constantemente produzidos pelo casal real ativo.

Já foi encontrado uma colônia com aproximadamente 700 rainhas! (Isso ocorreu graças a uma forma de reprodução conhecida como partenogênese) Agora imagine como foi o dia das Mães nesta colônia. Bom, elas provavelmente passaram o dia botando ovos, afinal, alguém tem que povoar a colônia, não é mesmo?

Feliz dia das Mães, nossas eternas Rainhas!


Texto por Gabriel Olivieri

Publicado originalmente em 10/05/2020


Referências:

Bignell, D. E., Roisin, Y., & Lo, N. (Eds.). (2010). Biology of termites: a modern synthesis. Springer Science & Business Media.

Calor, A. R., Vilarino, A., Vasconcellos, A., et al. (2016) Conhecendo os artrópodes do semiárido. Métis Produção Editorial.

Constantino, R. (2015). Cupins do Cerrado. Technical Books Editora.

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